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Setor externo ajuda PIB, mas agressividade contra a China pode prejudicar

Para ex-presidente do Ipea, cenário internacional foi responsável pelos bons resultados do Brasil, conforme divulgação do PIB do primeiro trimestre

Por Victor Irajá 1 jun 2021, 18h22

A economia brasileira cresceu 1,2% no primeiro trimestre, em grande parte calçada nos resultados do agronegócio, exportações e importações, que cresceram 5,7%, 3,7% e 11,6% no período, demonstrando dependência do setor externo. “O agronegócio, os Estados Unidos se recuperando e vacinando a população, a China tomando um ritmo forte de crescimento, tudo isso é ótimo para a economia mundial, e se reflete aqui. A recuperação mundial traz renda, investimentos e aumenta a arrecadação tributária”, diz Ernesto Lozardo, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea. “Dependemos dos Estados Unidos, da China e da Europa. Dependemos do capital internacional para sobreviver.”

Lozardo, porém, pondera que a péssima condução da política externa do governo coloca o crescimento em xeque. “Precisamos ter juízo e ser parceiros desses países, e não ficar em agressividade inócua contra o presidente Joe Biden e a China. Trata-se um jogo de cena que só piora nossa situação e coloca o Brasil num papel de menor relevância como nunca tivemos na área internacional”, analisa.

A balança comercial, também divulgada nesta terça-feira, 1º, registrou um superávit de 9,291 bilhões de dólares no mês, segundo o Ministério da Economia. As exportações cresceram. De acordo com o governo, esse é o maior superávit comercial para maio desde o início da série histórica do ministério, de janeiro de 1989, e o bom resultado está relacionado à forte demanda mundial por produtos básicos, como alimentos e minério de ferro, dos quais o Brasil e grande exportador.

Retomada

O setor mais afetado pela pandemia, o de serviços, apresentou recuperação de 0,4%, apesar do recrudescimento da Covid-19 causado pela segunda onda da doença. Isso tem causa num fator preocupante: o povo perdeu o medo do vírus. “A população decidiu enfrentar o vírus, o que é muito arriscado. Isso porque houve coordenação, seja o que Deus quiser, o governo virou as costas para a ciência, faltou coordenação federal”, diz Lozardo. “Poderíamos ser muito mais radicais e fechar a economia por 20 ou 30 dias, com impacto menor, sem esse trauma. Existe a vontade de continuar enfrentando a pandemia. Levar a população a morte é arriscado. Está morrendo mais gente”, lamenta.

No ano passado, a economia brasileira recuou 4,1%, um resultado muito menos nocivo do que o projetado no início da pandemia, quando se chegava a antecipar queda de 9%. O crédito para o bom resultado acima das expectativas está em políticas consideradas acertadas, como o auxílio emergencial, e o andamento da agenda de reformas. “O auxílio foi fundamental para manter a economia viva. A curto prazo, também é importante dar sinalizações de que a dívida não vá sair do controle”, diz ele, citando o Marco do Saneamento e a autonomia do Banco Central (BC), aprovados durante a pandemia. A manutenção das taxas de juros baixas também foram fundamentais para que o Brasil colhesse resultados menos prejudiciais do que os projetados.

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