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Por que o fantasma da recessão técnica pode ser passageiro

O segundo trimestre seguido de contração na atividade econômica assusta, mas o país não está sofrendo calado

À primeira vista, a única reação possível seria esta: pânico. Afinal, a notícia, divulgada na segunda-feira 12, de que o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) — uma espécie de prévia do produto interno bruto (PIB) — apresentara uma contração de 0,13% entre abril e junho, na sequência de um resultado também negativo, de 0,52%, registrado no primeiro trimestre do ano, não tinha mesmo nada de reconfortante. Isso, por um motivo simples: caso a retração se confirme no anúncio oficial da variação do PIB, que o IBGE fará no fim do mês, o Brasil estará em recessão técnica — dois trimestres seguidos de crescimento negativo da economia. No entanto, apesar do temor gerado pelo IBC-Br, é cedo para cravar que o país se encontra em situação periclitante. “O PIB pode ter até três ou quatro trimestres de queda e ainda assim não estar em declínio. A recessão técnica é uma convenção, mas não pode ser encarada como uma fatalidade”, diz o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega.

Para além dos números, há que levar em conta o que está acontecendo no Brasil. É verdade que o governo Bolsonaro prometeu um crescimento econômico acelerado logo nos primeiros meses de sua gestão, e deve ser cobrado quanto à expectativa que ele próprio criou. Nem tudo, porém, está sob seu controle. Ainda se paga um preço alto pelos erros cometidos em anos anteriores, que baixaram o potencial de crescimento e afundaram a produtividade. A indústria extrativa sofreu um baque com a tragédia de Brumadinho, o que impacta todo o ambiente de negócios. No cenário internacional, a guerra comercial entre Pequim e Washington pode até impulsionar a exportação de soja brasileira para os chineses, entretanto é provável que em breve o comércio seja reduzido substancialmente em consequência dessa briga. Aqui do lado, a crise na Argentina ganhou ainda mais combustível com a vitória nas eleições primárias da chapa da ex-­presidente Cristina Kirchner, que provocou a pior queda, em toda a sua história, na bolsa de valores local. Como se não bastassem todos esses percalços, a equipe de Paulo Guedes ainda precisa se preocupar com a língua solta do presidente. “Jair Bolsonaro tem atitudes de constante beligerância, que criam momentos de tensão e não ajudam a deixar a nação tranquila”, afirma João Luiz Mascolo, professor do Insper.

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O país, contudo, não sofre calado. Providências estão sendo tomadas para colocá-lo nos trilhos. A curto prazo, espera-se que a liberação do FGTS irrigue o comércio e que a diminuição da taxa Selic estimule a oferta de crédito mais barato, impulsionando o consumo e os investimentos. Outras prioridades do governo, como a reforma da Previdência, a tributária e a Medida Provisória da Liberdade Econômica (leia o quadro ao lado), são essenciais para o crescimento, todavia exigem paciência até que seus efeitos apareçam. “A retomada leva tempo e não se resolve num passe de mágica”, acredita Otaviano Canuto, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI). “Precisamos de investidores privados dispostos a apostar no futuro e de mais reformas que consolidem a confiança para investir no Brasil.” A situação é desconfortável, sim — no entanto, há motivos para acreditar que, depois dessa tempestade, venha a bonança. ƒ

Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2019, edição nº 2648