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St Gallen: ‘fábrica’ de banqueiros suíços decide aderir ao capitalismo sustentável

Evento na cidade suíça trata, pela primeira vez, do risco de se deixar para as futuras gerações um modelo econômico fadado à ruína

Todos os anos, a cidade de Saint Gallen, a 78 quilômetros de Zurique, é palco de discussões entre economistas, empresários e políticos de dezenas de nacionalidades que se reúnem num simpósio semelhante a uma versão mais compacta do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O evento, que teve início na noite de quarta-feira e dura três dias, é promovido pela Universidade de St Gallen, uma espécie de ‘fábrica’ de banqueiros suíços desde o final do século XIX. No encontro de 2014, mais do que tentar encontrar soluções para recuperar o crescimento mundial, os líderes (sobretudo europeus) começam a demonstrar mais preocupação em relação à sustentabilidade da economia para os anos que virão. Deixar às futuras gerações sistemas de previdência falidos, perspectivas de aumento de impostos, além de educação e emprego em declínio, são riscos com alta probabilidade de virar realidade, apontam os organizadores.

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O tom do evento foi dado pelo professor de Economia da Universidade de Boston, Laurence Kotlikoff, ao afirmar em sua apresentação que os adultos, atualmente, travam uma guerra contra os próprios filhos – e estão ganhando. “Estamos deixando para eles um mundo com menos empregos, mais poluição e um sistema financeiro e previdenciário à beira do colapso. Eles terão de financiar a nossa aposentadoria a um preço muito mais alto do que pagamos hoje”, afirmou Kotlikoff. As discussões sobre formas de mitigar o choque entre gerações levantaram pontos como o papel da tecnologia e da entrada das mulheres no mercado de trabalho como estratégia de atenuar os riscos. Cesar Purisima, ministro das Finanças das Filipinas, afirmou que se torna cada vez mais necessária a constatação de que a economia real, e não o mercado financeiro, deve levar o mundo a progredir de forma sustentável – Purisima não se referia ao meio ambiente, e sim à perenidade das instituições financeiras. “O mercado financeiro vive de uma grande ilusão. E essa ilusão não pode ser o parâmetro econômico que devemos perseguir”, afirmou.

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A discussão sobre a perenidade do modelo capitalista tal como é atualmente ocorre num momento em que o mundo digere a teoria do economista francês Thomas Piketty, autor do livro O Capital no Século XXI, que bateu recorde de vendas na Amazon e será traduzido para o português pela Intrínseca ainda este ano. Com um grande embasamento matemático, Piketty defende a tese de que a desigualdade será letal ao capitalismo — e que só há uma chance de reverter o jogo: com a sobretaxação progressiva do patrimônio dos mais ricos até cerca de 80%. A teoria do economista francês caiu nas graças de economistas como o ganhador do Nobel Paul Krugman, mas mostra pouca aplicabilidade num mundo que defende o livre-mercado e a livre-iniciativa. Em St Gallen, universidade que formou presidentes de bancos como UBS, Crédit Suisse e Deutsche Bank, o pragmatismo financeiro começa a dar espaço para abordagens menos ortodoxas. Mas Piketty não foi sequer citado por essas bandas. Os banqueiros suíços dão cada vez mais sinais de que a perenidade das instituições está em primeiro plano entre suas preocupações. Mas ainda estão longe de acreditar na transferência forçada de renda como melhor alternativa para atingir o capitalismo perfeito.