ASSINE VEJA NEGÓCIOS

Por que a Petrobras está comprando gás dos EUA por 20 anos

Mesmo com produção recorde no pré-sal, estatal busca proteção contra oscilações do mercado internacional

Por Machado da Costa Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 15 set 2026, 09h00 | Atualizado em 15 set 2026, 10h26
Por que a Petrobras está comprando gás dos EUA por 20 anos Priorize VEJA no Google

A decisão da Petrobras de comprar gás natural liquefeito dos Estados Unidos pelos próximos vinte anos parece, à primeira vista, contraditória. O Brasil vem batendo recordes na produção de gás, e o próprio planejamento oficial prevê forte expansão da oferta doméstica ao longo da próxima década. Ainda assim, a estatal resolveu garantir 0,8 milhão de toneladas de GNL (Gás Natural Liquefeito) por ano da americana Sempra Infrastructure durante duas décadas.

A explicação está menos numa expectativa de falta permanente de gás e mais na compra de previsibilidade. A demanda brasileira pelo combustível varia fortemente de acordo com as chuvas. Quando os reservatórios das hidrelétricas estão baixos, aumenta o despacho das termelétricas e, com ele, a necessidade de GNL. Historicamente, o Brasil cobriu boa parte desses picos recorrendo ao mercado spot — justamente onde os preços podem disparar quando vários países precisam comprar ao mesmo tempo. A crise hídrica de 2021 mostrou o risco: as importações de GNL da Petrobras mais que triplicaram naquele ano, chegando à média de 23 milhões de metros cúbicos por dia.

Há também uma segunda incerteza entrando na conta: a Bolívia. A produção do país vizinho vem caindo, o que levou Petrobras e YPFB a rever sucessivamente o contrato de fornecimento pelo Gasbol. O acordo atual pode se esgotar entre 2028 e 2029. No Plano Decenal de Expansão de Energia, a EPE já prevê que o gás recebido pelo gasoduto caia de 13 milhões de metros cúbicos por dia para 5 milhões a partir de 2030.

Nem mesmo o avanço do pré-sal elimina o problema. Em julho, a produção brasileira de gás atingiu 214,97 milhões de metros cúbicos por dia, 12,6% acima de um ano antes. Mas apenas 66,12 milhões de metros cúbicos por dia foram efetivamente disponibilizados ao mercado. Parte relevante da produção é reinjetada nos reservatórios, consumida nas próprias operações ou depende de infraestrutura de escoamento e processamento para chegar aos consumidores. A própria EPE alerta que restrições na malha podem impedir que uma oferta nacional teoricamente excedente atenda toda a demanda.

Continua após a publicidade

A Petrobras, portanto, está montando uma espécie de seguro para seu portfólio. O movimento começou antes do acordo com a Sempra. Em fevereiro de 2025, a companhia contratou da britânica Centrica outros 0,8 milhão de toneladas anuais de GNL por quinze anos, com entregas a partir de 2027. Na ocasião, afirmou explicitamente que pretendia reduzir sua exposição ao mercado spot. O novo negócio dobra o volume anual contratado nesses dois acordos de longo prazo e estende a proteção por mais duas décadas.

O curioso é que isso acontece justamente quando a EPE projeta crescimento de 95% da produção líquida brasileira de gás entre 2025 e 2035 e um balanço nacional superavitário ao longo do período. Não há contradição necessariamente. O excedente pode existir em uma região ou período e faltar gás disponível onde e quando as térmicas forem acionadas. O GNL funciona como uma fonte de flexibilidade para cobrir esses picos. A aposta da Petrobras é trocar parte do risco de ter de correr ao mercado internacional em momentos de aperto por um compromisso longo de fornecimento.

Continua após a publicidade

A companhia não revelou quanto pagará pelo GNL da Sempra nem a fórmula de preços do contrato — informação decisiva para saber quanto custa esse seguro. Também não informou quando começam as entregas. O que já está claro é a direção da estratégia: depois de anos dependendo fortemente de cargas compradas conforme a necessidade, a Petrobras está reservando com antecedência uma parcela maior do gás que poderá precisar no futuro.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Capa da revista Veja, um celular e um notebook exibindo o site da revista, sobre fundo preto com texto BLACKFRIDAY repetidoBanner de Black Friday com fundo roxo e preto, exibindo a palavra BLACKFRIDAY repetida. À direita, um laptop prateado com uma imagem de carro na tela, um smartphone com um site de notícias e uma revista Veja aberta com uma foto de comida.
ECONOMIZE ATÉ 87% OFF

Digital Essencial

O mercado não espera — e você também não pode!
Com a Veja Negócios Digital, você tem acesso imediato às tendências, análises, estratégias e bastidores que movem a economia e os grandes negócios.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ESQUENTA BLACK FRIDAY

Revista em Casa + Digital Premium

Veja Negócios impressa todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Premium
De: R$ 29,99/mês
A partir de R$ 9,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).