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‘Pintei até túmulos’, diz dono da Giuliana Flores

De origem humilde, Clóvis Souza prosperou ao criar uma das primeiras floriculturas on-line do país

Nasci em Duartina, no interior de São Paulo, e fui trazido pela minha mãe, Maria Rita, ainda recém-nascido para a capital, para morarmos na casa de uma tia. Tenho 49 anos, e não conheço o meu pai. Após anos de tentativas frustradas, desisti de conversar sobre o assunto com minha mãe, que se magoa. Mas desconfio que meu pai seja árabe, porque eu nasci para comprar e vender. E comecei cedo. Morávamos em um bairro da periferia, com uma família grande, de seis primos, e éramos simples. Não tínhamos dinheiro para comprar doces, como aqueles vendidos na rua aos domingos por um senhor de bicicleta. Cansado de passar vontade, comecei a pegar papelão e alumínio na rua para vender ao ferro-velho. E assim me virei até os 10 anos, quando a minha mãe se casou com o meu padrasto e fomos morar na Mooca, em frente ao Cemitério Quarta Parada. Nossa casa ficava em cima de uma floricultura. Passei a ganhar o meu dinheiro pintando túmulos. Até que minha mãe me arrumou um emprego na própria floricultura, e comecei a aprender o ofício de florista. Eu estudava de manhã e trabalhava à tarde. Com o meu primeiro salário, levei a minha mãe a uma pizzaria e comprei uma bicicleta. Aos 15 anos, nós nos mudamos e fomos morar em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, mas continuei na floricultura. Tivemos uma vida de ciganos, mudávamos muito. Mais de uma vez perdemos tudo por causa de enchentes. Outra vez fomos despejados. Um dia meu padrasto conseguiu que morássemos nos fundos de uma igreja, e ficamos lá dos meus 18 aos 22 anos. Foi nessa época que começou a virada na minha vida, totalmente por acaso.

Um dia um amigo que trabalhava em uma imobiliária pediu ajuda para colocar uma placa de “aluga-se” num imóvel. Respondi, sem pensar: “Seu Antônio, aluga essa casa para mim?”. E assim nasceu a Giuliana Flores, numa pequena área de 32 metros quadrados. O nome foi inspirado no da minha namorada na época. Vendi a minha Variant 1972 para levantar o negócio com um amigo, mas ele me surpreendeu com a notícia de que não podia ser meu sócio porque estava com o nome sujo. Naquela noite, triste, fui jantar na casa da Giuliana. A mãe dela, a Cléo, me disse: “Não conheço nada de flores, mas posso ser a sua sócia”. E completou: “Fique tranquilo. Se precisar, estarei aqui”. Esse apoio e essas palavras nortearam o meu sucesso. Apesar da dificuldade, a loja prosperou. E dois anos depois, aos 22 anos, consegui comprar uma casa para a minha mãe e tirá-la dos fundos da igreja. Foi o melhor dinheiro que ganhei em toda a minha vida.

O relacionamento com a Giuliana terminou, mas a sociedade com a Cléo continuou por seis anos, até o dia em que eu me casei com a minha primeira esposa. De comum acordo, comprei a parte dela, mas a ex-namorada não gostou, e montou uma floricultura em frente à minha. A concorrência me incentivou a inovar, e criei um catálogo de arranjos para distribuir pela cidade. Em 2000, descobri a internet e a oportunidade de expor muito mais que os seis arranjos que cabiam no folheto. Fechei parcerias com bancos e fiz promoções da empresa no verso das faturas de cartão de crédito. As vendas on-­line explodiram. Hoje, somos os vovozinhos do e-commerce, começamos quando não havia ninguém. Com a consolidação do negócio na internet, resolvi, há dois anos, fazer o movimento inverso e ir para a loja física. Montei 32 quiosques em shoppings, e eles vendem apenas a rosa encantada, flor importada que dura dois anos dentro de uma cúpula, como a do filme A Bela e a Fera. Eu não sonhei chegar até aqui nem ter tudo isso. Eu queria dar uma casa à minha mãe, e fui muito além. Quem iria imaginar que um jovem que estudou apenas até o 1º colegial conseguiria criar a maior floricultura on-­line do país? Hoje penso na minha filha Giovana, de 5 anos, e quero trabalhar muito mais para garantir seu futuro.

Depoimento dado a Alessandra Kianek

Publicado em VEJA de 4 de dezembro de 2019, edição nº 2663