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Primeiro-ministro grego enfrenta grave crise política

George Papandreou enfrenta pedidos por sua renúncia dentro do próprio partido nesta terça-feira após convocar referendo

O primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, enfrenta pedidos por sua renúncia dentro do próprio partido nesta terça-feira, depois de convocar um referendo sobre o acordo de ajuda externa fechado na semana passada. Um proeminente parlamentar do Partido Socialista de Papandreou deixou o cargo, enquanto outros dois disseram que a Grécia precisa de um governo de união nacional seguido de eleições antecipadas – algo também exigido pela oposição.

Enquanto os líderes de Alemanha e França lutavam para limitar os danos da crise na zona do euro, outros políticos expressaram incredulidade com o anúncio que surpreendeu a todos — inclusive o próprio ministro das Finanças de Papandreou.

Executivos gregos expressavam desespero sobre como o país está sendo administrado e os mercados especulavam se a Itália será o próximo país a entrar na crise de dívida.

Jean-Claude Juncker, que preside as reuniões de ministros das Finanças da zona do euro, não quis descartar a possibilidade de um calote grego. “O primeiro-ministro grego tomou essa decisão sem discuti-la com seus colegas europeus”, disse ele em Luxemburgo. Perguntado se um “não” no referendo significaria bancarrota para a Grécia, Juncker respondeu: “Eu não posso descartar que este seria o caso, mas depende de como exatamente a questão é formulada e do que o povo grego votará sobre.”

Renúncias – Papandreou disse que precisava de mais apoio político para os cortes orçamentários e as reformas estruturais exigidas pelos credores internacionais. Mas seus problemas aumentaram drasticamente. Uma reunião de governo deve ser realizada nesta terça-feira.

“Eles devem estar loucos… isso não é jeito de se administrar um país”, disse o executivo sênior de uma das maiores empresas da Grécia, que não quis ser identificado.

Pela zona do euro, políticos reclamavam, dizendo que Atenas está tentando estragar o pacote de resgate. Eles se preocupam menos sobre o destino da Grécia e mais sobre as possíveis consequências para a união monetária após o referendo.

Um parlamentar alemão sugeriu que a zona do euro pode deixar Atenas à deriva, cortando sua ajuda financeira e permitindo que a nação dê calote em suas dívidas enormes. “Para mim, isso faz parecer que alguém está tentando escapar do que foi combinado — uma coisa estranha a se fazer”, disse Rainer Bruederle, líder na coalizão de Merkel.

Convocação pode não ocorrer – A convocação, cujo anúncio tanto stress tem causado ao mercado, pode, inclusive, nem ocorrer. Uma fonte do Partido Socialista (Pasok, situação), de Papandreou, disse que a convocação “está basicamente morta”. “Já temos pelo menos quatro deputados opondo-se abertamente à proposta, inclusive uma deserção. Eu espero uma reunião de gabinete muito intensa, na qual alguns ministros poderiam se opor abertamente à ideia do primeiro-ministro (George Papandreou)”, prosseguiu a fonte.

Os comentários vieram à tona depois de a deputada socialista Hara Kefalidou ter manifestado abertamente sua oposição à convocação de um referendo sobre a Linha de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF, nas iniciais em inglês), defendida por Papandreou. Com a oposição de Kefalidou, sobe para quatro o número de deputados socialistas contrários ao referendo. Com isso, Papandreou já não goza de uma maioria clara no Parlamento a favor da proposta. O Pasok controla 153 das 300 cadeiras do Parlamento e precisa de maioria simples para levar o pacote a consulta popular.

Risco de dissolução – Diante das deserções, os analistas passaram a interpretar que é crescente a possibilidade de a gestão de Papandreou ruir – isto é, o primeiro-ministro seria afastado e um novo governo de coalizão se formaria. “Aumentou muito a instabilidade política na Grécia para o bem e para o mal. Particularmente, minha visão é que a única saída do país é a formação de um novo governo”, afirma a economista-chefe do Banco Fibra, Maristella Ansanelli. Na visão da analista, ainda é cedo para traçar cenários, mas há razões para ser otimista. “Temos muito tempo pela frente ainda. O referendo seria realizado só em janeiro. Até lá, quero acreditar que as autoridades gregas e de outros países europeus farão de tudo para não por tudo a perder”, acrescenta.

“A queda do primeiro-ministro da Grécia não seria tão ruim. Para mim, seria melhor ele cair logo e dar espaço para a formação de outro governo, tal como ocorreu em Portugal”, avalia o economista da gestora de recursos M.Safra, Guilherme Maia. O povo grego, destaca o analista, quer a permanência no euro, mas, por razões óbvias, não aceita as medidas altamente impopulares de austeridade fiscal. “O anúncio do referendo é uma tentativa desesperada de Papandreou manter o governo. Tanto é verdade que ele, inclusive, vinculou o voto no referendo com o voto de confiança no governo. Mas a estratégia, ao que tudo indica, deu errado”, explica.

(com Reuters e Agência Estado)