‘São Paulo pode ocupar espaço muito maior no cenário internacional’, diz CEO do SP2B
Fundador do Rio2C e idealizador do SP2B, Rafael Lazarini defende a economia criativa como motor de crescimento do Brasil
Quando fundou o Rio2C, em 2018, Rafael Lazarini tinha uma ambição clara: criar um evento capaz de reunir, em um mesmo espaço, profissionais da economia criativa, da tecnologia, do audiovisual e dos negócios.
O projeto cresceu rapidamente e se tornou o maior encontro de criatividade da América Latina.
Agora, o executivo tenta repetir a fórmula em outra escala.
Em agosto, São Paulo recebe a primeira edição do SP2B – São Paulo Beyond Business, evento idealizado pela Da20, holding criada por Lazarini, com a proposta de transformar o Parque Ibirapuera em um grande espaço de debates sobre inovação, empreendedorismo, cultura, tecnologia e desenvolvimento econômico.
A aposta é posicionar São Paulo como um destino internacional para a economia criativa, nos moldes de encontros como o SXSW, em Austin, mas com identidade própria e forte conexão com o ambiente de negócios brasileiro.
Ao longo de oito dias, o SP2B reunirá empresários, investidores, pesquisadores, criadores, artistas e representantes do setor público em cerca de 30 palcos espalhados pelos equipamentos do parque.
Além de comandar a Da20, Lazarini é diretor de operações da Live Nation, uma das maiores empresas de entretenimento ao vivo do mundo.
Ao longo de mais de três décadas de carreira, participou de projetos como o Rock in Rio, Rio Open, UFC no Brasil e Cirque du Soleil na América do Sul.
Nesta entrevista à VEJA, Lazarini afirma que São Paulo reúne todas as condições para se consolidar como um polo internacional de criatividade, critica a visão que reduz inovação à tecnologia e defende que o Brasil precisa criar um ambiente mais favorável para transformar talento em empresas capazes de crescer.
O SP2B nasce com a proposta de posicionar São Paulo como um hub global de inovação e criatividade. O que ainda falta para a cidade ocupar esse lugar?
Acho que os elementos já existem. São Paulo tem diversidade, produção cultural, universidades, empresas, talento, capacidade empreendedora. O que ainda falta é posicionamento. A cidade ainda é vista principalmente como um centro financeiro e de negócios, quando, na verdade, é muito mais do que isso.
Grandes eventos ajudam a construir essa imagem. Eles mostram uma cidade para o mundo. Foi assim com Nova York, que investiu na própria marca para deixar de ser vista apenas como um centro financeiro. São Paulo também pode fazer esse movimento.
Qual lacuna o SP2B pretende preencher em um calendário que já reúne tantos eventos de negócios?
Nossa proposta não é criar apenas mais uma conferência. Queremos construir um movimento de cidade.
Muitos eventos são excelentes, mas estão voltados para um setor específico ou para uma marca. O SP2B nasce com o objetivo de conectar diferentes comunidades durante uma semana inteira, fazendo com que São Paulo seja protagonista da experiência.
Também queremos que o evento carregue o nome e a identidade da cidade. No Rio, isso acontece naturalmente. Você tem Rio Open, Rock in Rio, Maratona do Rio. Em São Paulo, poucas iniciativas cumprem esse papel de promover a cidade como marca.
Por que ocupar todo o Parque Ibirapuera?
Porque queríamos criar uma experiência urbana.
Nossa inspiração é o SXSW, onde você não fica confinado dentro de um centro de convenções. Você circula pela cidade, entra e sai dos espaços, encontra pessoas, vive aquele ambiente.
Queríamos reproduzir essa sensação em São Paulo. O Ibirapuera é um símbolo da cidade e permite que o participante caminhe entre os diferentes equipamentos, criando conexões o tempo inteiro. O parque não é apenas o local do evento; ele faz parte da experiência.
O SP2B foi inspirado no SXSW, mas o evento brasileiro tenta construir uma identidade própria?
Sem dúvida.
O SXSW é uma referência importante, mas nossa proposta parte da realidade brasileira. O Rio2C e o SP2B nasceram de uma visão segundo a qual inovação não acontece apenas por causa da tecnologia.
A inovação começa com criatividade. É preciso criar um ambiente que estimule novas ideias, questionamentos e diferentes formas de enxergar um problema. A tecnologia é consequência desse processo, não sua origem.
O empreendedorismo ocupa um papel central nessa visão?
Totalmente.
Criatividade produz ideias. Mas ideias, sozinhas, não mudam a realidade. É o empreendedorismo que transforma uma ideia em ação.
Por isso gostamos de dizer que criatividade e empreendedorismo são complementares. A criatividade desafia o status quo. O empreendedorismo assume o risco de transformar essa ideia em algo concreto. Quando esses dois elementos se encontram, a inovação acontece.
Você costuma dizer que inovação virou um conceito banalizado. Por quê?
Porque muita gente passou a tratar inovação como sinônimo de tecnologia.
Não é.
Você pode inovar em um modelo de negócio, em educação, em gestão, em processos. A tecnologia pode potencializar isso, mas ela não cria inovação sozinha.
Quando reduzimos inovação apenas à tecnologia, deixamos de enxergar todo o restante.
O Brasil produz profissionais extremamente criativos, mas ainda encontra dificuldade para transformar criatividade em negócios escaláveis. Onde está esse gargalo?
O brasileiro talvez seja um dos povos mais criativos do mundo. Costumo brincar que aqui ninguém precisa pensar “fora da caixa”, porque o brasileiro nasceu sem caixa.
Nossa criatividade nasce da necessidade.
O problema é que a jornada para transformar uma boa ideia em um negócio sustentável continua extremamente difícil. Empreender no Brasil ainda exige uma resiliência fora do comum.
