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Por que Bolsonaro pode provocar boicotes além da carne

UE pretende barrar produtos provenientes de áreas desmatadas e medidas restritivas do mesmo tipo já são estudadas por EUA e Reino Unido

Por Luana Meneghetti 2 jan 2022, 15h11

A volta das compras da carne brasileira pela China é uma ótima notícia, após mais de três meses de um embargo desde a confirmação de casos da doença conhecida como “mal da vaca louca”. Mas, se por um lado, o Brasil está retomando um dos itens mais importantes de sua pauta exportadora com a China, por outro, o cerco começa a se fechar com a Europa. Em meados de dezembro, importantes redes de supermercados europeus, inclusive uma subsidiária da francesa Carrefour, anunciaram que não venderão mais carne bovina brasileira devido à relação do produto com o desmatamento. O boicote já era esperado diante a postura do presidente Jair Bolsonaro em relação às questões ambientais, bem num momento que governos de todo o mundo começam a ser mais pressionados pela sociedade na adoção de uma agenda verde e sustentável.

Em entrevista para VEJA, Sérgio Amaral, o mais recente ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, já havia alertado que países comprometidos com a agenda ambiental poderiam restringir a entrada dos produtos brasileiros. Afinal, recentemente, a Europa anunciou que pretende barrar produtos provenientes de áreas desmatadas. A proposta da Comissão Europeia deve ser votada pelo Parlamento Europeu no primeiro semestre de 2022, junto aos seus 27 países-membros. A medida restritiva já começa a ser estudada por outros países, como Estados Unidos e Reino Unido. Nos dois países, estão sendo apreciadas normas e projetos de leis que proíbem a compra de produtos de áreas desmatadas. Até mesmo a China já sinalizou que pretende zerar a importações de produtos dessas regiões.

Antecipando tais movimentos, seis redes europeias já comunicaram que tirarão de suas prateleiras as carnes de origem brasileira, entre elas, as redes holandesas Ahold Delhaiz e Lidl Netherlands; a belga Carrefour Belgium; a francesa Auchan, e as britânicas Sainsbury’s e Princes Group. A decisão acontece após denúncia de que empresas brasileiras teriam produção de gado em áreas de desmatamento que depois eram transferidos para fazendas regularizadas para o abate, mascarando a origem da carne. O esquema foi revelado pela investigação da organização Mighty Earth em colaboração com a brasileira Repórter Brasil.

Esse não é a primeira retaliação durante o governo Bolsonaro. Em 2019, houve boicote de empresas de vestuário ao couro brasileiro em resposta às queimadas na floresta amazônica. No mesmo ano, uma varejista sueca deixou de comprar produtos agrícolas brasileiros devido a liberação de mais agrotóxicos. Na época, a rede em questão, a sueca Paradiset, se referia à aprovação de 169 novos pesticidas, número recorde em 14 anos. No ano passado, o presidente da França, Emmanuel Macron, deixou claro em suas redes sociais que seu país vem trabalhando para se tornar independente da soja brasileira. Segundo o francês, “continuar dependente da soja brasileira é endossar o desmatamento”.

A soja brasileira também já foi boicotada em 2006, após o Greenpeace apontar a relação da produção do grão com o desmatamento. Após a investigação, entidades europeias pressionaram por soluções sustentáveis, nascendo assim a moratória da soja, um pacto entre produtores e organizações ambientais para estabelecer regras de produção sustentável. Apesar do pacto, o desmatamento na região ainda é alto. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), de 2008 a 2020, foram constatados 88.234 mil hectares de plantio de soja em desacordo com a moratória. Ainda este ano, empresas europeias ameaçaram boicotar as commodities brasileiras com o avanço de um projeto de lei que regulariza a ocupação de terras públicas.

Desmatamento

Durante o governo Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia é o maior desde 2008, segundo o Inpe. No governo, também tem avançado leis que liberam a grilagem e a mineração em terras protegidas. A Lei da Grilagem, aprovada na Câmara dos Deputados, regulariza a invasão de terras públicas. O texto pode favorecer o aumento de invasões e desmatamentos, e representa um dos maiores retrocessos ambientais. Além disso, durante a COP-26, maior conferência mundial sobre o clima, o Brasil firmou o compromisso de acabar com o desmatamento até 2030, mas não convenceu as autoridades. Uma semana antes do evento, Bolsonaro visitou uma região de mineração ilegal em terra indígena e prometeu legalizar a atividade.

As lideranças mundiais estão cada vez mais céticas com a postura de Bolsonaro e enxergam suas falas como “promessas vazias”. “Para o Brasil, que é um país agroexportador, que depende muito dos produtos primários, ficar vulnerável na esfera ambiental significa perder negócios, investimentos, e aumentar o risco do país”, diz Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais na faculdade Faap.

Segundo Amaral, as questões ambientais estão se tornando o cerne de uma nova agenda de desenvolvimento e os países vão demandar cada vez mais evidências concretas de que o Brasil está tomando medidas para reduzir o desmatamento. “Se o Brasil relutar em adotar certas medidas para reduzir de forma significativa o desmatamento, vamos ter problema na exportação e vamos continuar na berlinda sofrendo pressões cada vez mais fortes”, diz. Para evitar novos boicotes, só tem um caminho: ajustar a política sobre meio ambiente em linha com tendência mundial para além do discurso e do papel. Só assim conseguirá preservar a longo prazo as cifras bilionárias da pauta exportadora.

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