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Setor elétrico lidera retomada da bolsa na pandemia

Ativos ligados são os de melhor desempenho desde o pico histórico de 23 de janeiro; bancos e construtoras vão mal

Por Luisa Purchio - Atualizado em 21 jul 2020, 11h26 - Publicado em 21 jul 2020, 09h50

Desde meados de março, quando o Ibovespa alcançou seu nível mais baixo desde o início da pandemia da Covid-19, o índice vem se aproximando a passo lentos do patamar pré-crise, acompanhando as principais bolsas internacionais. Na segunda-feira 20, o Ibovespa fechou acima dos 104 mil pontos — antes da crise da Covid-19 ele flutuava ao redor de 115 mil pontos. Alguns fatores contribuíram para que os ativos brasileiros saíssem do fundo do poço. Em primeiro lugar, a Selic em baixas históricas e o incentivo dos influencers financeiros levaram a uma entrada em massa de pessoas físicas na B3: um estudo do BTG Pactual mostrou que em maio e em junho o volume movimentado pelos pequenos investidores de varejo na B3 se equiparou ao movimentado por investidores institucionais, como fundos e bancos. Além disso, o governo Bolsonaro está menos desalinhado com o Congresso, o que dá melhores perspectivas de aprovação das reformas estruturais e aumenta a confiança do mercado. Como toda crise, alguns setores foram mais impactados que outros. Um ranking elaborado por VEJA, no período de dia 23 de janeiro, pico histórico do Ibovespa, até a segunda-feira 17, mostra quais são os segmentos da B3 mais afetados pela crise da Covid-19 e os que melhor sobreviveram ao congelamento da economia durante a quarentena.

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Em primeiro lugar, o segmento que mais se valorizou na B3 foi o BDRX, ou Índice de Recibos de Depósitos Brasileiros, ao qual pertencem ações de empresas estrangeiras negociadas na bolsa brasileira. Com valorização de 129% no período, dele fazem parte companhias que vem despontando na crise e que são responsáveis pelo crescimento das bolsas de Nova York: as Big Techs, entre elas Apple, Microsoft, Amazon, Alibaba e Facebook. Em meio à pandemia, o isolamento social e o home office explodiram o valor dessas empresas. Para se ter ideia, o índice americano Nasdaq, composto por empresas de tecnologia, valorizou 112% no período.

Quanto às empresas brasileiras, as pertencentes ao setor elétrico foram as que tiveram melhor desempenho no período. Dessa forma, o Índice de Energia Elétrica ficou em segundo lugar no ranking, sendo o segmento brasileiro que possuiu menor desvalorização no período, se mantendo em 17 de julho em 92% do valor de 23 de janeiro.  A razão é simples: energia faz parte dos chamados setores defensivos, e junto com gás e saneamento básico continuam sendo consumidos mesmo em momentos de crise. Além disso, na área de transmissão de energia os contratos de concessão são firmados a longo prazo e em cima de quantidades e preços pré-definidos, o que permite que elas fiquem blindadas em crises de curto e médio prazo. Já as distribuidoras de energia foram menos impactadas pelo fechamento do comércio e pela inadimplência devido aos auxílios do governo que vigoraram entre abril e junho. A mesma lógica de serviço essencial ocorreu com o Índice do Setor de Utilidade Pública, que ficou em terceiro lugar, em 91%.

Empatado em terceiro lugar está o IGC-NM, também em 91%. Ele corresponde às empresas com boa governança corporativa, como Vale, B3 e Magazine Luiza. “São papeis que subiram muito nesse ano. A Vale se beneficiou com a alta do dólar e da cotação do minério do ferro, enquanto a B3 se valeu do cenário de juros estruturalmente baixos. Já a Magazine Luiza se trata de uma companhia com forte atuação no e-commerce, e se beneficiou desse novo comportamento dos consumidores no período de isolamento social”, diz Paloma Brum, analista da Toro Investimentos.

Na outra ponta do ranking, o setor em pior desempenho e 10ª classificação é o IMOB, Índice Imobiliário, em apenas 72%. É curioso observar que enquanto o IMOB é composto por incorporadoras e construtoras e se desvalorizou muito, o índice IFIX, que corresponde aos Fundos de Investimento Imobiliário, está na outra ponta e, em 4º lugar, teve bom desempenho. “As dinâmicas dos setores são diferentes. Os fundos têm uma geração de caixa maior e destravada. O principal motivo da alta foram as taxas de juros baixas, mas contribuiu a baixa a inadimplência nos prédios. Além disso, muitos fizeram diferimento do aluguel, o que diminuiu o risco”, diz Carlos Martins, gestor dos fundos imobiliários da Kinea.

Os segmentos em 9º lugar no ranking, com valor 82% ao de janeiro, são o SMLL, de Small Cap, o INDX, do setor industrial, e o IFNC, do setor financeiro. Ao índice de Small Cap percentem algumas empresas agudamente afetadas pela crise e o cancelamento de viagens, como CVC e Gol. Já o setor industrial também foi um dos que pior desempenharam no período, devido à diminuição no consumo da população e o fechamento do comércio: queda de 21,9% em maio de 2020, em relação ao mesmo mês do ano anterior. O setor financeiro, por sua vez, é composto por 19 instituições bancárias, entre eles Itaúsa, BTGP e Bradesco. Para o baixo resultado das instituições financeiras pesou o risco de inadimplência e a necessidade de aumentar as provisões. “Foram muitos impactos ao banco. Houve também aumento das CSLL, a contribuição social sobre o lucro líquido dos bancos, e a discussão de se criar um teto para os juros do cheque especial e o cartão de crédito. Tudo isso implica uma redução de receitas”, diz Paloma Brum, analista da Toro Investimentos.

Como a taxa Selic, atualmente em 2,25%, levará um tempo para começar a subir – o Copom estima que ela subirá para 3,75% ao ano em 2021 – esse pode ser um bom momento para investir no mercado de capitais. É preciso lembrar, porém, que além de o momento ser de grande volatilidade, depois das grandes crises sempre há uma nova onda de pessimismo e ela ainda não aconteceu nas bolsas brasileiras. Por isso antes de se aventurar é importante saber poupar, diversificar as aplicações e começar a se aventurar aos poucos no mercado de ações.

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