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Startups mobilizam fãs e dão nova cara ao mercado de shows

Financiar produções com ajuda do público e levar apresentações ao vivo para a internet foram estratégias adotadas por empreendedores brasileiros para entrar no jogo do showbiz

Desde o final dos anos 1990, quando o faturamento da indústria fonográfica entrou em declínio, a cena musical tenta sobreviver em meio às inovações tecnológicas. Essa trajetória de queda foi interrompida, contudo, no ano passado, graças ao crescimemento de 9% na receita com downloads legais e serviços de streaming por assinatura. Foi a prova de que internet havia se transformado definitivamente em palco para novas oportunidades de negócios.

Incomodados com uma programação escassa de shows de bandas independentes no Rio de Janeiro, cinco amigos resolveram deixar a plateia e investir nos bastidores dessa antiga indústria. Em meados de 2010, por meio das redes sociais, eles convocaram fãs dispostos a cobrir os custos de produção de uma apresentação do grupo sueco Miike Snow, no Circo Voador. Levantaram mais de 40 000 reais ao longo do projeto, que acabou sendo realizado com sucesso. “Há três anos, ninguém estava produzindo praticamente nada fora de São Paulo. Cheguei a viajar seis ou sete vezes para acompanhar shows e festivais por lá”, lembra Bruno Natal, documentarista carioca e um dos cinco fundadores do site Queremos. A startup, que já soma nesse período mais de 50 eventos, reuniu 150 000 expectadores não só na capital fluminense, mas também em Porto Alegre, Fortaleza, Belo Horizonte e Curitiba.

Para Pedro Waengertner, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios em Marketing Digital na ESPM e cofundador da aceleradora de empresas Aceleratech, o cenário da música está vivendo um período de mudanças devido aos avanços tecnológicos. Neste contexto, empreendedores criativos e dispostos a cobrir as brechas do antigo mercado fonográfico saem na frente. “Ainda não temos modelos definidos, mas sabemos que ninguém sobrevive mais da venda de discos”, diz Waengertner. Por isso, as apresentações ao vivo voltaram a ser usadas como uma importante fonte de receita. “Shows e festivais são cada vez mais estratégicos para conduzir a carreira de um cantor e monetizar os negócios dessa indústria.”

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Uma forma de potencializar o alcance de apresentações musicais é levá-las simultaneamente para as plataformas virtuais. Mas esse esforço deve ser acompanhado de uma estratégia capaz de envolver a audiência on-line não apenas durante a realização do evento, mas também antes e, principalmente, depois. “Terá sucesso o empreendedor que conseguir estreitar o engajamento do público com um artista ou uma determinada causa, fazendo perdurar essa sensação de proximidade por mais tempo”, acredita o professor da ESPM.

O administrador Gustavo Marques, ex-diretor de atendimento da AgênciaClick Isobar, apostou nas novas possibilidades de conexão entre fãs, artistas e empresas que patrocinam shows e festivais para fundar Livebiz, em junho do ano passado. Desde então, a startup exibiu, via streaming, 12 apresentações ao vivo nas fanpages de seus clientes na internet. “Mas as empresas têm de oferecer conteúdo de qualidade para agradar essa audiência. Nosso trabalho é alinhar marcas e artistas capazes de conversar com o mesmo público-alvo para incrementar a estratégia de relacionamento com os clientes”, afirma o CEO da Livebiz.

Ele ressalta que a presença de marcas com uma base consistente de seguidores nas plataformas digitais não é mais novidade. “Para criar uma conversação relevante sobre o evento nas redes sociais, você deve preparar a audiência durante semanas, promovendo sorteios de CDs, ingressos e material autografado, além de levar convidados para conhecer o artista de perto”, explica Marques, que atende clientes como Fiat e Nivea.

O CEO da Livebiz, que teve um faturamento estimado em 500 000 reais em seu primeiro ano de operação, destaca o show da cantora Claudia Leitte, realizado em São Paulo para 100 convidados da Sky, empresa de TV por assinatura, como uma de suas ações de maior repercussão até agora. “Com a transmissão pela internet, alcançamos a liderança entre os assuntos mais comentados no Twitter naquele dia e, ao mesmo tempo, fugimos do estigma do patrocinador de grandes eventos, que não costuma ter seu nome lembrado pelo público ao final dos espetáculos”, avalia.

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Entre os artistas com quem Marques já trabalhou estão nomes como Maria Gadú, Jota Quest, NX Zero e Pet Shop Boys. Ele acredita que a democratização do acesso ao entretenimento via internet pelas empresas não serve apenas para valorizar marcas, mas todo o cenário do showbiz. “A tecnologia mudou a forma com que o público consome música e percebo que os artistas estão cada vez mais dispostos e entusiasmados para aproveitar essa tendência”.

Do ponto de vista do público, Pedro Waengertner acredita que os fãs também estejam abertos para se integrar aos novos negócios de entretenimento. “Essa é a base do crowdfunding, mas é preciso lembrar ao empreendedor que adota um modelo baseado na oferta gratuita de produtos e serviços, mesmo que seja apenas para os primeiros apoiadores, que a sensação de frustração por uma promessa não cumprida é o pior resultado”, frisa o coordenador da ESPM

Foi essa preocupação que levou os sócios do Queremos a adotar o chamado “movimento pivot”, estratégia aplicada por startups que precisam realizar uma mudança decisiva em seu modelo de negócio. No site carioca, parte da ideia inicial foi mantida: o planejamento dos shows continua partindo da oferta de uma cota de ingressos para fãs interessados em investir na produção do evento. Mas a ideia de devolver aos primeiros financiadores o valor integral do ingresso sempre que uma apresentação era realizada, teve de ser abandonada.

“Para que a organização não tivesse prejuízo, algumas apresentações, principalmente de bandas menores, acabaram não se realizando. Agora, sempre que o fã que chamamos de ‘entusiasmado’ tiver apoiado dez shows, ele poderá entrar de graça numa próxima apresentação”, explica Bruno Natal, um dos sócio do site Queremos. Essa disposição em inovar e promover ajustes nessa curta trajetória fez com que a startup fosse convidada em setembro do ano passado para apresentar seu modelo de negócio num seminário promovido em São Francisco, nos Estados Unidos, pelo portal de tecnologia Techcrunch.

Desde então, os sócios decidiram abrir a plataforma para que produtores independentes também pudessem realizar seus shows e já inauguraram uma base em Nova York, comandada por Tiago Compagnoni, cofundador do site. Lá, sob o nome WeDemand, eles se preparam para levar o rapper Emicida a um festival que acontece no final de julho no Brooklyn, em Nova York. Será a terceira apresentação ao vivo promovida em solo americano pelo “Kickstarter dos concertos ao vivo”, como o site brasileiro foi chamado pelos organizadores do evento na Califórnia.