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Por que Sergey Brin, do Google, gastou US$ 100 milhões para barrar imposto na Califórnia

Disputa coloca um dos homens mais ricos do mundo contra coalizão que planeja mudar serviços do estado americano

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 ago 2026, 16h41 | Atualizado em 11 ago 2026, 16h43
Por que Sergey Brin, do Google, gastou US$ 100 milhões para barrar imposto na Califórnia Priorizar nos meus resultados Google

Sergey Brin, cofundador do Google, elevou para US$ 102 milhões o valor destinado à campanha contra a criação de um imposto sobre bilionários na Califórnia. O novo aporte de US$ 20 milhões transforma Brin em um dos principais financiadores da ofensiva para derrotar a Proposition 40, medida que será submetida aos eleitores do estado em novembro.

A proposta prevê uma cobrança única equivalente a 5% do patrimônio líquido de pessoas que eram residentes da Califórnia em 1º de janeiro de 2026 e tinham mais de US$ 1 bilhão em patrimônio. O pagamento poderia ser parcelado em cinco anos, com encargos adicionais. Imóveis, aposentadorias e algumas contas de previdência ficariam fora da base de cálculo.

Para Brin, cuja fortuna é estimada em aproximadamente US$ 270 bilhões, uma cobrança de 5% poderia representar algo próximo de US$ 13 bilhões. O valor, porém, é apenas uma estimativa baseada em seu patrimônio e não corresponde necessariamente ao imposto que ele efetivamente pagaria. O cálculo final dependeria das regras de avaliação dos ativos e, principalmente, de sua condição de residente da Califórnia na data de referência.

A medida transformou a eleição de novembro em um teste para uma questão que há anos divide economistas, políticos e empresários: até que ponto um estado pode tributar a riqueza acumulada por seus moradores mais ricos sem provocar uma fuga de capital, empresas e contribuintes?

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A resposta terá consequências que vão além da Califórnia. O estado concentra uma das maiores populações de bilionários dos Estados Unidos e é o principal polo americano de tecnologia, inteligência artificial e capital de risco. Ao mesmo tempo, enfrenta uma das maiores crises de custo de vida do país e precisa financiar programas públicos de saúde em um momento de redução esperada de recursos federais.

Como funciona o imposto

A Proposition 40 estabelece um imposto extraordinário, cobrado uma única vez, sobre a riqueza dos bilionários que eram residentes da Califórnia no primeiro dia de 2026. A alíquota seria de 5% do patrimônio líquido acima do limite definido pela proposta. O tributo seria devido em 2027, mas poderia ser pago ao longo de cinco anos.

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A lógica é diferente da tributação convencional. Hoje, a Califórnia cobra imposto sobre renda, ganhos de capital e outras fontes de rendimento. A Proposition 40 atingiria diretamente o estoque de riqueza acumulada, incluindo participações acionárias e outros ativos financeiros.

O desenho cria uma dificuldade importante: boa parte da fortuna dos bilionários não está depositada em dinheiro. Ela está vinculada a ações de empresas, participações privadas e outros ativos cujo valor pode variar diariamente.

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No caso de Brin, grande parte de sua fortuna está associada à participação que acumulou na Alphabet, controladora do Google. Uma alta nas ações da companhia pode aumentar seu patrimônio em bilhões de dólares sem que ele tenha recebido esse dinheiro como renda.

A proposta determina que 90% da arrecadação seja direcionada à saúde, enquanto os outros 10% serão destinados a programas de assistência alimentar e educação. A iniciativa também impede que o dinheiro seja usado simplesmente para substituir recursos que já deveriam financiar essas áreas.

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O governo estadual estima que o imposto produziria dezenas de bilhões de dólares em receitas extraordinárias distribuídas ao longo de vários anos. Ao mesmo tempo, o Legislative Analyst’s Office calcula que uma eventual saída de bilionários poderia reduzir permanentemente a arrecadação do imposto de renda estadual em menos de US$ 1 bilhão por ano.

A reação de Silicon Valley

A reação dos bilionários foi imediata e agressiva.

