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Seu dinheiro de volta: por que o ‘cashback’ é a febre do momento

Mecanismo que devolve parte do valor de uma compra está em alta. Algumas instituições repassam até 10% da quantia gasta

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 16 abr 2021, 11h31 - Publicado em 16 abr 2021, 06h00

Quem já passou pela experiência de encontrar um trocado esquecido, mesmo que se trate de uma pequena quantia, conhece bem a sensação. Recuperar parte de um dinheiro teoricamente gasto é um prazer que sempre vem a calhar, especialmente em tempos de crise. Atento a esse mecanismo, o mercado tem criado serviços de recompensa cada vez mais sedutores. No passado, fizeram sucesso os programas de milhagem e os cupons de desconto em restaurantes e lojas. Com a popularização do e-commerce e o surgimento de moedas e boletos virtuais, as alternativas se expandiram e uma palavrinha estrangeira tornou-se a nova febre do momento: cashback.

Trata-se de um sistema segundo o qual o consumidor, ao efetuar uma compra, recupera parte do valor em forma de saldo (em reais, e não pontos), que poderá ser reutilizado de diversas formas. O cash­back foi desenvolvido nos Estados Unidos no fim do século passado e o que já era moda no exterior começou a ser amplamente adotado no Brasil durante a pandemia. Segundo levantamento da consultoria Clear­Sale, o setor de e-commerce cresceu 22% no país em 2020. No mundo, as transações com cash­back movimentaram 108 bilhões de dólares e a expectativa é que continue avançando acima de dois dígitos por muito tempo. “O cash­back é um benefício que atrai e fideliza o cliente”, afirma Pedro Guasti, cofundador da Ebit|Nielsen, plataforma que mede a reputação das lojas virtuais. “É uma alternativa bastante interessante, sobretudo para produtos de maior valor agregado.”

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NA ONDA - Benchimol, da XP: despesas com o cartão viram investimento – Germano Lüders/.

As buscas no Google pelo termo explodiram na última Black Friday e há cada vez mais iniciativas consolidadas. Na Méliuz, empresa pioneira em cash­back no país, foram abertos 2,4 milhões de contas de janeiro a março, 73% a mais que no primeiro trimestre do ano passado. Uma das líderes do mercado é a Ame Digital, fintech da B2W, grupo que controla as Lojas Americanas, e soma 17 milhões de downloads de seu aplicativo. Presente em 1 700 lojas físicas e com cerca de 3 milhões de parceiros no país, a Ame movimentou 5,9 bilhões de reais no quarto trimestre de 2020, um crescimento de 200%, na comparação com um ano atrás. Recentemente, em parceria com a fintech Bcredi, a Ame ofereceu 2% de cashback em uma linha de empréstimo de 3 milhões de reais — o que renderia, portanto, a devolução de 60 000 reais. O abastece aí, que deixou de ser apenas um app de descontos nos postos Ipiranga e passou a ser uma plataforma de serviços que atrai 200 000 novos clientes por mês, e o PicPay são outros bons amigos dos caçadores de recompensas.

As inovações do setor muitas vezes esbarram na ausência de educação financeira adequada dos brasileiros. Estima-se que 80% dos investidores nacionais deixem seu dinheiro na poupança, um produto que, atualmente, rende apenas 70% da (baixa) taxa Selic. Além disso, o uso desenfreado do cartão de crédito pode levar a dívidas impagáveis. Recentemente, a plataforma tecnológica de investimentos XP anunciou uma novidade que almeja reduzir esses problemas, uma espécie de evolução do cash­back, batizada de invest­back. Ao efetuar compras com o cartão de crédito, o cliente recebe de volta ao menos 1% em todas as compras e entre 2% e 10% naquelas efetuadas dentro do marketplace da empresa (Nike e Spicy estão entre as marcas parceiras com cash­back máximo). O diferencial é que, ao ultrapassar a marca de 50 reais, o valor acumulado é encaminhado para um fundo de investimentos. Em vez de apenas recuperar o dinheiro, o cliente pode fazê-lo render. “Queremos que os cartões deixem de ser vilões do endividamento e passem a ser aliados de investimento”, afirma Guilherme Benchimol, fundador da XP.

Arte Cashback

Assim como qualquer tipo de promoção, o cashback pode trazer benefícios, mas convém tomar alguns cuidados. É primordial verificar a credibilidade da empresa e analisar suas regras, para não ficar exposto a golpes. Também é necessário comparar os preços — afinal, o que adiantaria um cashback de 5% sobre um produto 10% mais caro? Há ainda o risco comportamental exacerbado na pandemia. “Muitas pessoas estão abatidas em casa e têm preenchido esse vazio fazendo compras. Para economizar, é preciso se questionar: ‘Eu realmente preciso desse item?’ ”, alerta Carol Dias, a mais influente educadora financeira do país, com 5,9 milhões de seguidores no Instagram. “As compras têm de ser racionais, e não emocionais.” Um descontinho, ou aquele dinheiro que você já não contava com ele, é sempre bem-vindo.

Publicado em VEJA de 21 de abril de 2021, edição nº 2734

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