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‘Produtividade tem de virar obsessão nacional’, diz economista

Para Fabio Giambiagi, governo tem um papel pedagógico a cumprir: explicar à população que o paternalismo estatal terá de dar espaço à competição

Por Naiara Infante Bertão - 28 abr 2014, 10h35

Diante da incapacidade da economia brasileira de se expandir num ritmo acelerado, os entraves que a sufocam tornam-se mais patentes – e a produtividade é o principal deles. Não bastasse o custo Brasil, formado pelo conjunto explosivo de alta carga tributária, burocracia e falta de infraestrutura, outro desafio se interpõe no caminho entre o Brasil e o amplo desenvolvimento: o esgotamento da contribuição ao PIB dada pela incorporação de novos trabalhadores ao mercado de trabalho. Isso significa que, para que o país avance, será preciso que cada trabalhador produza mais e gere mais riqueza. E isso, segundo o economista Fabio Giambiagi, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem de se tornar “uma obsessão nacional”.

Em entrevista ao site de VEJA, Giambiagi afirma que, mais do que criar políticas econômicas de estímulo à produtividade, o governo tem um papel pedagógico a cumprir. “A missão é quase educativa. É preciso explicar que um modelo de país baseado no paternalismo estatal terá que ceder espaço para um esquema baseado na competição”, afirma. A missão é árdua. Segundo dados divulgados pelo Conference Board, renomado instituto de pesquisas sobre produtividade que possui parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), pelo terceiro ano consecutivo houve queda no indicador brasileiro. O índice recuou 0,9% no ano passado. Em 2012, a perda foi de 1,9% e, em 2011, de 0,4%. O tema foi, inclusive, discutido em recente reportagem da revista The Economist, que apontava justamente a baixa produtividade da economia brasileira.

Segundo o economista, o jogo pode virar se houver uma investida institucional, acompanhada de medidas econômicas, que esclareça a necessidade dos ganhos de produtividade à população. “O tema terá que ser parte do dia a dia dos discursos oficiais, assim como no passado foram os temas da estabilização e da inclusão social. É preciso mudar a mentalidade”.

Em seu novo livro “Complacência: Entenda por que o Brasil Cresce Menos do que Pode”, escrito em parceria com Alexandre Schwartsman, o senhor aponta a baixa produtividade como um gargalo gravíssimo. Como sair desse círculo vicioso?

Estamos diante de um desafio significativo, independentemente de quem seja eleito nas eleições deste ano. Crescer com uma taxa de desemprego de 12% é mais fácil do que com uma de 5%. Na época das vacas gordas, de 2008 a 2010, o Brasil cresceu 4%, em média, enquanto o emprego aumentou 2,5% e tivemos uma alta de 1,5% na produtividade. No futuro, o crescimento do emprego vai estar condicionado ao aumento de mão de obra, que crescerá aproximadamente 1% ao ano. Se adicionarmos a esse potencial de crescimento da mão de obra ganhos de produtividade de 1,5%, nossa capacidade de crescimento não passa de 2,5% ao ano, o que é pouco. Assim, crescer acima deste nível é um desafio possível de vencer apenas se a produtividade virar obsessão nacional.

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Qual é o papel do governo diante deste desafio?

Ele tem uma função dupla: a primeira é instrumental, porque ele domina os instrumentos de estímulo ao crescimento; mas há ainda uma função pedagógica. Precisamos de uma mudança que nos permita passar de um modelo de Estado paternalista e provedor para um Estado que continuará tendo um papel importante na saúde, na educação e na previdência, mas que busque mais semelhanças com economias que funcionam bem no mundo, como a dos Estados Unidos. Eles estimulam a competição entre indivíduos, países e empresas. Significa, de alguma forma, mudar o contrato social entre governo e sociedade.

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Como transformar produtividade em obsessão se muitos brasileiros desconhecem o tema?

Quando foi feito o Plano Real, os governos de Itamar Franco e, posteriormente, de Fernando Henrique Cardoso souberam explicar o que era a URV e como devia ser feita a conversão para a nova moeda. Souberam explicar de forma transparente uma dinâmica complexa. Agora, será preciso mostrar que um modelo de país baseado no paternalismo estatal terá que ceder espaço para um esquema baseado na competição. O tema “produtividade” terá de ser parte do dia a dia dos discursos oficiais, assim como no passado foram os temas da estabilização e da inclusão social.

Um estudo da McKinsey mostra que a produtividade foi responsável por 40% do crescimento do PIB do Brasil entre 1990 e 2012, em comparação com 91% na China e 67% na Índia. O que explica essa discrepância?

O ponto a ser ressaltado é que, no Brasil, com as mudanças demográficas em curso, não haverá o crescimento da população que tivemos no passado. Portanto, o crescimento do país dependerá cada vez mais da produtividade. E a insuficiência de nossa produtividade é um problema que vai muito além da burocracia. Tem a ver com elementos culturais (não há uma cultura de superação nem de excelência), com um arranjo protecionista ainda muito forte, além da falta de incentivos. As regras trabalhistas são um exemplo, com um esquema de seguro-desemprego que favorece a rotatividade e desestimula o investimento na formação de longo prazo dos empregados.

Nos Estados Unidos, a produtividade é um objetivo primário – não só entre as empresas, mas também entre as pessoas. O modelo meritocrático é o principal impulso para um país mais eficiente?

Sem dúvida. A base para o salto é uma mudança de mentalidade. Tenho dito que o país precisa sair da sua “zona de conforto” e isso vale para sua relação com o resto do mundo e também para as empresas e como elas se relacionam com seus competidores. A China persegue metas de produção ferozes e a Alemanha é quase que o exemplo por excelência de meritocracia e obsessão pela eficiência.

No caso do governo, investir mais é o caminho para atenuar os efeitos do atraso?

O investimento deveria ser a prioridade do governo. A tendência de baixo investimento é perigosa até na fase boa, aquela que vivemos de 2008 a 2010, quando tínhamos um conjunto de variáveis favoráveis ao crescimento, como capacidade ociosa e mão de obra disponível. Mas, além de investir, seria necessário reverter alguns equívocos. Há erros do próprio governo que foram muito sérios, sobretudo nos setores de petróleo, energia elétrica e na política fiscal. Nenhum desses erros foi dramático e gerador de uma situação explosiva, mas todos juntos levantaram preocupações no médio prazo em relação ao Brasil, o que acaba minando a confiança de quem investe. Algumas coisas vão fluir naturalmente, em especial por causa das concessões que, graças a Deus, foram feitas – ainda que com atraso.

O PT minou a produtividade devido às suas políticas protecionistas?

A crítica que cabe é que eles não perceberam que o modelo baseado na utilização extensiva de mão-de-obra e da ociosidade inicialmente existente, por meio de injeções maciças de estímulos à demanda (como o aumento do crédito), tenderia a se esgotar – e que seria necessário preparar o país para os desafios da nova fase. É como se eles estivessem utilizando um software 1.0 quando deveriam usar o 2.0: o que servia antes não serve mais. Sei que a idiossincrasia nacional não é algo que se mude em uma semana, mas quem está no Executivo tem um papel enorme no sentido de apontar direções. Eu gosto de lembrar que o papel da liderança política é liderar. Quem faz aquilo que as pessoas querem não é líder, é seguidor de tendências.

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