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Petrobras posterga parte de salários e reduz produção de petróleo

As medidas, segundo a estatal, são necessárias para enfrentar "a maior crise do petróleo em 100 anos"; economia deve ser de até US$ 2 bi em 2020

Por Felipe Mendes - Atualizado em 1 abr 2020, 12h45 - Publicado em 1 abr 2020, 11h20

Nem o mais pessimista dos acionistas poderia prever tamanha depreciação no valor do barril de petróleo em tão pouco tempo. O barril da commodity, que chegou a estar cotado a mais de 70 dólares em janeiro, hoje beira os 25 dólares. A desvalorização do ativo para o período é acima de 60%. E tudo piorou com a guerra de preços protagonizada por Arábia Saudita e Rússia no último mês e com a queda na demanda mundial causada pela crise do novo coronavírus (Covid-19). Com o excedente de oferta no mercado, não restou outra alternativa à Petrobras senão reduzir custos de operação. Nesta quarta-feira, 1º, a estatal anunciou um corte em sua produção diária estipulado em 200.000 barris de petróleo por dia, além de reduzir seu capital de investimentos para este ano de 12 bilhões de dólares para 8,5 bilhões de dólares.

As medidas, segundo a estatal, são ações necessárias para garantir a sustentabilidade da companhia e mitigar os efeitos do que se caracteriza como “a pior crise da indústria do petróleo nos últimos 100 anos”. “O cenário atual é marcado por uma combinação inédita de queda abrupta do preço do petróleo, excedente de oferta no mercado e uma forte contração da demanda global por petróleo e combustíveis. Estas novas medidas envolvem redução da produção de petróleo, postergação de desembolso de caixa e redução de custos”, afirmou a empresa, em comunicado à imprensa.

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Com o corte elevado na produção, a companhia também anunciou medidas para economizar cerca de 700 milhões de reais em gastos com funcionários. Dentre as ações previstas estão a postergação do pagamento, entre 10% a 30%, da remuneração mensal de empregados com função gratificada (gerentes, coordenadores, consultores e supervisores); cancelamento dos processos de avanço de nível e promoção para empregados de cargos altos; corte de 50% no número de empregados em sobreaviso parcial nos próximos três meses e suspensão temporária de todos os treinamentos; mudança temporária de regimes de turno e de sobreaviso para regime administrativo de cerca de 3,2 mil empregados; e a redução temporária da jornada de trabalho, de 8 horas para 6 horas, de cerca de 21 mil empregados. A empresa espera, com o conjunto de ações anunciadas, chegar ao corte desejado de 2 bilhões de dólares em gastos operacionais em 2020.

Nesta terça-feira 31, a Petrobras informou que deu início ao processo de venda de sua participação remanescente, 10%, na Nova Transportadora do Sudeste (NTS). Segundo a companhia, a operação faz parte das etapas de desinvestimentos de ativos considerados não estratégicos e tem em vista à otimização de seu portfólio e à melhora de alocação de seu capital. A NTS é uma companhia de transporte de gás natural, com gasodutos localizados em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo – responsáveis por 50% do consumo de gás natural no país – e se conectam à rede de gasoduto Brasil-Bolívia. O fundo Nova Infraestrutura Fundo de Investimentos em Participações, gerido pela Brookfield Asset, com 82,35% de participação acionária, e a Itaúsa, com 7,65%, são os outros sócios da NTS.

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Na visão de especialistas, a depreciação do petróleo no cenário global pode atrasar o planejamento de desestatização da empresa, além de praticamente inviabilizar a exploração do pré-sal. “A Petrobras ficou com o programa de desinvestimentos muito comprometido. Os ativos se desvalorizam muito com a queda do petróleo. E já estamos falando de um segmento que não tem uma rentabilidade muito alta. Precisa ver como a Petrobras pretende encarar essa situação”, afirma David Zylbersztajn, professor da PUC Rio e ex-diretor da agência reguladora ANP. Novos cortes para mitigar os efeitos da depreciação da commodity mundo afora não são descartados.

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