Saúde mental vira estratégia nas empresas, saiba o porquê
Entrada em vigor da NR-1 obriga empresas a se preocuparem com afastamentos por transtorno metal
A saúde mental deixou de ser tratada apenas como pauta de bem-estar corporativo e passou oficialmente a ocupar espaço estratégico dentro das empresas brasileiras. A mudança ganhou força com a entrada em vigor da nova redação da NR-1, que estabelece responsabilidade legal das companhias sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho. A nova norma que começa a valer nesta terça-feira exige que empresas mapeiem fatores que afetam a saúde emocional dos funcionários e criem planos formais de prevenção, sob fiscalização do Ministério do Trabalho.
Pesquisa mostra adoecimento por transtorno mental
O avanço da discussão acontece em meio a números preocupantes revelados por uma pesquisa da empresa VR. Segundo o levantamento, os afastamentos por transtornos mentais cresceram 832% no primeiro quadrimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. A ansiedade lidera os motivos de afastamento, respondendo por 51% dos casos, seguida pela depressão, com 23%. Embora apareça em menor volume, a depressão é responsável pelo maior tempo médio de ausência, somando cerca de 35 mil horas afastadas no período analisado.
Geração Y (millenials) é a mais afetada
Os dados também mostram que a chamada Geração Y, formada por profissionais nascidos entre 1981 e 1996, concentra o maior número de afastamentos. São Paulo aparece como a capital com maior incidência, reunindo 39% dos casos registrados pela pesquisa. O levantamento reforça a percepção de que o desgaste emocional não está restrito a setores específicos, mas atravessa diferentes perfis profissionais e modelos de trabalho.
Tema estratégico nas empresas
Para o diretor executivo de negócios da VR, Cássio Carvalho, houve uma mudança definitiva de paradigma. “O afastamento por doença mental deixa de ser um tema muito mais relacionado a bem-estar e passa a ser um tema estratégico dentro das empresas e administração”, afirmou. Segundo ele, companhias com lideranças mais próximas e acompanhamento constante das equipes conseguem reduzir indicadores de adoecimento emocional. “Empresas que possuem uma gestão e uma liderança muito próxima dos seus times tende a ter esses indicadores menores”, explicou.
Obrigação formal
O diretor executivo sênior da Michael Page, Lucas Toledo, avalia que a NR-1 muda completamente o ambiente corporativo porque transforma uma prática considerada opcional em obrigação formal. “Antes era uma boa prática, então isso muda completamente o jogo”, afirmou. Ele destaca ainda o impacto financeiro provocado pelos afastamentos. “Cada vez que você tem que trocar alguém porque essa pessoa teve um burnout, você tem vários custos com isso e você também perde a performance”, disse, citando perdas de produtividade e dificuldades no relacionamento com clientes.
NR-1 muda avaliação das lideranças
A nova regulamentação também deve alterar a forma como empresas avaliam lideranças e ambientes internos. Segundo Toledo, comportamentos abusivos e metas consideradas inalcançáveis passarão a entrar no radar da gestão de riscos corporativos. “Tudo isso vai ser registrado agora e deve ter um plano para isso”, afirmou. Na prática, a saúde mental deixa de ser um assunto periférico e passa a integrar compliance, estratégia e sustentabilidade dos negócios — uma mudança que tende a transformar definitivamente as relações de trabalho no país.
NR-1, o que muda:
- Saúde mental entra nas regras trabalhistas As empresas serão obrigadas a incluir riscos psicossociais nos programas de Saúde e Segurança no Trabalho.
- O que são riscos psicossociais A norma passa a considerar fatores como assédio, pressão excessiva, estresse crônico e ambientes tóxicos.
- Mapeamento obrigatório dos riscos As empresas terão de identificar, avaliar e controlar situações que possam causar adoecimento mental.
- Mudança na cultura corporativa A atualização exige revisão de práticas de liderança, metas e relações internas de trabalho.
- Fiscalização e documentação As empresas precisarão comprovar, com documentos e planos de ação, os cuidados adotados com a saúde mental.
- Regra vale para todas as empresas Pequenos, médios e grandes negócios precisarão se adequar às novas exigências.







