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Por que o efeito da alta do dólar ainda não impactou a inflação

IPCA, publicado nesta sexta, 7, indicou alta dos preços de 0,36% em julho; apesar de ser o mais alto índice desde 2016, inflação no ano soma 0,46% apenas

Por Victor Irajá - Atualizado em 7 ago 2020, 11h48 - Publicado em 7 ago 2020, 11h41

Os leitores que viveram no Brasil dos anos 1980 têm certo trauma da palavra inflação. Basta a ideia aparecer nas manchetes para que os brasileiros rememorem um período turvo de reajustes diários de preços e o derretimento da moeda dia após dia. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, divulgou hoje que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, que mede a inflação média do país, avançou 0,36% no mês de julho em relação ao mês anterior, depois de registrar aumento de 0,26% em junho. A alta foi puxada, principalmente, graças à alta nos preços dos combustíveis e transportes. A gasolina subiu 3,42%, o que impulsionou o avanço dos transportes como um todo. Um detalhe, porém, chama a atenção: mesmo em patamares nominais jamais vistos, o dólar tem pouco ou nenhum impacto sobre o avanço dos preços. E não há motivo para preocupação com os índices inflacionários. Valendo nababescos 5,42 reais na manhã desta sexta-feira, 7, a moeda americana avançou 35% este ano.

Apesar da desvalorização do real frente ao dólar, a pandemia provocou uma situação minimamente curiosa: mesmo com a desvalorização gritante do real, o dólar não provocou sequer cocegas nos índices inflacionários. Por um motivo não tão nobre. “A boa notícia é que está ruim. O nível de atividade econômica está muito fraco. O repasse dos preços não sai do atacado para o varejo, porque a atividade econômica está claudicante”, diz André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton. “Tem um pouco de impacto no combustível, por causa da política da Petrobras de acompanhar os preços internacionais, mas de forma geral existe essa fragilidade, que se traduz na situação de que o repasse não acontece. Não é normal”, afirma ele. Com a vocação expressa do Banco Central (BC) de ceifar a taxa básica de juros, a Selic, a diretriz do presidente da instituição, Roberto Campos Neto, é conviver com o câmbio mais elevado. A questão é a que preço. 

Na terça-feira 5, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, anunciou mais um corte na taxa Selic, de 0,25 ponto percentual, para 2% ao ano, menor patamar da história. Foi o nono ajuste consecutivo para baixo feito pela instituição. O ciclo de reduções tem como norte o fomento da atividade, mas incute na fuga de dólares do país, graças ao baixo retorno de papéis públicos do país. “O Banco Central errou ao sinalizar mais cortes. Os níveis altos do câmbio não podem causar repique inflacionário, porque temos capacidade ociosa gigantesca. Por enquanto, o país está conseguindo manter a renda por causa das políticas emergenciais, mas em dois meses, vamos assistir a uma queda na renda porque esses programas terão fim. Teremos mais recessão”, afirma Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor do Banco Central. “A inflação não volta tão cedo. Nosso maior problema é recessão”, diz ele. 

“Devido a questões prudenciais e de estabilidade financeira, o espaço remanescente para utilização da política monetária, se houver, deve ser pequeno. Consequentemente, eventuais ajustes futuros no atual grau de estímulo ocorreriam com gradualismo adicional e dependerão da percepção sobre a trajetória fiscal, assim como de novas informações que alterem a atual avaliação do Copom sobre a inflação prospectiva”, afirma a nota divulgada pelo Copom, abrindo as portas para mais cortes. O boletim Focus prevê que, até o final do ano, a inflação ficará em 1,6%, bem abaixo da meta de 4% e do limite inferior de tolerância, de 2,5%. Para o 2021, o número também é confortável: a expectativa de inflação é de 3%, abaixo da meta de 3,75%. O dólar, por sua vez, perdeu força, graças ao descalabro da pandemia nos Estados Unidos e a incerteza envolvendo as eleições de novembro. A moeda fraca nos lados de lá só mostra que, no Brasil, o real não está valendo nada. E, graças ao infeliz quadro de falta de poder de compra da população, a inflação ainda parece apenas outra lembrança ruim. 

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