Reembolsos de tarifas de Trump engordam lucros de Apple, Nike e Amazon
Empresas americanas já receberam bilhões de dólares devolvidos pelo governo após a Suprema Corte derrubar parte das tarifas
A conta das tarifas de Donald Trump começa a fazer o caminho de volta. Meses depois de a Suprema Corte dos Estados Unidos considerar ilegais as tarifas impostas pelo governo com base na lei de poderes econômicos de emergência, empresas americanas estão recebendo bilhões de dólares de volta. Em alguns casos, o dinheiro já aparece nos balanços e dá um impulso relevante aos lucros.
Mais de 40 companhias do índice S&P 500 informaram até agora cerca de US$ 9,6 bilhões em reembolsos de tarifas, dos quais pelo menos US$ 2,1 bilhões já foram efetivamente recebidos em dinheiro, segundo levantamento do Wall Street Journal.
Entre os maiores beneficiados estão Apple, com quase US$ 2,2 bilhões; Nike, com US$ 986 milhões; FedEx, com cerca de US$ 800 milhões; Amazon, com US$ 640 milhões; e General Motors, com US$ 500 milhões.
O movimento é consequência de uma decisão da Suprema Corte de 20 de fevereiro de 2026, que derrubou as tarifas cobradas pelo governo Trump com base no International Emergency Economic Powers Act (IEEPA). A decisão abriu uma disputa de proporções inéditas: cerca de US$ 166 bilhões em tarifas ficaram sujeitos a devolução.
A dimensão da operação ajuda a explicar por que os reembolsos estão aparecendo nos resultados trimestrais das companhias. Até 31 de julho, a Customs and Border Protection (CBP), a alfândega americana, havia recebido pouco mais de 252 mil pedidos e aceitado US$ 128,7 bilhões em reivindicações para processamento. Cerca de US$ 100 bilhões já haviam sido encaminhados ao Tesouro americano para pagamento.
O processo, que inicialmente era visto como potencialmente lento e caótico, avançou mais rapidamente do que muitas empresas esperavam. A FedEx, por exemplo, informa que começou a receber os primeiros pagamentos do governo em maio e iniciou a distribuição aos clientes em agosto.
Apple transforma tarifa devolvida em lucro
O caso da Apple mostra como o dinheiro pode alterar até mesmo o resultado de uma gigante de tecnologia.
A companhia contabilizou US$ 2,2 bilhões em reembolsos, valor que ajudou diretamente seu desempenho trimestral. A devolução acrescentou US$ 0,11 ao lucro por ação, equivalente a cerca de 5% do resultado por ação registrado no período.
A Apple é também um caso particularmente relevante porque as tarifas foram uma ameaça importante para sua cadeia de produção. A empresa passou os últimos anos tentando reduzir a concentração de sua fabricação na China, ampliando investimentos e produção em países como Índia e Vietnã. Mesmo assim, a exposição a componentes e produtos fabricados na Ásia deixou a companhia entre as empresas mais sensíveis à política comercial americana.
No caso da Nike, o processo também avançou rapidamente. A fabricante recebeu US$ 302 milhões em reembolsos no último trimestre de seu ano fiscal encerrado em maio e havia recebido quase todo o restante dos US$ 684 milhões até 15 de julho.
O dinheiro não está necessariamente indo para o consumidor
É aqui que a história fica mais complicada.
As tarifas foram pagas formalmente pelos importadores, mas uma parcela relevante do custo acabou sendo transferida para empresas e consumidores por meio de preços mais altos. Agora que o governo está devolvendo o dinheiro, não existe uma regra geral determinando que ele precise seguir o mesmo caminho de volta.
Isso criou uma disputa sobre quem deve ficar com o benefício.
A FedEx está entre as empresas que decidiram devolver o dinheiro. A companhia afirmou que funciona como intermediária na cobrança de tarifas e impostos e, por isso, pretende distribuir aos clientes os cerca de US$ 800 milhões que receber. Os pagamentos começaram em agosto.
A UPS adotou estratégia semelhante. A companhia havia recolhido aproximadamente US$ 5 bilhões em tarifas de seus clientes e afirmou que devolveria os valores assim que recebesse o dinheiro do governo.
