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Qual o interesse do BlackRock pelo Brasil em reunião em Nova York

Para maior gestora de fundos do mundo, Brasil tem mais oportunidades que qualquer lugar do mundo, mas há desafios a serem superados, como a volatilidade

Por Luisa Purchio Atualizado em 27 set 2021, 18h13 - Publicado em 27 set 2021, 08h01

As incertezas domésticas, como o risco fiscal, o temor sobre o furo do teto de gastos e a aproximação das eleições vêm derrubando o valor dos ativos das principais empresas brasileiras, mas um tipo de investimento se pode se provar mais resiliente dentro deste cenário de incertezas. Tratam-se dos investimentos em infraestrutura. Por serem feitos pelas empresas por longuíssimo prazo, podem sofrer menos respingos das volatilidades políticas que atingem o Brasil periodicamente.

Justamente em busca destes investimentos, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e sua equipe, prepara para o início de outubro uma viagem de uma semana para Nova York, para apresentar o programa de concessões do Ministério. De Nova York, Adi Blum, diretor de Infraestrutura de Energia da BlackRock, maior e mais badalada gestora de fundos abertos do mundo, que possui mais de 9 trilhões de dólares sob gestão, falou a VEJA sobre o interesse da gestora em investir nesta área no Brasil.

Blum é responsável pela originação, execução e estratégia dos investimentos do fundo “Global Energy & Power Infrastructure Fund III”, que em abril deste ano possuía 5,1 bilhões de dólares (o equivalente a 27,21 bilhões de reais) e que, de acordo com a empresa, “investe globalmente em negócios de infraestrutura essenciais e de alta qualidade e ativos que se beneficiam de contratos de receita de longo prazo com contrapartes diversificadas”. Este fundo, por sua vez, faz parte do BlackRock Alternative Investors, uma área da empresa que representa 311 bilhões de dólares em uma ampla gama de recursos de investimento.

Apesar de ainda não investir nesta área no Brasil, Blum se arriscou a dizer que o país é o que possui mais oportunidades em infraestrutura no mundo. Porém, a dificuldade de se fazer investimentos em dólares, os problemas de compliance e a volatilidade nos preços de energia são desafios a serem superados. Vale lembrar que existe uma distância grande entre ter interesse em apostar em projetos brasileiros e em efetivamente assinar o cheque, uma dúvida que só será respondida depois das rodadas de captação de recursos feita pelo Ministério da Infraestrutura.

 

No início de outubro, o ministro de infraestrutura viaja para os Estados Unidos e para a Europa para atrair investimentos internacionais. Há algum encontro ou agenda com a BlackRock?

Nós já nos encontramos com eles. Eles já fizeram estas viagens algumas vezes nos anos anteriores. Eles fazem estes fóruns amplos e convidam a comunidade investidora institucional. Há coisas programadas, sim, haverá muitas pessoas na cidade nas próximas semanas em Nova York.

Há interesse da BlackRock em investir em projetos de infraestrutura brasileiros?

Com certeza. Estamos analisando as oportunidades no Brasil por muitos anos, temos sido muito ativos na revisão de oportunidades e na tentativa de fazer investimentos. Temos o Fundo Global de Infraestrutura e, historicamente, temos estado muito focados em infraestrutura de energia. No Brasil, isso assumiu a forma de avaliação de oportunidades de investimento em construção. Estão em energia eólica, solar, vimos muitas oportunidades interessantes de investimento da General Electric. Além disso, estudamos cuidadosamente as oportunidades da Petrobras, inclusive na comercialização de seus gasodutos e diversos segmentos. E analisamos as oportunidades portuárias e terminais no país. Vamos estar cada vez mais focados, não só na área de energia e energia renovável, mas também em saneamento, transporte e telecomunicações, que é um setor que guarda muitas promessas e ações. Estamos acompanhando isso de perto também.

