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Serviços vendem vouchers para antecipar receitas durante pandemia

Antes da compra, consumidor deve se certificar se há descrição da oferta e política de cancelamento caso o estabelecimento feche durante a crise

Por Larissa Quintino Atualizado em 30 abr 2020, 17h44 - Publicado em 27 abr 2020, 12h00

Voucher: uma palavra que voltou à moda com a pandemia do coronavírus. O auxílio emergencial do governo federal para trabalhadores informais, por exemplo, ganhou o apelido de ‘coronavoucher‘. E as empresas embarcaram na tendência: prestadores de serviços aderiram à prática dos vouchers como forma de antecipar vendas durante o período de quarentena e portas fechadas. Restaurantes, bares, centros de estética e até mesmo agências de viagem oferecem serviços em valores promocionais para serem usados depois da pandemia. Ou seja, não há data certa para o uso daquele produto, mas sim uma promessa de que o cupom possa valer um jantar bacana, um bom corte de cabelo ou momentos de descaso quando a crise passar. Porém, antes de comprar é preciso que o consumidor se atente que aquele negócio pode não existir mais no futuro, dado o risco latente do período ocioso para as empresas.

Na última semana, a Azul começou a vender pacotes de viagens por meio de sua agência, a Azul Viagens. A ideia foi montar um pacote flexível para que a empresa consiga adiantar receitas e tocar a operação em um momento que os voos da companhia tiveram queda de mais de 90%. Os pacotes promocionais da companhia — que partem da casa dos 1.000 reais — são divididos em dois eixo: praia ou destinos mais, digamos, invernais e podem ser utilizados de julho a dezembro deste ano e de janeiro a abril de 2021. Ao fazer a compra, o cliente tem de 40 a 60 dias antes da data que pretende viajar para bater o martelo sobre o dia de partida e o destino Maceió, Porto Seguro, Porto de Galinhas, Natal, Fortaleza, Salvador e João Pessoa para curtir o calor e Curitiba, Gramado ou Foz do Iguaçu para os dias de frio. Caso queira trocar o dia da viagem ou o local, há multa de 10%. Se a viagem tiver impedimento de ocorrer por causa de aumentos de casos do coronavírus, ressalte-se, não há multa. “Nós fizemos um desenho para que fossem antecipados recursos para a companhia e para os franqueados, que sofreram bastante com o fechamento dos shoppings e também proporcionar opções boas para o cliente que queria viajar”, afirma Daniel Bicudo, chefe do programa de fidelidade da Azul. “O turismo sofreu muito agora, mas acreditamos que, na saída da crise, as pessoas queiram viajar”, completa ele. 

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A aposta da Azul é arriscada, porque não há garantia de que serviços de hotéis e traslados nos destinos escolhidos sobrevivam à pandemia. Segundo a Fundação Getulio Vargas, o setor deve encolher 39% deste ano, o que pode levar à falência de empresas. De acordo com Bicudo, a empresa garante que a viagem do consumidor irá acontecer. Isso porque os destinos escolhidos têm uma vasta oferta de rede hoteleira. “Se algum hotel não estiver funcionando, realocamos o cliente em outro de uma mesma categoria. Deixamos o pacote bem aberto por isso. Haverá hospedagem em hotel 3 ou 4 estrelas, mas o local em si terá o repasse do recurso para a reserva próximo da viagem. Se o hotel não existir, o cliente irá ser hospedado em outro local da mesma categoria”, diz ele.

O diretor do Procon-SP, Fernando Capez, explica que não há nenhuma proibição para que a empresa ofereça serviços futuros e cobre por eles agora. No entanto, a oferta feita precisa ser cumprida pelo fornecedor tão logo a evolução da pandemia permita o funcionamento dos estabelecimentos sem colocar a saúde do consumidor em risco. Segundo Capez, é necessário que a oferta seja clara, porque a venda do serviço acarreta na sua execução futura. Por isso, o Procon-SP orienta o consumidor a se informar sobre o histórico da empresa, não comprar ofertas por impulso e só adquirir vouchers. A relação está protegida pelo código de defesa do consumidor. Quem comprar vouchers pela internet tem até sete dias após a transação para desistir da compra da promessa. “É claro que há um risco da empresa fechar. Neste caso, a obrigação jurídica da prestação do serviço ou fornecimento do produto existe, mas a possibilidade econômica, não. Não há proibição de venda de vouchers, mas o consumidor pode estar adquirindo apenas uma promessa, então é preciso atenção”, alerta.

