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Selic e inflação baixas podem se perpetuar, caso reformas fiscais avancem

Política de controle de gastos será fundamental para que nova realidade de juros e de inflação alcance eficácia

Por Felipe Mendes - Atualizado em 18 jun 2020, 10h15 - Publicado em 18 jun 2020, 08h34

O corte de 0,75 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic, anunciado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na quarta-feira já era esperado pelo mercado financeiro. Mas, mesmo com a Selic cotada ao seu menor patamar histórico, 2,25% ao ano, ainda não se sabe ao certo a magnitude da eficácia da baixa taxa de juros estrutural como forma de atenuação da crise econômica em tempos da pandemia do novo coronavírus. Empresas de pequeno e de médio porte reclamam ostensivamente que não conseguem acessar o crédito a um juro mais barato. Ao verem os riscos de calote aumentarem, os bancos privados, sobretudo, estão dificultando o acesso ao crédito. Assim, a política monetária tem se mostrado falha em seu objetivo de incentivar a retomada da economia. Especialistas apontam que o novo patamar só será benéfico se acompanhado com o avanço das reformas estruturais, paradas no Congresso.

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Pode-se dizer que o limite para cortes na Selic está próximo. Com a queda da projeção da inflação anual, o Banco Central admite que há espaço para um novo reajuste “residual”, mas que isso dependerá do cenário em que se encontrará a economia global. “Neste momento, o Comitê considera que a magnitude do estímulo monetário já implementado parece compatível com os impactos econômicos da pandemia de Covid-19. Para as próximas reuniões, o Comitê vê como apropriado avaliar os impactos da pandemia e do conjunto de medidas de incentivo ao crédito e recomposição de renda, e antevê que um eventual ajuste futuro no atual grau de estímulo monetário será residual”, diz o comunicado do Copom nesta quarta-feira.

Para Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-conselheiro do Banco Central e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a autoridade monetária deve fazer mais um corte de 0,25 ponto porcentual e terminar o ano com a Selic no patamar de 2%, o que deve se manter por algum tempo caso o governo aprove as reformas estruturais. “Se o governo tiver uma política fiscal firme, com reformas e cortes de despesas, eu acredito que a taxa de juros permanecerá no nível de 2% por mais um ano. Mas isso dependerá de uma ampla reforma fiscal”, afirma. Maurício Oreng, economista do Santander, segue o mesmo raciocínio. “Desde 2016, nós temos uma política fiscal mais apertada, com a aprovação do teto de gastos que é uma medida crível para os investidores. Essa mudança é o que promove uma queda mais acentuada da inflação. Mas é preciso que o país volte a endereçar as reformas fiscais para que tanto a inflação quanto a taxa de juros se mantenham sob controle”, diz ele.

Entre os economistas, existe uma percepção de que medidas de proteção à renda das famílias, como a liberação do auxílio emergencial, foram mais eficazes do que a concessão de crédito para micro e pequenas empresas durante a pandemia. Para alguns, soa estranho o protagonismo do Banco Central num momento em que o governo deveria tomar a dianteira e oferecer estímulos à economia doméstica. “O governo está forçando a barra com o Banco Central. Caiu no colo da autoridade monetária fazer uma coisa que talvez não seja de sua alçada, como incentivar a economia por meio da taxa de juros. Isso acontece porque os mecanismos mais usuais de incentivo em momentos de crise, como ter um gasto público maior, não estão acontecendo”, diz André Perfeito, economista-chefe da corretora Nécton. “Infelizmente, esse corte não irá se traduzir em alívio efetivo na ponta final”.

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Com a Selic renovando suas mínimas históricas, o cenário é positivo para os investidores individuais de renda variável. Num momento em que o aumento de exposição ao risco acaba se tornando inevitável, já que a rendabilidade da renda fixa se torna muito baixa, é necessário buscar ações que paguem mais dividendos. “Hoje, com a crise, as pessoas podem escolher entre investir em ações ou montar um próprio negócio. A segunda opção requer mais tempo e o retorno financeiro é mais demorado. Logo, vale mais a pena investir em ações que pagam dividendos”, diz Pablo Spyer, diretor de operações da corretora Mirae Asset. Com as novas mínimas na Selic, espera-se que o Ibovespa volte a figurar em patamares acima dos 100.000 pontos. O problema, no entanto, é o efeito que o juro baixo terá sobre o dólar no curto prazo. “O corte na taxa de juros joga a bolsa de valores e o dólar também para cima. Quem está aplicado em renda fixa aqui não vê mais vantagens e acaba retirando seu dinheiro. Mas, no Brasil, nós temos o risco cambial. Com essa taxa atual, o dólar pode até passar de 6 reais”, alerta. Fato é que o patamar baixo da Selic chegou para ficar e o brasileiro terá de se acostumar a esse novo cenário.

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