Recuperações judiciais disparam no agro e cenário deve piorar em 2027, apontam consultorias
Levantamento contabiliza 1.263 produtores rurais em recuperação judicial, com avanço dos processos entre negócios de menor porte
O número de produtores rurais em recuperação judicial avançou 66% em um ano no Brasil e chegou a 1. 263 CNPJs ao fim do primeiro semestre de 2026. Na comparação com dezembro de 2025, a alta foi de 21,4%. Os dados fazem parte do Monitor RGF-Bizdoc, levantamento produzido pelas consultorias RGF e Bizdoc.
A edição mais recente do estudo ampliou o universo analisado ao incorporar os microprodutores rurais. A mudança contribui para explicar o salto em relação aos 539 processos contabilizados no levantamento referente ao primeiro trimestre.
Para o Monitor, o agronegócio é o principal foco do atual ciclo de insolvência brasileiro. O problema não se limita às propriedades rurais. Considerando também fornecedores de insumos, agroindústrias e empresas de comercialização, são 1. 575 CNPJs em recuperação judicial.
“Somando a cadeia de insumos, agroindústria e comercialização, o total chega a 1. 575 CNPJs, cerca de 20% de todo o estoque de recuperações judiciais do país”, afirma Claudio Damasceno, sócio sênior da RGF e da Bizdoc e coordenador do Monitor.
A soja responde pela maior parcela dos casos entre as atividades desenvolvidas dentro das propriedades. Ao fim de junho, 589 produtores da cultura estavam em recuperação judicial. O número equivale a pouco menos da metade do total e representa avanço de 26,7% desde o encerramento de 2025, além de ficar próximo do dobro do observado um ano antes.
Nos primeiros seis meses deste ano, 124 sojicultores ingressaram em recuperação judicial. De acordo com Damasceno, o quadro reflete duas safras comercializadas abaixo do custo, o acúmulo de dívidas e a falta de lucro no ciclo 2025/26 que pudesse ser utilizado para amortizar os débitos.
Outras atividades também apresentaram deterioração. A pecuária de corte ocupa a segunda posição entre as cadeias produtivas do setor e registrou 19 recuperações judiciais no período. Em relação a dezembro de 2025, o estoque de casos cresceu 53,8% no arroz, 45,2% no milho e 44,4% no café. Entre os produtores de leite, a alta chegou a 257%, para 50 processos.
“As causas são diferentes para cada cultura, mas há uma regra padrão: o que estamos colhendo resulta de algo que aconteceu seis meses, um ano ou até dois anos antes”, diz o coordenador do Monitor.
Os efeitos do endividamento no campo já alcançam empresas que dependem dos produtores para seus negócios. Houve crescimento das recuperações judiciais em quase todos os segmentos ligados à cadeia fora das propriedades, entre eles revendas de insumos, fabricantes de rações, concessionárias de máquinas agrícolas, usinas, laticínios, frigoríficos de bovinos e comercializadoras de grãos e café.
A concentração geográfica dos casos é praticamente dividida entre duas das principais regiões produtoras do país. O Sul reúne 392 recuperações judiciais, enquanto o Centro-Oeste soma 391. Rio Grande do Sul e Mato Grosso são os principais responsáveis pelos respectivos resultados. Na comparação entre os estados, Mato Grosso lidera, com 196 CNPJs, apenas dois a mais que os 194 registrados no Rio Grande do Sul.
O levantamento também identifica uma disseminação mais acelerada do instrumento entre produtores menores. Das 874 recuperações judiciais ativas envolvendo produtores de micro, pequeno e médio porte, que podem atuar tanto com CNPJ quanto como pessoa física, 54% são de microempresários. Os pequenos representam 26% e os médios, 20%.
A evolução desde 2023 mostra a dimensão do movimento. Em comparação com o primeiro trimestre daquele ano, o estoque de recuperações judiciais entre microempresas do agronegócio aumentou dez vezes. Entre as pequenas, o volume se multiplicou por quase nove.
A tendência, segundo o especialista, é de deterioração adicional. Damasceno avalia que “o pior dos pedidos de recuperação judicial ainda está por vir”, com maior pressão no segundo semestre deste ano e em 2027. A previsão considera os efeitos das margens de lucro apertadas nas safras 2024/25 e 2025/26.
Além dos problemas acumulados nas últimas safras, fatores externos podem aumentar os custos de produção. O comprometimento da navegação pelo Estreito de Ormuz em meio ao conflito no Oriente Médio adiciona pressão ao cenário, já que a região é uma importante origem dos fertilizantes utilizados pelo setor.







