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Queda forçada dos juros é ineficaz para conter câmbio, diz vice-presidente do Banco Mundial

Para o economista brasileiro Otaviano Canuto*, igualmente ineficaz é a redução do IOF, que pode ainda afastar os investidores de longo prazo

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter, na última quarta-feira, a taxa básica de juros (Selic) em 10,75% ao ano, como já era previsto pelo mercado. Muitos dos economistas que apostavam na manutenção dos juros também argumentavam que sua queda seria a melhor saída para conter a valorização do real ante o dólar – problema que está no foco das preocupações do governo. No entanto, até que ponto uma eventual redução da Selic poderia ajudar? Na opinião de Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial para a Redução da Pobreza e Gerenciamento Econômico (PREM), a solução não poderia ser aplicada “do dia para a noite” e seria inócua. “É preciso desenvolver a logística, reduzir o custo Brasil e melhorar a estrutura tributária. Não há milagre”, afirma. O economista põe em dúvida a eficácia das medidas tomadas pelo governo brasileiro para conter a entrada de capital especulativo no país e adverte: “Os investidores de longo prazo também estão sendo atingidos”.

Uma eventual redução da Selic poderia ajudar a conter a subida do real sobre o dólar?

A Selic é apenas um componente. Trata-se de um fenômeno mais abrangente. Não é como a jabuticaba, que só existe no Brasil. Por isso mesmo, não há nenhuma mágica que resolva o problema. A solução não passa por uma diminuição artificial dos juros. É preciso criar condições para que eles possam cair de fato, o que exigiria uma política fiscal e parafiscal menos estimulante e agressiva do que o que vem prevalecendo nos últimos anos. Mas isso é apenas um componente. O que orienta a decisão dos juros por parte do Banco Central não é o dólar. É a meta de inflação. Se o Copom tivesse reduzido a Selic nesta quarta-feira, não teria feito muita diferença.

Até que ponto o afrouxamento quantitativo nos Estados Unidos – emissão de dólares para recomprar títulos – pode prejudicar as moedas de outros países?

As autoridades econômicas americanas estão desesperadas, pois são enormes os riscos de uma crise em W – quando uma recessão, seguida de recuperação, desemboca em nova recessão. Eles já baixaram os juros até o limite máximo e, agora, o único instrumento que lhes resta é mexer na política monetária. Não há outro modo. Ao recomprar títulos do Tesouro, eles injetam dólares na economia para estimular os bancos a emprestar, rolar hipotecas, etc. É assim que esse ‘afrouxamento quantitativo’ vai gerar uma enxurrada de dólares aos países emergentes. Não significa que eles queiram uma guerra cambial, apenas estão tentando cuidar de si.

Mas existe, de fato, uma guerra cambial?

Guerra cambial é quando os países fazem políticas para desvalorizar suas moedas. Os americanos não estão mexendo na política monetária para derrubar o dólar, mas sim porque não há nada mais a ser feito. A depreciação será o resultado, mas não é o objetivo. Então não há guerra cambial.

As medidas recentes tomadas pelo governo brasileiro, como a redução do IOF, podem funcionar?

Em uma economia tão integrada com o mundo como a do Brasil, a única maneira de ter controle de capital eficaz por muito tempo é quebrar inteiramente os laços econômicos com os outros países. E isso não pode ser feito, pois precisamos de financiamento externo. Capital de longo prazo é extremamente importante para o desenvolvimento do Brasil. E quando o controle de capital, como essa tentativa do IOF, ocorre, a tendência é que seja ineficaz, pois acaba atingindo não só os investidores de curto prazo, mas também os de longo prazo. É impossível ser tão cirúrgico a ponto de pegar um e não acertar o outro. A China sim poderia se dar ao luxo de fazer controle de capital, pois tem uma poupança gigantesca. E esse não é o caso do Brasil.

Qual é a saída para manter a competitividade com as atuais perspectivas de câmbio?

A agenda do governo deve se pautar no desenvolvimento da logística, na redução do custo Brasil e na melhoria da estrutura tributária. Não há milagre. Se a Petrobras, por exemplo, encontrar em fornecedores estrangeiros custos mais interessantes, ela vai comprar lá fora, e não do Brasil. As pessoas têm de parar de reclamar e começar a pressionar o governo para que ele crie um programa fiscal que permita a queda natural dos juros e diminua o custo Brasil. De outra forma, não será possível. A valorização do real é inexorável.

*Otaviano Canuto veio ao Brasil como convidado da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e falou a empresários durante o primeiro Observatório da Indústria