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Pode faltar energia solar no Brasil? Crise global de suprimentos é ameaça

Indústria está à beira de um colapso com desequilíbrios na oferta, aliados à alta demanda requerida pela transição energética

Por Luana Meneghetti Atualizado em 14 dez 2021, 16h57 - Publicado em 14 dez 2021, 15h43

O Brasil passou pelo seu pior período de chuvas em 2021, levando o país a enfrentar a crise hídrica mais intensa em nove décadas. A diminuição do nível dos reservatórios das hidrelétricas, que corresponde por 70% da matriz energética brasileira, impactou o setor de geração de energia. Em meio à escassez da oferta e ao encarecimento do serviço, vem crescendo a procura por energia solar, mas esse sistema também está em perigo. Empresas do setor alertam que a crise global de suprimentos já chegou aos equipamentos usados para a geração de energia solar. Se as cadeias de produção não voltarem ao equilíbrio no próximo ano, tudo indica que pode causar até a faltar dessa fonte de energia. Os projetos em andamento não serão concluídos e novos não poderão sequer ser iniciados.

As fabricantes desses equipamentos enfrentam um desabastecimento de painéis fotovoltaicos. O mercado brasileiro é atendido majoritariamente pela China — tanto pela indústria local, quanto pelas empresas europeias e americanas de painéis que estão baseadas no país asiático, aproveitando um momento em que os chineses passaram a assumir um forte comprometimento com as questões ambientais, reduzindo a produção de suas fábricas abastecidas a carvão. Como consequência, os principais fabricantes do país têm retido grande parte da produção de painéis para o mercado interno para auxiliar a transição energética que acontece por lá.

O problema adiciona mais um sobrecarga sobre os desequilíbrios na oferta e demanda causados pela pandemia, que vem gerando imensos gargalos na produção e na logística, com portos abarrotados e aumento de 30 a 40 dias para o transporte da mercadoria. O cenário tem gerado desabastecimento em diversos setores, inclusive na indústria de energia solar. “Um dos pontos chaves de sucesso desse mercado é ter a cadeia de suprimentos bem estruturada e planejada, mas atualmente a dificuldade é ter isso sob controle”, diz Alexandre Sathler, gestor de planejamento estratégico e inteligência de mercado da Cordeiro Soluções em Energia.

Adicionado a isso, a indústria também tem enfrentado outro desafio: a escassez do silício, principal matéria-prima para a fabricação dos painéis, que já fez aumentar em 20% o preço da energia solar.  “O mercado passa por vários desafios, que estão na oferta”, diz Sathler.

As oscilações do câmbio também estão refletindo na alta dos preços. Apesar do aumento do preço, o sistema ainda gera redução de cerca de 90% na conta de energia elétrica. De acordo com cálculos do especialista, um estabelecimento com gasto mensal de 60 mil reais pode reduzir a conta para algo em torno de 6 mil reais. Além dos custos, a energia solar tem sido uma das escolhas de muitos países para a transição energética. Para o Brasil, representa uma redução da dependência das hidrelétricas, que, em tempos de seca, colapsam o sistema energético do país. Além disso, para cada 1 GW de sistemas de geração distribuída instalados, cerca de 406 mil toneladas de CO2 deixam de ser emitidas anualmente, segundo cálculos da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD).

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Por conta disso, ao mesmo tempo que a indústria enfrenta problemas na oferta, a demanda é crescente. “A projeção de continuidade da escalada de encarecimento da conta de luz e as incertezas sobre disponibilidade de energia reforçaram o interesse por novas instalações de geração distribuída. Mesmo diante da falta de alguns componentes e peças, o setor está crescendo”, afirma Carlos Evangelista, presidente da ABGD. O Brasil atingiu 8 GW de potência de geração distribuída em 2021, o que corresponde a energia suficiente para 12 milhões de habitantes, e a previsão é de alcançar novos 5 GW até dezembro de 2023, segundo previsões da ABGD e da Empresa de Pesquisas em Energia (EPE). O Brasil iniciou o ano com 4,5 GW de potência instalada em geração distribuída, com crescimento mensal que passou de 100 MW para 350 MW.

O interesse deve ser ainda mais estimulado com o andamento do Projeto de Lei 5829/19, que visa taxar a geração distribuída de energia solar, até hoje isenta de impostos. O texto foi aprovado na Câmara dos Deputados e aguarda o parecer do Senado. Caso seja aprovado, a contratação de sistemas solares realizados dentro de um período de doze meses contados a partir da publicação do PL ficarão isentos da taxa. Por isso, especialistas do mercado e empresas do setor estimam que haverá uma corrida em adquirir sistemas de energia solar neste período, gerando uma verdadeira complicação para as empresas conseguirem cumprir suas entregas em meio ao desabastecimento enfrentado pela indústria.

Entre as fontes dos sistemas de mini e micro geração de eletricidade, a energia solar é a mais presente no país, representando 97,6% do total; seguida por termoelétrica (1,2%), Central Geradora Hidrelétrica – CGH (0,82%) e eólica (0,18%). Com mais de 908 mil conexões totais, a geração distribuída nacional tem a classe residencial como a mais prevalente, responsável por 3,38 GW, seguida de perto por estabelecimentos comerciais, com 2,81 GW. Nas demais categorias, destaque para o meio rural (1,12 GW) e a indústria (0,63 GW).

 

 

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