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População ocupada sobe, mas renda do trabalhador recua 10,2% em um ano

Trabalho informal e vagas sem qualificação dão o tom da retomada do emprego; segundo o IBGE, 13,7 milhões estavam sem trabalho em agosto

Por Larissa Quintino Atualizado em 29 out 2021, 14h53 - Publicado em 27 out 2021, 09h34

O mercado de trabalho é um dos indicadores mais importantes da economia e, no Brasil, pela complexidade das relações trabalhistas, é um dos últimos a indicar o movimento de ritmo de atividade. Com a retomada econômica, graças ao avanço da vacinação, a taxa de desemprego do país recuou, e há mais pessoas trabalhando. Porém, o rendimento médio do trabalho está menor. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio real recuou 4,3% frente ao trimestre encerrado em maio e reduziu 10,2% em relação ao mesmo trimestre de 2020, ficando em 2.489 reais, as quedas mais acentuadas da série histórica, em ambas as comparações.

“A queda no rendimento está mostrando que, embora haja um maior número de pessoas ocupadas, nas diversas formas de inserção no mercado e em diversas atividades, essa população ocupada está sendo remunerada com rendimentos menores. A ocupação cresce, mas com rendimento do trabalho em queda”, explica Adriana Beringuy, a coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE. 

O nível de desocupação, como é conhecida a taxa de desemprego, foi de 13,2% no trimestre fechado em agosto, uma redução de 1,4 ponto percentual em relação ao trimestre encerrado em maio. Ao todo, há 13,7 milhões de brasileiros em busca de emprego. A taxa de desemprego é bastante elevada, mas vem sendo reduzida pelo aumento da população ocupada. Ao final de agosto, eram 90,2 milhões de brasileiros trabalhando, um aumento de 4% no trimestre, com mais 3,5 milhões de pessoas efetivamente trabalhando. No comparativo anual, o dado mostra ainda mais essa recuperação, com elevação de 10,4%, ou seja, mais 8,5 milhões de brasileiros ocupados.

Com isso, o índice de ocupação está acima dos 50%, ou seja, mais da metade da população brasileira em idade para trabalhar está, de fato, ocupada. O dado é importante para entender o movimento do mercado de trabalho porque o IBGE considera desempregada a pessoa que está sem emprego, mas procurando atividade.

Apesar de mais gente trabalhando, o rendimento mais curto tem impactos na economia. A massa de rendimento real, que é soma de todos os salários dos trabalhadores, ficou em 219,2 bilhões de reais, recuo de 0,4% na comparação com o trimestre anterior e 0,7%, na comparação com 2020.

Mercado formal e informal

A queda nos rendimentos pode ser explicada por dois fatores, um é a pressão inflacionária, o outro é a criação de vagas com menor qualificação. A taxa de informalidade, isto é, de trabalho sem carteira assinada ou negócio próprio sem CNPJ atingiu 41,1%, no trimestre encerrado em agosto, totalizando 37,0 milhões de pessoas. No trimestre passado, a taxa era de 40%.

O trabalho informal inclui trabalhadores sem carteira assinada (empregados do setor privado ou trabalhadores domésticos), sem CNPJ (empregadores ou empregados por conta própria) ou trabalhadores familiares auxiliares. “Parte significativa da recuperação da ocupação deve-se ao avanço da informalidade. Em um ano a população ocupada total expandiu em 8,5 milhões de pessoas, sendo que desse contingente 6 milhões eram trabalhadores informais”, explica Adriana. 

O trabalho por conta própria manteve a trajetória de crescimento e atingiu, novamente, o patamar recorde de 25,4 milhões de pessoas, um aumento de 4,3%, com mais 1,0 milhão de pessoas. Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, o contingente avançou 3,9 milhões, alta de 18,1%.

O trabalho doméstico aumentou 9,9%, somando 5,5 milhões pessoas. Frente ao mesmo período do ano anterior, cresceu 21,2%, um adicional de 965 mil pessoas. As expansões trimestral e anual foram as maiores em toda em toda a série histórica da ocupação dos trabalhadores domésticos.

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O número de empregados no setor privado sem carteira (10,8 milhões) cresceu 10,1% na comparação com o trimestre móvel anterior. Em um ano, esse contingente subiu 23,3% ou 2 milhões de pessoas, as maiores variações da série histórica, em termos percentuais e absolutos.

Já a categoria dos empregadores (3,8 milhões) ficou estável nas duas comparações. Os empregados do setor público (11,6 milhões) tiveram uma redução de 3,1% frente ao trimestre anterior. Na comparação anual, ficou estável.

Houve um aumento no emprego com carteira assinada no setor privado e nos postos de trabalho informais, com a manutenção da expansão do trabalho por conta própria sem CNPJ e do emprego sem carteira no setor privado. Isso fez, inclusive, com que a taxa de informalidade subisse dos 39,8% do trimestre móvel anterior para 40,8%, no trimestre encerrado em julho.

No caso do emprego com carteira assinada, houve avanço de 3,5%, com mais 1 milhão de pessoas, totalizando 30,6 milhões no trimestre até julho. Na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, o contingente aumentou 4,2%, com mais 1,2 milhão de pessoas. É o primeiro aumento no emprego com carteira, desde janeiro de 2020, na comparação anual. O fomento de vagas com carteira assinada já vem sendo sinalizado no Caged, o Cadastro de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho. Vale lembrar que as duas pesquisas têm metodologias diferentes: o Caged compila dados informados por empresas ao governo enquanto a Pnad é uma pesquisa de amostragem, que também compila dados sobre outros setores do mercado de trabalho, e não apenas do setor formal.

O trabalho informal, que inclui aqueles sem carteira assinada (empregados do setor privado ou trabalhadores domésticos), sem CNPJ (empregadores ou empregados por conta própria) ou trabalhadores sem remuneração, chegou a 36,3 milhões de pessoas e uma taxa de 40,8%. No trimestre anterior, a taxa foi de 39,8%, com 34,2 milhões de pessoas. Há um ano esse contingente era menor, 30,7 milhões e uma taxa de 37,4%, o menor patamar da série.

“Em um ano, o número de informais cresceu 5,6 milhões. O avanço da informalidade tem proporcionado a recuperação da ocupação da PNAD Contínua”, explica Adriana Beringuy.

O trabalho por conta própria manteve a trajetória de crescimento e atingiu o patamar recorde de 25,2 milhões de pessoas, um aumento de 4,7%, com mais 1,1 milhão de pessoas. Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, o contingente avançou 3,8 milhões, alta de 17,6%. “Essa é a forma de inserção na ocupação que mais vem crescendo nos últimos trimestres na PNAD Contínua, embora o trabalho com carteira assinada comece a ter resultados mais favoráveis”, acrescentou Adriana Beringuy.

O trabalho doméstico aumentou 7,7%, somando 5,3 milhões pessoas. Frente ao mesmo período do ano anterior, cresceu 16,1%, um adicional de 739 mil pessoas. As expansões trimestral e anual foram as maiores em toda em toda a série histórica da ocupação dos trabalhadores domésticos.

Em um ano, a população ocupada cresceu 7 milhões no país. Adriana Beringuy observa, contudo, que esse crescimento, embora muito significativo, tem como base de comparação o mesmo trimestre de 2020, quando a ocupação ainda era bastante afetada pela pandemia. “Embora tenha havido um crescimento sucessivo ao longo dos trimestres, mostrando recuperação da ocupação, a população ocupada segue inferior ao período pré-pandemia em cerca de 5 milhões de pessoas”, disse a analista do IBGE.

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