Não deveríamos depender de super-heróis para construir empresas de sucesso.
Falta um ecossistema mais estruturado para quem quer empreender?
Exatamente.
Hoje existe um ambiente muito bem organizado para startups de tecnologia, com investidores, aceleradoras, mentorias e fundos de investimento.
Mas existe um enorme grupo de empreendedores tradicionais que fica no meio do caminho. É o dono de um restaurante, de uma pequena indústria, de uma empresa familiar, de um comércio.
Esse público também precisa de conexões, conhecimento e acesso a oportunidades. É justamente esse espaço que queremos ajudar a construir.
O empreendedorismo deveria começar a ser ensinado na escola?
Sem dúvida. O mercado de trabalho está mudando rapidamente, mas nosso modelo de ensino ainda prepara as pessoas para uma realidade que já não existe.
Hoje, alguém pode chegar aos 40 anos e ser considerado velho pelo mercado, mas ainda terá décadas de vida profissional pela frente. Essa pessoa precisará aprender novas habilidades, mudar de carreira, empreender.
Precisamos preparar os jovens para essa realidade, mostrando que empreender não significa apenas abrir uma empresa. É assumir a responsabilidade de construir soluções, seja criando um negócio, desenvolvendo uma nova profissão ou reinventando a própria carreira.
Esse debate se torna ainda mais urgente diante da popularização das redes sociais e da chamada cultura dos “gurus”?
Existe um vazio muito grande entre o empreendedorismo real e a imagem que muitas vezes é vendida nas redes sociais.
Empreender não é enriquecer rapidamente nem seguir uma fórmula pronta. É construir algo ao longo do tempo, enfrentando dificuldades e assumindo riscos.
Quando esse processo é romantizado, muitos jovens passam a acreditar que sucesso significa apenas riqueza imediata. O foco deveria estar na construção de valor e não apenas no resultado financeiro.
Que papel um evento como o SP2B pode desempenhar nesse cenário?
Queremos criar conexões.
O empreendedor precisa encontrar quem já passou pelos mesmos desafios, conversar com investidores, empresas, universidades e outros empreendedores. Isso reduz a sensação de isolamento e ajuda a tornar essa jornada menos difícil.
Além disso, pensamos uma programação voltada para públicos diferentes. Teremos atividades específicas para universitários, para pequenos empreendedores e também para criadores da periferia. A ideia é ampliar o acesso a esse ecossistema.
Quais setores da economia brasileira oferecem as maiores oportunidades para os próximos anos?
O Brasil já possui ativos muito fortes. Não precisamos reinventar o país, mas potencializar aquilo que já fazemos bem.
Vejo três áreas especialmente promissoras: economia criativa, turismo e agronegócio.
No agronegócio, por exemplo, o Brasil já é uma potência mundial na produção de alimentos. A próxima etapa deveria ser liderar também a inovação ligada ao setor, desenvolvendo tecnologia, propriedade intelectual e soluções sustentáveis.
Na economia criativa, temos enorme capacidade de produzir cultura e conteúdo. O desafio é transformar esse talento em negócios globais.
E o turismo ainda é um ativo subaproveitado diante da diversidade natural e cultural do país.
O que impede o Brasil de dar esse salto?
Precisamos aproximar universidades, empresas e poder público.
Os grandes polos de inovação do mundo nasceram dessa interação. O Vale do Silício não existe apenas porque há empresas de tecnologia. Existe porque universidades, pesquisa, capital privado e empreendedorismo trabalham juntos.
No Brasil temos centros de excelência, mas eles ainda funcionam de forma isolada. Precisamos criar mais conexões entre esses atores.
Você acompanha mercados em diferentes países pela Live Nation. Como o Brasil é visto hoje pela indústria global do entretenimento?
O Brasil e a América Latina vivem um momento muito positivo.
Durante muito tempo nossa cultura era vista de maneira estereotipada. Hoje ela ocupa uma posição muito mais relevante. A música latina ganhou protagonismo, artistas brasileiros despertam interesse crescente e existe uma valorização maior da nossa forma de produzir cultura.
O público brasileiro também é reconhecido mundialmente pela intensidade com que vive os eventos ao vivo. Isso sempre chamou atenção, mas agora passa a ser visto como uma qualidade, não como uma excentricidade.
Você acredita que o Brasil pode exportar mais cultura e criatividade?
Sem dúvida.
Temos potencial para influenciar tendências internacionais muito mais do que fazemos hoje.
Nossa criatividade é um ativo econômico. Se conseguirmos organizá-la melhor e criar um ambiente favorável ao empreendedorismo, podemos ocupar um espaço muito maior no cenário global.
Depois de mais de três décadas na indústria do entretenimento, qual foi a maior transformação que você testemunhou?
A tecnologia mudou completamente o modelo de negócios.
A indústria da música foi a primeira a sentir esse impacto, com o compartilhamento digital e, depois, o streaming. Mais tarde aconteceu o mesmo com o audiovisual.
Mas, ao contrário do que muita gente imaginava, esse processo acabou valorizando ainda mais as experiências presenciais.
Quanto mais consumimos conteúdo digital, maior parece ser a necessidade de viver experiências reais.
É por isso que os eventos presenciais continuam crescendo?
Acho que sim.
As pessoas querem encontrar outras pessoas. Querem viver momentos que não podem ser reproduzidos por uma tela.
Vemos isso na música, no teatro, nos festivais e até nas plataformas digitais, que começam a criar experiências físicas para seus usuários.
O entretenimento ao vivo deixou de competir com o digital. Hoje ele complementa o digital. Quanto mais conectadas as pessoas estão virtualmente, maior parece ser o desejo por conexões humanas reais.