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Brin não está sozinho. Outros nomes importantes da tecnologia e dos investimentos, como o ex-CEO do Google Eric Schmidt e o cofundador do PayPal Peter Thiel, também financiaram esforços contra a medida. A oposição transformou a campanha em uma das disputas eleitorais mais caras envolvendo uma política tributária estadual.

O argumento central dos críticos é que a Califórnia corre o risco de perder justamente os contribuintes que pretende taxar. Bilionários poderiam transferir residência, ativos ou estruturas empresariais para outros estados, reduzindo a base tributária e, potencialmente, levando investimentos e empresas consigo.

O governador Gavin Newsom, democrata, também se opõe à Proposition 40. Sua posição coloca o debate em uma situação incomum: uma proposta apoiada por sindicatos e setores da esquerda enfrenta resistência não apenas de bilionários e empresários, mas também do principal líder democrata do estado.

Newsom argumenta que uma eventual fuga de contribuintes ricos poderia reduzir receitas futuras e prejudicar o financiamento de serviços públicos. O governador também teme que a medida torne a economia californiana menos competitiva em relação a estados que não cobram impostos semelhantes.

A proposta surgiu justamente em um ambiente de forte tensão sobre o financiamento da saúde. A Califórnia depende de recursos federais para manter o Medi-Cal, seu programa de assistência médica para pessoas de baixa renda, e os cortes federais aprovados em Washington aumentam a pressão sobre o orçamento estadual.

É nesse ponto que os defensores da Proposition 40 concentram sua argumentação: uma parcela pequena da população, dona de uma quantidade extraordinária de riqueza, poderia financiar uma parte importante dos serviços públicos.

A Califórnia ficou muito mais rica

Um estudo publicado pelo National Bureau of Economic Research em maio ajuda a dimensionar o tamanho da concentração de riqueza no estado.

Os economistas Jasper Boll, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman estimam que os bilionários da Califórnia acumulam mais de US$ 2 trilhões em patrimônio. O valor equivale a cerca de metade do Produto Interno Bruto do estado.

Segundo o estudo, a riqueza dos bilionários californianos cresceu 144% entre 2023 e 2025, impulsionada principalmente pela valorização de empresas associadas ao avanço da inteligência artificial. Em uma perspectiva mais longa, a riqueza real do grupo teria aumentado 38 vezes desde 1982, enquanto a renda média real das famílias aproximadamente dobrou.

A diferença ajuda a explicar por que a ideia de um imposto sobre patrimônio ganhou espaço em um estado que abriga algumas das empresas mais valiosas do planeta, mas também convive com elevados níveis de desigualdade e custo de moradia.

O estudo estima que os bilionários pagaram cerca de US$ 3,2 bilhões em imposto de renda estadual por ano, equivalente a aproximadamente 0,2% de sua riqueza. Entre 2023 e 2025, esse grupo respondeu, em média, por 2,4% de toda a receita do imposto de renda da Califórnia.

Essa diferença é central no debate. Para os defensores do imposto, ela mostra que a riqueza acumulada pelos super-ricos cresceu muito mais rapidamente do que a contribuição tributária associada a esse patrimônio. Para os opositores, a concentração de riqueza em ativos de empresas não significa que o estado possa tributá-la sem provocar mudanças no comportamento dos proprietários.

Brin já começou a se afastar da Califórnia

A batalha política acontece paralelamente a mudanças na vida empresarial e pessoal de Brin.

No fim de 2025, entidades ligadas ao cofundador do Google transferiram estruturas para fora da Califórnia. Uma delas, a T-Rex LLC, passou a ter escritório principal registrado em Reno, Nevada, depois de anos em Palo Alto.

Em janeiro, Brin também foi associado à compra de uma propriedade de US$ 42 milhões no lado de Nevada do lago Tahoe. A operação foi interpretada como mais um sinal de sua mudança de residência diante da possibilidade de aprovação do imposto.

O caso é especialmente relevante porque Nevada não cobra imposto estadual sobre renda individual. A Califórnia, por outro lado, possui uma das maiores cargas tributárias estaduais dos Estados Unidos para contribuintes de alta renda.

