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Por que tenistas criam grandes negócios no Brasil; conheça os principais

Entre eles, figuram Robert Falkenburg, fundador da rede Bob’s e que morreu semana passada, e Jorge Paulo Lemann, dono da Ab InBev e sócio da 3G Capital

Por Luana Meneghetti Atualizado em 20 jan 2022, 16h28 - Publicado em 14 jan 2022, 12h04

Que atletas são ótimos em esforços para melhorar desempenho e que perseguem obsessivamente seus resultados, isso não há dúvidas. Para o mundo dos negócios, onde o desempenho e o resultado são imperativos para o lucro, essa resiliência e disciplina também fazem a diferença e foram características fundamentais herdadas do universo esportivo por alguns grandes empresários, que construíram verdadeiros impérios ao migrar das roupas leves para os ternos. Curiosamente, algumas grandes empresas fundadas em solo brasileiro foram criadas e lideradas por ex-tenistas.

Na semana passada, o empresário e ex-tenista Robert Falkenburg, fundador da rede brasileira de lanchonetes Bob’s, faleceu aos 95 anos de idade de causas naturais em sua casa na Califórnia. O empresário foi pioneiro no lançamento de redes do tipo “fast food” no Brasil. A primeira loja foi inaugurada no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, em 1952, que agradava o frequentador Tom Jobim, e ganhou expansão por todo o país. O McDonald’s só aportou no Brasil 27 anos depois, em 1979. Antes de iniciar o negócio, Falkenburg fez sucesso nas quadras. Ele foi campeão do torneio de Wimbledon em 1948 – um dos mais antigos do circuito de tênis e considerado o de maior prestígio -, e entrou para o Hall da Fama do tênis, em 1974.

Inicialmente, a rede vendia apenas sorvetes. A ideia do negócio nasceu quando Falkenburg participava de um torneio no Rio de Janeiro e teve vontade de tomar milk shake. Não satisfeito com as opções no Brasil, o americano aproveitou a oportunidade para investir no país, inaugurando a primeira loja em 1950. Dois anos depois, em 1952, a rede ampliou seu cardápio – bem no estilo americano – com a venda de hambúrgueres e hot dogs, se tornando a primeira rede de fast food da América do Sul, e que foi batizada a partir do apelido do tenista, Bob.

Mas o milk shake nunca deixou se ser o carro chefe da rede. Em 2008, a rede superou a barreira de 1 milhão de litros de milk shakes vendidos por mês. Hoje, possui mais de 1.110 pontos de vendas espalhados pelo Brasil e América do Sul, e é comandada pela Brazil Fast Food Corporation (BFFC), responsável também pelas marcas Yoggi, KFC e Pizza Hut no país. Falkenburg deixou a rede em 1974 e voltou a viver na Califórnia, mas o empresário criou verdadeiros laços no Brasil. Ele foi casado com a socialite carioca Lourdes Mayrink Veiga Machado por 75 anos, com quem teve dois filhos.

Ao lado de Falkenburg, somam-se outros famosos empresários e ex-tenistas de grande destaque: os brasileiros Jorge Paulo Lemann e Luiz Mattar.  A história de Lemann começou com a criação do Banco Garantia, e ele adquiriu as empresas Lojas Americanas, Brahma e a Antarctica. Mais tarde, Brahma e Antarctica se uniram para formar o grupo Ambev, que acabou formando a gigante AB InBev, a maior cervejaria do mundo, fabricante da Skol, Brahma, Bohemia, Antarctica, Norteña, Quilmes, Corona, Stella Artois, Bud Light e Budweiser e outras marcas pelo mundo. Mas, antes dos negócios, o empresário também fez carreira nas quadras.

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Jorge Paulo Lemann
Jorge Paulo Lemann ./Divulgação

Filho de pais suíços, Lemann foi, em 1962, convidado para representar a Suíça na Copa Davis – torneio internacional de tênis masculino por equipes -, após vencer uma partida no país europeu. Em 1973 assumiu o lugar de Thomaz Koch, que havia se machucado, para disputar a semifinal da rodada sul-americana da Copa Davis contra a Argentina, dessa vez, representando o Brasil. Lemann perdeu este último torneio, mas, em compensação, nos negócios, multiplicou as vitórias. Depois de sua trajetória no Garantia, tendo formado a AB InBev e sócio da holding de investimentos 3G Capital, que controla as redes Burger King, Tim Hortons, Popeyes e Kraft-Heinz, o empresário tem uma fortuna estimada de 96,5 bilhões de reais, segundo a revista Forbes.

Apesar da disciplina e da gana competitiva das quadras ter ajudado no sucesso dos negócios, o empreendedorismo vem de berço. O seu pai foi o fundador da fábrica de laticínios Leco, hoje pertencente à Vigor, e sua mãe era filha de um dos maiores exportadores de cacau do Brasil. O empresário também tem uma veia filantrópica. Ele criou a Fundação Lemann, organização sem fins lucrativos que oferece programas de bolsas em universidades dos Estados Unidos e do Reino Unido, e é um dos idealizadores do Rede Tênis Brasil, que desenvolve atletas no esporte.

Já Luiz Mattar aposentou-se das raquetes e da bolinha para empreender. Mattar foi o segundo tenista brasileiro com mais títulos da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), organizadora dos principais torneios mundiais, ficando atrás apenas de Gustavo Kuerten. Ele venceu 12 torneios: sete individuais da ATP e outros cinco de duplas. O empresário representou o Brasil em duas Olimpíadas e em dez edições da Copa Davis.

Hoje, sua realidade é o terno e a gravata no comando da Tivit e da NeoBPO, que faturam juntas quase 2,5 bilhões de reais por ano. A Tivit é uma multinacional de tecnologia voltada a digitalização das empresas, que surgiu a partir do call center Telefutura. A empresa está presente no mercado desde 1998 com operações em dez países da América Latina. Já a NeoBPO foi criada a partir da divisão dos negócios da Tivit para oferecer soluções de tecnologia customizadas, terceirizando processos dos clientes.

Segundo Fernando Gentil, conselheiro da organização de fomento ao esporte Rede Tênis Brasil, a combinação de organização, disciplina, planejamento e estabelecimento de metas, são características incorporadas desde cedo nos atletas, que são bastante aplicáveis ao mundo dos negócios. Ele destaca também que aprender a lidar com derrotas é um outro diferencial herdado pelo esporte e que pode ser muito importante nos negócios. Gentil jogou profissionalmente do infanto-juvenil até o universitário, mas abandonou as quadras por não atingir uma meta estabelecida. Após a universidade, se deu quatro anos para alavancar sua carreira no tênis: chegar no top 100 em quatro anos, entre 1974 a 1978. Ao não alcançar a meta, seguiu então o seu plano B: foi fazer pós-graduação em Administração de Empresas e adentrou no mundo empresarial. Hoje ele é conselheiro da brasileira empresa de energia Taesa e da norte-americana Crescent Electric, atua no conselho da América Latina da Universidade de Georgetown e é sócio e conselheiro da G5 Partners, uma boutique de investimentos que trabalha com fundos de private equity e venture capital. “O tênis dá muita autoconfiança e faz você aprender a se virar em situações difíceis. Isso tem um valor enorme quando se faz a transição para o mundo dos negócios”, diz. Falkenburg, Lemann e Mattar são grandes exemplos disso.

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