Regulamentação da reforma tributária vira pesadelo para empresas
Empresários temem chegar a 2027 sem tempo para adaptar sistemas e fluxo de caixa; eventual vitória de Flávio Bolsonaro acrescenta risco de revisão das próprias regras
A regulamentação da reforma tributária está virando um pesadelo para empresários às vésperas da eleição. Executivos e presidentes de associações ouvidos pelo Radar Econômico nesta semana relatam crescente preocupação com a possibilidade de definições importantes ficarem para depois da disputa presidencial, comprimindo ainda mais o prazo para adaptação das empresas.
O problema existe mesmo se o atual governo continuar. A partir de janeiro, a reforma entra em uma etapa decisiva: a CBS passa a ser cobrada efetivamente, PIS e Cofins saem de cena e começa a valer o Imposto Seletivo, o chamado “imposto do pecado”. Ao mesmo tempo, mecanismos que mexem diretamente com o caixa das companhias, como o split payment, seguem em processo de implementação. Receita Federal e Comitê Gestor do IBS continuaram publicando atos e cronogramas técnicos ao longo de julho e agosto.
Para as empresas, não se trata apenas de aprender a pagar um novo imposto. A mudança exige adaptações em sistemas de gestão, emissão de notas fiscais, formação de preços, contratos, relação com fornecedores e planejamento de caixa. O próprio governo reconhece a necessidade de testes e ajustes técnicos e já escalonou prazos de documentos fiscais para outubro, dezembro e até janeiro de 2027.
A apreensão é ampliada pelo ambiente econômico. Empresários relatam dificuldade para fazer investimentos e planejar 2027 em meio a juros elevados, crédito caro e desaceleração de alguns setores. Nesse contexto, gastar com tecnologia e reorganizar operações sem ter total segurança sobre como funcionarão todas as engrenagens do novo sistema passou a ser visto como mais um fator de pressão.
Há ainda um segundo cenário considerado mais turbulento. A campanha de Flávio Bolsonaro já avisou que pretende revisitar a reforma tributária em caso de vitória. Rogério Marinho, coordenador da campanha, disse que seria possível fazer uma revisão ampla em até seis meses, com o objetivo de reduzir a alíquota estimada do IVA. Segundo ele, a intenção não seria interromper a reforma, mas corrigir seu desenho.
É justamente a combinação dos dois calendários que assusta o empresariado. Se o governo for reeleito e as principais definições operacionais se arrastarem pela campanha, as empresas podem entrar na reta final de 2026 com apenas alguns meses, ou semanas, para concluir uma das maiores mudanças tributárias de suas operações. Se houver troca de governo, além da corrida para implementar as regras já aprovadas, poderá começar uma discussão sobre mudar novamente parte delas. Para executivos ouvidos pelo Radar, o melhor cenário já deixou de ser confortável: a dúvida agora é se haverá tempo para virar a chave sem transformar a transição tributária numa bagunça.







