Por que o Bradesco acha que o BC está muito rigoroso e poderia cortar mais os juros
Selic está atualmente em 14%, banco mais um corte, mas acredita que haveria espaço para mais três
Para a equipe de análises econômicas do banco Bradesco, há diversos fatores que poderiam permitir o Banco Central a baixar mais a Selic, a taxa básica de juros, do que a autarquia vem dando sinais de que deve fazer.
Isto porque a inflação, que está alta e fora da meta atualmente, está em grande parte influenciada por choques de preços que aconteceram neste ano, em especial aqueles ligados à guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciada no começo do ano. Esses impactos, portanto, tendem a ser passageiros, enquanto a economia já dá sinais de desaceleração que, em paralelo, ajudam os preços a perder forças.
“O câmbio tem fundamentos para continuar estável perto de R$ 5, a economia perde tração, o choque de preço do petróleo não foi tão persistente quanto se imaginou inicialmente e a inflação começa a ceder”, diz o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, que falou a jornalistas na manhã desta sexta-feira, 7, para apresentar as projeções do banco para o cenário econômico brasileiro.
Na última quarta-feira, 5, o Comitê de Política Monetária (Copom) Banco Central anunciou um novo corte da Selic, de 14,25% para 14% ao ano, mas apontou para uma piora nas pressões inflacionários e não quis se comprometer com novos cortes à frente.
A nova projeção do Bradesco para a Selic ao fim de 2026, divulgada no relatório desta sexta-feira, é de 13,75%, ou seja, comporta mais um corte de 0,25 ponto na próxima reunião, em setembro, para depois parar. De acordo com Honorato, contudo, haveria espaço para que isso caísse ainda até os 13,25%, ou seja, dois cortes a mais de 0,25 ponto até dezembro.
“A nossa projeção interna para a Selic estava em 13,25%, mas, depois que vimos o comunicado do Copom na quarta-feira, resolvemos deixar em 13,75%”, diz o economista. “O Copom foi muito conservador, acho que ele próprio não quer cortar muito mais, e, como já não estávamos totalmente seguros, achamos melhor segurar a nossa projeção e esperar um pouco mais para ver como as coisas podem se desdobrar.” Mas o viés, de acordo com ele, é de baixa. “Há o risco de a Selic ser menor do que a projeção.”
O Bradesco acredita que o dólar deve continuar flutuando na casa de 5 a 5,29 reais, ajudado pelo cenário externo e pelas exportações, e, por conta disso, o banco reduziu sua projeção de inflação de 5,20% para 5% ao fim de 2026.
É um número que estoura o teto da meta, que é de inflação de 3% com uma margem de tolerância de até 4,5%, mas em grande parte por conta de efeitos, de acordo com Honorato, ligados aos choque da guerra, que são temporários.
Como o Brasil já partiu de um patamar de juros muito alto, de 15%, ainda há margem para cortar sem que, ainda assim, a política monetária deixe de ser combativa com aumentos de preços. O PIB também deve ser mais fraco: a projeção para 2026 foi reduzida de 2% para 1,9%.
“No início da guerra do Irã, com as restrições na oferta de petróleo, imaginava-se que o preço do barril devia chegar nos 120 dólares e ficar, mas ele já está em 80 dólares”, diz Honorato. “O mundo buscou alternativas e se adaptou. O pior já passou.”