A Costco também disse que pretende devolver aos clientes, de alguma forma, os valores correspondentes aos custos das tarifas que haviam sido repassados aos consumidores. A companhia, porém, ainda enfrenta processos judiciais de clientes que reivindicam compensação pelos preços mais altos cobrados durante o período das tarifas.
Amazon promete devolver parte do dinheiro
A Amazon adotou uma posição mais seletiva.
A companhia recebeu cerca de US$ 640 milhões em reembolsos e afirmou que identificou situações específicas nas quais consegue rastrear o custo das tarifas até o consumidor final. Nesses casos, pretende entrar em contato com os clientes e devolver o dinheiro depois que os recursos forem recebidos.
O problema é justamente esse rastreamento. Em uma economia com cadeias de produção complexas, estoques comprados em diferentes momentos e preços que mudam por dezenas de razões, não é simples determinar quanto de um produto vendido hoje corresponde exatamente a uma tarifa paga meses atrás.
Por isso, a devolução pode assumir formas diferentes: dinheiro diretamente ao consumidor, descontos, preços menores ou simplesmente incorporação do recurso ao caixa das companhias.
Nem todo reembolso é dinheiro no caixa
Os números também precisam ser lidos com cuidado. Um valor divulgado como “reembolso” nem sempre significa que a empresa já recebeu o dinheiro.
A Zebra Technologies, por exemplo, estimou que teria direito a recuperar US$ 73 milhões em tarifas. Até o encerramento do trimestre, havia recebido US$ 14 milhões e registrado o restante como uma conta a receber. Até 31 de julho, outros US$ 27 milhões haviam chegado ao caixa.
A Fortive, fabricante de equipamentos industriais, reconheceu um benefício de US$ 4,5 milhões referente a reembolsos já recebidos e espera recuperar outros US$ 25 milhões.
Isso significa que os números apresentados nos balanços misturam dinheiro já recebido, valores contabilizados como ativos e estimativas de futuras devoluções.
O alívio ainda é pequeno diante da conta das tarifas
O efeito sobre os lucros também precisa ser colocado em perspectiva.
A Caterpillar, por exemplo, reconheceu US$ 392 milhões em recuperações esperadas no trimestre. Ainda assim, a empresa estima que desembolsará aproximadamente US$ 2,2 bilhões em tarifas ao longo de 2026, sem considerar os reembolsos.
Ou seja, a devolução de valores cobrados no passado não significa o fim do problema tarifário para as empresas americanas. O governo Trump continuou utilizando outras bases legais para impor tarifas, e a decisão da Suprema Corte não eliminou todas as barreiras comerciais.
A própria FedEx ressalta que a decisão de fevereiro atingiu especificamente as tarifas impostas com base no IEEPA. Outras cobranças, incluindo tarifas previstas nas Seções 122, 232 e 301 da legislação comercial americana, continuam em vigor.
Uma nova batalha nos tribunais
O sistema de devolução também está longe de estar juridicamente encerrado.
Em julho, um juiz do Tribunal de Comércio Internacional dos Estados Unidos determinou que todos os importadores atingidos pelas tarifas consideradas ilegais deveriam ter acesso aos reembolsos, inclusive aqueles que não haviam entrado individualmente na Justiça. O governo Trump recorreu da decisão e argumenta que o tribunal extrapolou sua autoridade.
A disputa é importante porque pode ampliar ainda mais o volume de dinheiro a ser devolvido e mudar quem terá direito a recebê-lo.
Enquanto isso, grandes empresas têm uma vantagem que consumidores individuais não possuem: estrutura jurídica, equipes tributárias e capacidade de acompanhar milhares de processos aduaneiros.
O resultado é uma situação peculiar. O governo americano está devolvendo dezenas de bilhões de dólares cobrados por tarifas que a Suprema Corte considerou ilegais, mas o dinheiro não está necessariamente voltando para quem efetivamente pagou o preço mais alto.
Por enquanto, os primeiros beneficiários são os balanços corporativos. Para os consumidores, a pergunta permanece aberta: quanto da conta que eles ajudaram a pagar será, de fato, devolvida?