  • Para o educador financeiro Reinaldo Domingos, essa prática do mercado pode abrir uma série de oportunidades para o consumidor, desde que o dinheiro não falte para a pessoa. “Se o orçamento para coisas básicas, comida, água, luz, moradia e edução estiver batendo, vale a pena investir”.

    As gigantes no setor de bebidas, como Ambev (em parceria com Nestlé e Nespresso) e Heineken (junto com a Campari), também apostaram nos vouchers. Neste caso, as empresas intermedeiam a venda de consumação em bares e restaurantes parceiros e o cliente que comprar poderá usar o valor depois que a pandemia passar. A ideia é antecipar recursos para estes estabelecimentos para evitar que esses locais fechem. Para as empresas de bebidas, quando mais estabelecimentos abertos, mais há circulação de seus produtos. Em menos de um mês, a Ambev, por meio da iniciativa “Apoie um Restaurante”, da Stella Artois, vendeu mais de 89 mil vouchers para 4,3 mil restaurantes cadastrados na plataforma. Em uma outra plataforma, “Ajude um Boteco”, da Bohemia, há outros 6 mil bares cadastrados. Nos programas da Ambev, o cliente compra um voucher e ganha consumação no valor dobrado: ou seja, se pagou 50 reais, poderá consumir 100 reais quando voltar. No caso da Heineken, o valor é dobrado para o estabelecimento: se o consumidor comprar 50 reais de consumação, terá direito ao consumo de 50 reais, já o bar recebe 100 reais. 

    O risco para o consumidor, que é de o restaurante fechar, está coberto pelas grandes empresas, que prometem reembolsar o dinheiro caso o local não exista mais. A falta de clientes deve levar ainda ao fechamento de 30% dos restaurantes e similares em toda a rede brasileira, cerca de 200 mil estabelecimentos, de acordo com cálculos da Confederação Nacional do Turismo (CNTur).

    Para tentar um respiro nas contas fixas de sua hamburgueria em Jundiaí, no interior de São Paulo, o empreendedor Rafael Zochetti, 41 anos, cadastrou seu restaurante em uma das plataformas de voucher. Em pouco mais de uma semana, vendeu 30 vouchers. Segundo Zochetti, a ação ajuda na antecipação de contas para tocar o negócio, que funciona agora exclusivamente via delivery e teve 35% de queda em seu faturamento. “Nesse momento, estamos pensando a curto prazo, em tocar o negócio e passar essa crise. Mas, ao mesmo tempo que essa antecipação é boa ela também é complicada. Lá na frente, as pessoas virão usar os vouchers que adquirimos e nós não estaremos recebendo, mas precisaremos vender o produto. É complicado nessa questão de fluxo, mas é uma das alternativas que temos para nos manter agora”.

    A iniciativa dos vouchers, que passou a ser adotada por grandes empresas, começou com pequenos empreendedores, afetados frontalmente pela crise. É o caso por exemplo da esteticista Silvia Andrade, de 51 anos, proprietária de um pequeno estúdio de beleza na Mooca, Zona Leste de São Paulo. Silvia se viu, do dia para a noite, tendo que fechar as portas de seu salão, e com isso também, as portas de seu rendimento. Para conseguir continuar pagando as contas, que não pararam de chegar, ela decidiu fazer uma oferta para suas clientes via WhatsApp: quem comprar 50 reais terá direito depois a serviços no valor de 70 reais, quem comprar 100 reais poderá fazer procedimentos de até 140 reais, ao comprar 200, o valor do crédito fica em 260 reais e para quem comprar 300 reais, é possível utilizar serviços de até 380 reais. A única regra, segundo o anúncio de Silvia, é que o uso precisa ser feito ainda em 2020. “A cliente pode fazer qualquer serviço do nosso espaço com esse crédito. Foi uma maneira que encontrei para ver se entra algum dinheiro”. O retorno, entretanto, não foi o esperado por Silvia: das 300 clientes que possui, cerca de 10 compraram vouchers. “Consegui pagar umas contas do dia a dia e, por sorte, consegui postergar o aluguel do espaço. Como não tenho direito ao auxílio do governo, tento me virar com o que posso”. Mesmo com a necessidade batendo a porta, Silvia afirma que só quer voltar a trabalhar quando houver indicativos de que é seguro. “Estou tentada a voltar, mas além de não poder, não quero botar ninguém em risco. É uma situação que nunca vivi antes”.

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