Redata encontra fila de mais de 56 GW por energia para data centers
EPE tenta separar projetos reais dos que podem não sair do papel; expansão já exige R$ 1,6 bilhão em novas obras de transmissão só em São Paulo
A sanção do Redata colocou combustível em uma corrida por data centers que começa a esbarrar em um recurso mais difícil de encontrar do que terrenos: energia disponível para conectar os novos empreendimentos.
O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Prado, afirmou neste mês que já existem mais de 56 gigawatts (GW) em pedidos de acesso à rede feitos por projetos de data centers. O próprio executivo fez uma ressalva importante: uma parcela dessas iniciativas provavelmente não sairá do papel, e a estatal está procurando investidores para entender o grau de maturidade dos projetos antes de recomendar novas expansões da infraestrutura elétrica.
A cifra mostra a velocidade com que o mapa mudou. Pouco mais de 60 dias depois da primeira versão do Redata, editada em setembro de 2025, a EPE havia registrado um salto de 19,8 GW para 26,2 GW apenas entre os projetos que protocolaram no Ministério de Minas e Energia pedidos de estudo para conexão à Rede Básica. Ou seja: naquele curto intervalo, surgiram 6,4 GW adicionais de demanda potencial.
Agora transformado em lei, o Redata foi sancionado em 15 de setembro. O regime reduz a carga tributária sobre a compra e a importação de equipamentos de tecnologia utilizados nos centros de dados, incluindo a suspensão de PIS/Cofins, IPI e, em determinadas condições, Imposto de Importação. O objetivo é diminuir um dos custos que tornavam o Brasil menos competitivo para instalações voltadas a computação em nuvem, processamento de alto desempenho e inteligência artificial.
O incentivo tributário, porém, resolve apenas uma parte da equação.
A corrida pela tomada
Grandes data centers são consumidores de eletricidade de escala industrial. E a velocidade de construção dessas instalações não necessariamente acompanha a expansão do sistema elétrico. Prado estima que uma grande unidade possa ser erguida em cerca de três anos, enquanto uma nova linha de transmissão pode levar aproximadamente cinco anos. É esse descompasso que começa a preocupar o planejamento do setor.
São Paulo, que concentra a maior parcela do mercado brasileiro, dá a dimensão do problema. A EPE já recomendou aproximadamente R$ 1,6 bilhão em novos investimentos de transmissão no estado para liberar cerca de 4 GW de margem para novas conexões. Outros estudos podem acrescentar mais 5 GW de capacidade.
E a pressão não está restrita ao estado. A estatal prepara estudos para viabilizar da ordem de 4 GW de novos projetos no Rio de Janeiro; analisa no Rio Grande do Sul empreendimento com demanda que pode chegar a 5 GW; e trabalha em soluções capazes de aumentar em outros 4 GW a capacidade de conexão de grandes cargas no Nordeste.
Os números de pedidos de energia são muito maiores do que o mercado efetivamente em construção — justamente uma razão para a cautela da EPE. Levantamento da consultoria imobiliária JLL aponta atualmente 660 MW de data centers em construção no país, capazes de atrair cerca de US$ 17,4 bilhões em investimentos, além de outros 4.621 MW no pipeline. A taxa de vacância nacional está em apenas 4%, e 56% do estoque novo em construção já havia sido pré-locado.
Energia limpa também entra na conta
O próprio desenho do Redata transforma a disponibilidade de energia em peça central da escolha de onde construir. Para usufruir do regime, o data center terá de atender 100% de sua demanda elétrica com contratos de suprimento ou autoprodução provenientes de fontes renováveis ou de baixa emissão. A lei também estabelece limite de eficiência hídrica e obriga investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Parte dos detalhes ainda é remetida a regulamentação.
Há ainda uma exigência de que pelo menos 10% da capacidade beneficiada seja destinada ao mercado brasileiro — obrigação que pode ser substituída, nos termos previstos pela lei e sua regulamentação, por investimentos adicionais em pesquisa e desenvolvimento
O resultado é uma mudança na lógica da disputa imobiliária que acompanha o boom dos data centers. Não basta mais ter uma grande área disponível. O endereço valioso é aquele que combina terreno, fibra óptica e, principalmente, megawatts que possam efetivamente chegar ao empreendimento.
Com o Redata reduzindo a barreira tributária para os equipamentos, é justamente essa disputa pela tomada que tende a definir quais dos dezenas de gigawatts hoje apresentados ao sistema elétrico virarão data centers de verdade.





