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“Se meu cliente não for neutro em carbono, eu não vou ser”, diz diretora de Sustentabilidade do Itaú

Em entrevista ao VEJA+Verde, Luciana Nicola explica como o banco transformou a crise climática em agenda estratégica de negócios

Por Redação 9 jul 2026, 18h23 | Atualizado em 10 jul 2026, 14h41
“Se meu cliente não for neutro em carbono, eu não vou ser”, diz diretora de Sustentabilidade do Itaú Priorizar nos meus resultados Google

Luciana Nicola, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Itaú Unibanco, tem uma visão muito particular da função que desempenha. “Quando a gente fala de sustentabilidade, estamos falando de geração de valor — não estamos falando só de uma agenda ambiental”, disse a executiva em entrevista ao programa VEJA+Verde. Formada em Direito e com uma trajetória que passou por marketing, comunicação, relações governamentais, microcrédito e inclusão financeira dentro do conglomerado, Luciana chegou à área atual depois de construir, ao longo de anos, o que ela chama de “fio condutor de propósito” em sua carreira.

A revisão da estratégia de ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) do banco, concluída em 2024, foi impulsionada pelo boom da agenda climática que varreu o mundo entre 2021 e 2023 — e que não estava no horizonte quando a estratégia anterior foi desenhada. O Itaú aderiu ao Net Zero Bank Alliance em 2021, comprometendo-se a alcançar emissões líquidas zero até 2050, com redução de 50% até 2030. A grande revelação desse processo foi perceber onde está, de fato, o problema. “A nossa emissão do escopo 1 e 2 é 700 vezes menor do que no escopo 3, que é aquilo que financio. Se o meu cliente não for net zero (carbono neutro), eu nunca vou ser net zero”, diz Luciana. Em outras palavras: o caminho para a descarbonização do banco passa, necessariamente, pela descarbonização dos seus clientes.

Daí decorre uma filosofia que rejeita o conceito de exclusão de setores carbono-intensivos da carteira de crédito. “O conceito de restrição não cabe, porque se o cliente não se financia nos bancos que aderiram ao Net Zero Bank Alliance, ele pode buscar outro banco sem nenhum compromisso — e com isso você não está contribuindo com a redução das emissões”, diz Nicola. O caminho escolhido é o do engajamento: o banco oferece assessoria para que os clientes mapeiem suas emissões e definam planos de transição, além de linhas de financiamento agrícola com incentivo de taxa e prazo para práticas regenerativas, como o programa Reverte — parceria com a Syngenta para recuperação de áreas degradadas.

Agro sustentável

O agronegócio está no centro das preocupações climáticas mais imediatas. Luciana cita as enchentes no Rio Grande do Sul e a intensificação das secas no norte do país como exemplos de como a mudança do clima já está “precificada no PIB” — não é mais uma ameaça futura. “A irrigação, por exemplo, passou a ser um item muito acessado de financiamento, o que até então não era uma solicitação frequente”, observa.

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A estratégia do banco é mostrar que a transição para práticas mais sustentáveis não é apenas uma obrigação regulatória, mas uma vantagem competitiva: reduz custos, mitiga riscos, atrai capital mais barato e abre portas em mercados exportadores cada vez mais exigentes quanto à pegada de carbono dos produtos importados.

Pernas para quê te quero

Além da carteira de crédito, o Bike Itaú é um dos projetos mais emblemáticos do banco. O programa nasceu de uma reflexão interna iniciada em 2008 sobre qual contribuição direta a empresa poderia dar às cidades — além dos produtos financeiros tradicionais. Após estudar modelos na China e na Europa, o banco aproveitou uma oportunidade no Rio de Janeiro, onde um projeto de bicicletas compartilhadas para lazer estava prestes a ser descontinuado pela prefeitura, e apostou no compartilhamento como instrumento de política pública. Hoje, o Rio de Janeiro ostenta o maior indicador mundial de viagens por bicicleta compartilhada por dia. “O que mostra que tem uma viabilidade mais do que possível nesse sentido”, celebra Nicola. Mais recentemente, o projeto incorporou a bicicleta elétrica — especialmente para entregadores, que têm longas jornadas — e começou a gerar créditos de carbono pela emissão evitada em relação ao automóvel.

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Quem pressiona

A pergunta sobre quem pressiona mais por mudanças climáticas num banco de varejo revela nuances importantes. Luciana Nicola é direta: investidores institucionais — especialmente os internacionais — e o Banco Central do Brasil lideram esse movimento, não o consumidor final. “O investidor pessoa física ainda olha o maior retorno no curto prazo e o menor risco possível. O ESG traz o menor risco e retornos competitivos, mas não no curto prazo — então ainda não é do seu interesse”, avalia.

É na participação do Itaú no Conselho do Pacto Global da ONU que Luciana Nicola vê um dos espaços mais ricos para avançar: um ambiente onde o banco pode sentar com seus clientes “de forma isenta, sem o viés da avaliação de crédito”, para entender dificuldades e construir caminhos concretos para a transição — em que a conversa vai da descarbonização aos direitos humanos, passando pelo debate sobre biocombustíveis e os chamados refugiados climáticos.

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O programa VEJA+Verde é conduzido por Diogo Schelp, editor de VEJA NEGÓCIOS, e pode ser assistido toda quinta-feira às 17h nos canais Samsung TV Plus, LG Channels, TCL Channel e Roku, além do YouTube de VEJA.

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