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Site oferece descontos irreais, não entrega e é banido pelo Procon

Com propaganda enganosa, produtos falsificados e queixas que rivalizam com empresas de milhões de clientes, como bancos e operadoras de telefonia, a FastOn não tem nem telefone de contato

Por Adriano Lira 23 abr 2013, 07h24

Em tempos em que a compra on-line virou ato banal, quem resiste em aderir ao comércio eletrônico é tachado de antiquado. Mas ser “moderno” implica não só aproveitar as facilidades de serviços da web, como também estar sujeito à má-fé de alguns comerciantes – o famoso “caô”, na linguagem coloquial. Nesta segunda-feira, a Fundação Procon-SP publicou uma lista de 71 novos sites não recomendados pela entidade – a lista completa já conta com 275. Entre eles está o da empresa FastOn – que, aparentemente, trabalha com comércio eletrônico, mas “não se lembra” de entregar as encomendas que são compradas por meio de seu site.

Ao longo dos últimos meses, dezenas de leitores escreveram ao site de VEJA, utilizando a seção de comentários, para fazer reclamações sobre encomendas não entregues pela empresa. No site Reclame Aqui, que reúne queixas de clientes insatisfeitos, 5.366 denúncias foram feitas contra a FastOn desde junho de 2012. “Comprei um relógio da FastOn há 35 dias e a empresa ainda não entregou e não deu satisfação nenhuma. Mandei vários emails, mas não obtive resposta. Acho que, assim como muitos, dancei”, escreveu o leitor Getúlio Júnior, em um dos comentários. Até hoje, apenas 3.285 queixas foram respondidas pelo site.

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Sites de vendas burlam a Receita e podem prejudicar consumidores

O site da FastOn exibe ofertas de produtos eletrônicos, perfumes, relógios e acessórios de grife – todos com descontos muito acima da média. Um celular Samsung S4, que só será lançado no Brasil no próximo sábado e deve custar mais de 2 mil reais, já é “vendido” na loja virtual por apenas 195 reais. O site também oferece uma infinidade de cópias: um telefone com o sugestivo nome de Hiphone 6, que tenta reproduzir o famoso modelo da Apple, custa 100 reais. O iPhone 5, o modelo mais moderno da fabricante original, não é encontrado por menos de 2,5 mil reais no Brasil.

Não é difícil perceber o engodo ao entrar no endereço eletrônico da empresa. Na aba “Quem Somos”, no rodapé da página, o link não leva o cliente a nenhum conteúdo que esclareça a origem da FastOn. Não há um Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) e tampouco um telefone de contato ou atendimento on-line. Só é possível alguma comunicação com a empresa por meio do preenchimento de um formulário.

Para tentar imprimir alguma credibilidade ao site, os “donos” inseriram banners de lojas virtuais renomadas no topo da página, como a Polishop e a Dafiti. Mas as companhias nada têm a ver com as atividades da FastOn. Outro cliente enganado pelo site, Ronaldo Rodrigues, disse que espera seu pedido há quase um ano. “Paguei dois boletos em agosto de 2012 e ainda não recebi”, afirmou.

Reputação no limbo – O Procon-SP recebeu 51 reclamações sobre a FastOn desde o início de 2013. De acordo com Fátima Lemos, assistente técnica da entidade, as queixas normalmente acontecem por dois fatores: a ineficiência dos canais de atendimento e o fato de a empresa não entregar seus produtos. Também houve denúncias de produtos entregues com defeito, venda enganosa e não pagamento de indenização.

No site Reclame Aqui, a FastOn foi a 28° empresa com mais queixas registradas no último domingo e está na 43° colocação quando se leva em conta as reclamações dos últimos 30 dias, rivalizando em índice de insatisfação com bancos e operadoras de telefonia móvel, que possuem milhões de clientes. O site de reclamações também calcula a reputação das empresas, de acordo com a satisfação dos clientes: a classificação da FastOn é “não recomendado”, a pior reputação possível.

Levando em conta as reclamações desde o começo das atividades da FastOn, apenas 10,9% dos clientes comprariam novamente no site. A nota média do consumidor, que varia de 0 a 10, foi de 1,92 para a FastOn. O tempo médio de resposta às reclamações assusta: o site de ofertas levou, em média, 39 dias para responder seus clientes. Para Mauricio Vargas, presidente do Reclame Aqui, o site é “uma piada”. “A empresa falsifica selos de confiabilidade, não tem um serviço de atendimento ao cliente sério e se aproveita da vontade dos clientes em levar vantagem nas compras”, diz.

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Vargas acredita que a FastOn não deverá ficar muito tempo no ar. “Com a experiência que temos no mercado on-line, posso afirmar que a FastOn deve fechar em menos de 30 dias”. Segundo ele, mesmo que a empresa deixe de funcionar, não é possível garantir que os responsáveis sejam punidos. Há casos de sites que foram retirados do ar, mudaram de nome e voltaram a cometer os mesmos delitos. Fátima, do Procon, afirmou que, caso o órgão perceba que há alguma atividade ilícita sendo praticada pela empresa, o caso será repassado à polícia.

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Fique alerta – Especialistas ressaltam o papel dos sites de comparação de preços na briga contra lojas virtuais não confiáveis. Esse tipo de site, que tem o Buscapé como seu maior expoente, lista todas as ofertas de um determinado produto na internet – assim, os usuários podem escolher a mais barata. Contudo, é importante verificar se os sites que vendem produtos mais em conta são de confiança. Antes de comprar, o Procon indica verificar se a oferta não é vantajosa demais e se o canal de atendimento ao cliente funciona. Também é importante procurar referências das lojas on-line na rede. No Facebook, há uma página dedicada a mostrar reclamações contra a empresa – que leva o nome de FastOn, Enganar é Isso.

A reportagem não conseguiu entrar em contato com a FastOn. Segundo o Procon, o site é gerido por uma empresa chamada Venda Expressa Comercial Limitada. De acordo com a Junta Comercial de São Paulo, a empresa está localizada no bairro Jardim Monte Verde, próximo a Cidade Tiradentes, na região Metropolitana de São Paulo – contudo, o endereço (rua e número) fornecido pela Junta não corresponde a nenhum endereço válido. O site é listado como sendo uma microempresa com capital de 10 mil reais.

O site de VEJA preparou uma página de Perguntas e Respostas sobre como o consumidor pode buscar seus direitos em casos de compras não recebidas.

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