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Pnad é publicada com erro grave, diz IBGE

Segundo novos dados, a variação do índice de desigualdade mostrou leve queda, e não piora, como foi divulgado na véspera

“Não houve interferência política nessa correção”, diz IBGE

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) convocou entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira para informar que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) referente ao ano de 2013 foi publicada com erro grave. Segundo o IBGE, um erro no cálculo do peso de algumas regiões na amostragem resultou na divulgação de indicadores incorretos. Um deles é o índice de Gini, que mede a desigualdade, que teve de ser alterado.

O índice de Gini, que é usado mundialmente, leva em conta o número de pessoas em um domicílio e a renda de cada um, e mostra uma variação de zero a um, sendo que quanto mais próximo de um, maior é a desigualdade. Na pesquisa publicada na quinta-feira, o indicador que mede o rendimento real das famílias com o trabalho ficou em 0,498. Com a correção, fica em 0,495. O novo número mostra leve melhora em relação ao resultado de 2012, que havia sido de 0,496. O novo dado também é o mais baixo já apontado pelo instituto. Contudo, como o avanço foi de apenas 0,001 ponto porcentual, economistas mantêm a avaliação de que a melhora na distribuição de riqueza parou. “O erro não muda a tendência, que continua sendo de estagnação”, afirma o economista Marcos Lisboa, diretor e vice-presidente do Insper, e também um dos maiores especialistas em desigualdade no país.

O erro – Segundo o IBGE, os erros ocorreram no processo de expansão da amostra de domicílios, o que provocou alterações nos resultados de sete estados: Ceará, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. O Instituto alega que calculou errado os pesos de cada uma das regiões, o que impacta, sobretudo o índice que mede a desigualdade. “No processo de expansão da amostra da Pnad 2013, foi utilizada, equivocadamente, a projeção de população referente a todas as áreas metropolitanas em vez da projeção de população da Região Metropolitana na qual está inserida a capital”, informou o Instituto.

Além do índice de Gini, o avanço da renda também foi impactado. A renda média real dos brasileiros passou de 1 681 reais para 1.651 reais. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego se manteve a mesma, em 6,5% em 2013. O erro impactou o índice de desigualdade, segundo o IBGE, porque a renda é a variável mais suscetível aos pesos das regiões calculadas, pois ela é maior nas regiões metropolitanas. Já a taxa de analfabetismo também foi corrigida e caiu de 8,7% para 8,5% (antes, recuava para 8,3%).

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O que diz o governo – A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, ao qual o órgão está subordinado, foi questionada por jornalistas sobre o erro na Pnad. Segundo ela, haverá sindicância. “O governo está chocado com esse erro cometido pelo IBGE. Como disse a presidente do IBGE, é um erro gravíssimo. O governo decidiu duas coisas: constituir uma comissão de especialistas para avaliar a consistência da Pnad, e criar uma sindicância para encontrar as razões dos erros e, eventualmente, as responsabilidades funcionais”, afirmou.

Como o IBGE percebeu – De acordo com Cimar Azeredo, diretor do IBGE, especialistas viram o número divulgado na quinta-feira e “estranharam” os dados das regiões metropolitanas. Azeredo afirmou que os técnicos voltaram à sede do Instituto nesta sexta-feira por volta das 7 horas da manhã para rever os dados. “O erro foi do IBGE. Foi um erro num pedaço de um sistema bastante complexo de projeção”, afirmou Roberto Luís Olinto Ramos, diretor de pesquisa do órgão.

Quem apontou a falha – Entre os que apontaram erros no levantamento estão o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Instituto Pereira Passos, que pertence à prefeitura do Rio de Janeiro e tinha como presidente Sergio Besserman, ex-presidente do IBGE, e a consultoria MCM, que foi recentemente adquirida pela LCA Consultores – consultoria econômica que pertencia ao atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

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Interferência política – Segundo Ramos, “não houve interferência política na correção”. “Os dados são apresentados sob embargo para jornalistas e também para o governo no mesmo dia e hora. Seria surreal divulgar dados, depois corrigi-los. Pois isso é desagradável. Se houvesse pressão, não seria para divulgar um erro”, afirma o diretor de pesquisa.

A presidente do órgão, Wasmália Bivar, afirmou o erro não foi intencional e não se deve à greve que o IBGE enfrentou desde abril, e que terminou em agosto. “Não adianta virem com a caça às bruxas. Se alguém fez alguma coisa com alguma intenção, vamos apurar para entender o que aconteceu. O IBGE errou. Desculpem pelo transtorno. Nos próximos dias vamos trabalhar para evitar que isso se repita e vamos tornar o que aconteceu o mais transparente possível”, disse.

Wasmália lamentou o ocorrido, mas disse que não pedirá exoneração. “Não estou confortável. Mas não quero ser uma comandante só nas horas boas. Amanhã estarei aqui. Vou seguir como capitã deste navio”, afirmou. Questionada se o órgão vai abrir uma investigação interna para apurar o erro, a presidente do IBGE disse que “o instituto não é um órgão policial”. “O que faremos é uma auditoria”, afirmou a técnica.