Em comparação com outros mercados emergentes, qual é o potencial do país?

O Brasil é um dos maiores países e tem uma das maiores bases de infraestrutura do mundo, com necessidade de continuar se desenvolvendo conforme a população e o PIB crescem. Na América Latina, de longe, o maior número de oportunidades de investimento vem do Brasil. Talvez seja até um dos maiores do mundo. Temos mais investimentos nos Estados Unidos e na Europa, mas existem mais oportunidades de investimento no Brasil do que em praticamente qualquer outro mercado emergente.

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A BlackRock pretende aumentar os aportes na área de infraestrutura?

Estamos procurando fazer investimentos. Não tenho números específicos, mas conforme as oportunidades de investimento crescerem, vamos ver todas opções que estão no mercado. A BlackRock é muito grande em termos de ativos sob gestão e o grupo com que lido é uma área que a BlackRock enfatizou para buscar crescimento.

Os recentes ruídos políticos são prejudiciais aos interesses de se investir no Brasil?

Nós investimos a longo prazo, portanto, estudamos os fundamentos subjacentes da oferta e da demanda, examinamos os diferentes cenários políticos possíveis e o que eles poderiam significar de uma perspectiva política em termos do impacto real sobre nossos investimentos. Não levamos em consideração só uma administração política. Claro que é um fator e pensamos bem no que está acontecendo, mas esse não é o principal motivador de nossa filosofia de investimento.

Nosso mercado de renda variável está bastante volátil…

É por isso que gostamos de investir em infraestrutura. Estamos do lado privado da BlackRock, nossos fundos não investem em ações na bolsa. Gostamos de infraestrutura porque, da maneira como tentamos estruturar nossos investimentos, quanto mais monótona for a oportunidade de investimento, melhor. Não nos envolvemos em muita volatilidade e imprevisibilidade, portanto, não precisamos ter retornos enormes. Estamos apenas procurando um investimento muito estável, onde possamos fazer distribuições de recursos. Nossos investidores, fundos de pensão, seguradoras, estão nos procurando para entregar a eles rendimentos estáveis, para que possam pagar seus aposentados, sejam professores ou bombeiros. É isso que estamos tentando fazer.

O que é considerado ao analisar estes investimentos?

Avaliamos os riscos associados ao projeto, quem são as contrapartes e procuramos as várias partes envolvidas. Olhamos para a demanda pelo investimento que estamos fazendo e quais tipos de estruturas contratuais existem, qual o nível de visibilidade da receita e qual é a denominação da moeda da oportunidade de investimento. Em alguns casos, principalmente na Petrobras, as oportunidades de investimento são mais feitas em dólares americanos. Do lado da geração de energia, tende a ser mais moeda local. No entanto, há um movimento agora para termos, no lado da energia, contratos de compra de energia em dólares em vez de reais, e, se isso continuar progredindo, realmente poderia abrir esse mercado.

Quais são os principais desafios para se investir em infraestrutura no Brasil?

Um deles eu já mencionei, a moeda é um grande desafio. Os mercados de financiamento em reais não são tão profundos como em muitos outros países, porque não há uma comunidade de empréstimos em reais muito grande. Temos o BNDES, temos o BNB, temos debêntures de infraestrutura, mas se houvesse oportunidades de investimento em dólares, abriria um grande leque de fontes potenciais de financiamento. E isso realmente ajuda a reduzir o custo de capital. Outro ponto é o compliance (garantia de regras seguidas), algo muito importante em todos os investimentos que fazemos. Tivemos uma série de situações no Brasil em que conduzimos algumas diligências e tivemos que parar porque encontramos algumas preocupações sobre compliance. E outra questão é a volatilidade dos preços da energia. Estamos vendo isso agora com os baixos níveis dos reservatórios, que estão elevando muito os preços. Investimentos que podem ser expostos negativamente a uma volatilidade ou a altos preços de energia também podem se apresentar como desafios.

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