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Quem é o homem no centro dos escândalos da Fundação Getulio Vargas

FGV sofre com investigações e processos em decorrência de contratos obscuros e relacionamentos escusos de seu presidente

Por Machado da Costa Atualizado em 16 ago 2020, 15h07 - Publicado em 16 ago 2020, 12h36

Dois processos envolvendo a Fundação Getulio Vargas, e cujas histórias que os sustentam são pra lá de desairosas, colocam a pessoa do presidente da instituição, Carlos Ivan Simonsen Leal, no centro dos escândalos. Leal, sobrinho de Mário Henrique Simonsen (1935—1997), é investigado por atos de corrupção e acusado de utilizar a organização para aumentar seu patrimônio, que já é bem grande. Segundo o Ministério Público, Leal praticou “seriados atos ilícitos” em prejuízo da própria FGV e da administração pública do Rio de Janeiro. Os fatos narrados são estarrecedores.

Um dos processos envolve o inquérito civil originado na Operação Lava Jato. De acordo com a delação de Carlos Miranda, antigo braço direito do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, a FGV encobria o repasse de propina a Cabral e dois parceiros, Wilson Carlos e Regis Fichtner. Em um dos casos detalhados no inquérito, a fundação foi contratada para avaliar os ativos do antigo Banco Estadual do Rio de Janeiro (BERJ), adquirido por 1 bilhão de reais pelo Bradesco. A FGV recebeu 3% deste valor e repassou metade ao Prosper, que foi subcontratado no processo de avaliação. Além do pagamento de 6 milhões de reais ao ex-governador e seus parceiros, os dirigentes da FGV também se refestelaram com os recursos. Os recursos “foram canalizados em benefício dos réus Sérgio Franklin Quintella, Cesar Cunha Campos, Ricardo Simonsen e Sidnei Gonzalez”, afirma o Ministério Público.

Os investigadores também deixaram claro qual foi a participação de Leal e porque ele é o principal réu deste processo. “A fim de assegurar a execução, a ocultação, a impunidade e vantagem e, bem assim, para que os atos permanecessem, o quanto possível, no mais completo anonimato, os  réus  Carlos Ivan Simonsen Leal e Sérgio Franklin Quintella, ordenaram ao réu Ocario da Silva Defaveri, Controlador-Geral da FGV, e aos diretamente responsáveis pelos comandos dos seus setores financeiro e  contábil, que os registros contábeis dos exercícios financeiros dos anos  de 2006, 2011 e de 2013 não contemplassem lançamentos contábeis relevantes, a fim de não identificar os resíduos dos negócios jurídicos e de seus efeitos pecuniários.”

O PROCESSO – Inquérito do MP responsabiliza Leal Ministério Público/Divulgação

Em outro processo, movido por um grupo de construtoras contratadas para construir a nova sede da FGV no Rio, Leal aparece novamente como uma figura nevrálgica de articulações escusas. O consórcio ABCDW, constituído em 1999 pelas construtoras Arbi Rio, Castelo, Celi, Dictum e Wrobel para colocar de pé o Edifício Oscar Niemeyer, foi substituído em 2010 pela empreiteira Carioca. A Carioca foi uma das construtoras investigadas na Lava Jato, seus executivos se tornaram delatores e teve de pagar quase 69 milhões de reais em multas para poder continuar operando. Leal não era presidente da FGV à época do primeiro contrato.

Segundo o consórcio, a FGV quebrou o contrato ilegitimamente e colocou a Carioca sem a realização de licitação. São apontados diversos problemas relacionados às obras, como a falta de aprovação pela Rio Trilhos para o projeto de fundação, e a construção irregular do 20º pavimento. Na primeira instância, a FGV perdeu e condenada a pagar 250 milhões de reais ao consórcio. Os litigantes estão confiantes de que a decisão será mantida.

Leal é um homem conhecido no meio político carioca. Membro de uma família histórica, rico e influente. Segundo um vice-presidente da FGV, Leal “é um rolo compressor impressionante”. Ele conta que a liminar conseguida pelos diretores para a construção da Torre Oscar Niemeyer foi contestada por uma outra “ala” da diretoria da entidade. A ideia seria esperar o processo ser julgado por completo antes de iniciar a construção e não sustentar a obra em uma única liminar. Ele responsabiliza Leal pela derrota e acredita que a fundação deveria demovê-lo do quadro, apesar da ligação parental com o fundador da instituição. “O Simonsen, o fundador, tinha ficha limpíssima. É triste membros da família estarem envolvidos em escândalos desta magnitude”, afirmou esse vice-presidente. VEJA procurou Leal, mas ele não quis dar entrevista. Enviou uma nota. “O Presidente da FGV desconhece por completo, até porque não foi intimado de absolutamente nada a respeito, sobre qualquer ação envolvendo sua pessoa física, relacionada aos referidos temas, seja de natureza civil, seja de natureza criminal.”

  • Em um representação feita ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), em fevereiro deste ano, a FGV critica a atuação de membros do MP do Rio, em especial a promotora Daniela Tavares. “Os atos das Promotorias de Fundações vêm demonstrando uma lamentável intenção de se criar fatos para descredenciar a gestão da FGV visando, claramente, uma medida contra os administradores da Instituição, na expectativa de conseguirem, quem sabe, até mesmo seu afastamento”, afirma o texto. A representação também cita o caso de venda do BERJ e a atuação da FGV no caso. “A situação agrava-se quando se tem que esta rejeição de contas, já antes aprovadas, decorreu de depoimento do multicondenado ex-governador Sérgio Cabral, sobre o leilão para a venda do BERJ, sem que nada, absolutamente nada, tenha sido provado,ou qualquer condenação tenha gerado.”

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