Outros empresários também passaram a considerar mudanças. Larry Page, que fundou o Google ao lado de Brin, transferiu estruturas empresariais para Delaware e também ampliou sua presença patrimonial fora da Califórnia.

A questão, porém, é saber se mudar de endereço basta para escapar do imposto.

A Proposition 40 usa como referência a residência em 1º de janeiro de 2026. Isso significa que uma pessoa que deixou a Califórnia depois dessa data pode continuar sujeita à cobrança caso a medida seja aprovada.

Essa característica tornou a disputa ainda mais controversa. Autoridades fiscais terão de determinar, em casos contestados, se uma mudança de residência foi efetiva ou apenas uma estratégia para evitar o imposto.

O argumento da fuga de bilionários

O risco de evasão de contribuintes ricos é o principal argumento econômico dos opositores. A ideia é simples: se um bilionário pode transferir residência para Nevada, Flórida ou Texas, o governo da Califórnia pode arrecadar menos impostos no futuro.

O Legislative Analyst’s Office reconhece essa possibilidade, mas estima que a perda anual de arrecadação do imposto de renda estadual provocada por saídas de bilionários provavelmente seria inferior a US$ 1 bilhão.

O estudo de Boll, Saez e Zucman chega a uma conclusão ainda mais favorável à capacidade arrecadatória da proposta. Os pesquisadores calculam que os bilionários residentes na Califórnia pagam atualmente cerca de US$ 3,2 bilhões por ano em imposto de renda estadual, diante de uma riqueza superior a US$ 2 trilhões.

Na prática, isso significa que seria necessário um período muito longo de perda de arrecadação para compensar o volume de recursos que o imposto extraordinário poderia gerar.

Mas esse cálculo não encerra a discussão. Ele considera principalmente a arrecadação tributária direta e não captura integralmente possíveis efeitos sobre investimentos, empresas, empregos, filantropia e decisões de localização de negócios.

Também existe uma incerteza sobre quantos bilionários realmente deixariam o estado. Uma pequena parcela pode sair, enquanto outros podem permanecer por razões familiares, empresariais ou profissionais.

Uma disputa que virou símbolo

A Proposition 40 representa mais do que uma briga sobre uma alíquota de 5%. Ela coloca em confronto dois modelos de Califórnia.

De um lado estão sindicatos e grupos que defendem uma transferência maior da riqueza extraordinária produzida pelo setor de tecnologia para serviços públicos, especialmente saúde. Do outro estão empresários, investidores e parte da elite política do estado, que veem o imposto como ameaça à competitividade econômica e à capacidade da Califórnia de continuar atraindo empreendedores.

Brin tornou-se o rosto mais conhecido da oposição. Em abril, ele disse ao New York Times que sua família fugiu da União Soviética em 1979 e que não queria ver a Califórnia seguir um caminho que associasse à experiência socialista soviética.

A comparação provocou reação porque a proposta não cria um sistema de tributação permanente sobre a riqueza. Trata-se de uma cobrança extraordinária e única, destinada principalmente ao financiamento de saúde e outros programas sociais.

O fato de Brin ter colocado US$ 102 milhões na campanha também evidencia o tamanho dos interesses financeiros envolvidos.

Mesmo que a estimativa de US$ 13 bilhões de imposto sobre sua fortuna seja apenas aproximada, a diferença entre o que ele já gastou para combater a proposta e o que poderia pagar caso ela seja aplicada ajuda a explicar por que a disputa se tornou tão intensa.

A eleição de novembro poderá, assim, produzir um precedente para outros estados americanos. Se a Califórnia conseguir implementar um imposto desse tipo e preservar uma parcela significativa de sua base tributária, a experiência poderá alimentar propostas semelhantes em outros lugares. Se houver uma saída expressiva de bilionários e ativos, os efeitos poderão servir de argumento para os opositores de impostos sobre patrimônio.

A decisão, por enquanto, está nas mãos dos eleitores. A Proposition 40 estará na cédula de 3 de novembro.

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