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Passageiros deixam aviões e voltam aos ônibus

Pela primeira vez em dez anos do governo PT, o movimento de embarques e desembarques em voos domésticos caiu no primeiro semestre na comparação com o mesmo período do ano anterior

Por Da Redação - 5 ago 2013, 08h46

A enfermeira aposentada Adir Maria Ferronato planeja montar uma casa de repouso no município goiano de São João da Aliança, localizado na Chapada dos Veadeiros, a 150 quilômetros de Brasília. Das últimas vezes que deixou Porto Alegre (RS) para ir à capital do país, Adir teve de enfrentar um dia e meio de viagem de ônibus. Quando encontrava passagens de avião a um preço “mais acessível”, ela fazia o percurso em pouco mais de duas horas.

Neste ano, porém, a enfermeira passou muito mais vezes pelo terminal rodoviário de Brasília do que pelo aeroporto internacional Juscelino Kubitschek (JK). Na volta para a capital gaúcha, conseguiu economizar 1.125 reais. “Não vou jogar meu dinheiro suado ao vento”, explica.

Adir não é a única que teve de voltar a viajar de ônibus mesmo achando “uma maravilha” a economia de tempo que os aviões proporcionam. Pela primeira vez em dez anos do governo PT, o movimento de embarques e desembarques em voos domésticos caiu no primeiro semestre na comparação com o mesmo período do ano anterior.

De 2003 a 2012, o número de passageiros de voos domésticos cresceu consecutivamente, saltando de 29,363 milhões de pessoas para 84,231 milhões. Neste ano, ocorreu a primeira freada, com esse número baixando para 84,126 milhões de passageiros.

Os dados são da Infraero – responsável pela administração de 63 aeroportos – e das administradoras dos terminais privatizados (Brasília, Guarulhos e Viracopos). O critério utilizado soma embarques e desembarques e não faz diferenciação por CPF, o que impede dizer que cada passageiro é uma pessoa única.

Volta ao ônibus – Paralelamente aos dados da Infraero, números da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) mostram que o fluxo de viajantes rodoviários aumentou no primeiro trimestre do ano em relação a igual período de 2012, suspendendo uma tendência de queda de sete anos.

Na comparação dos três primeiros meses deste ano com o mesmo período do ano passado, o número de pessoas que viajaram entre os Estados de ônibus de longa distância, aqueles que não possuem catraca e não deixam viajar em pé, aumentou 2,58%, de 15,257 milhões para 15,652 milhões. Ao mesmo tempo, caiu 0,20% o número de passageiros de voos domésticos, de 41,983 milhões para 41,9 milhões. Também foi o primeiro recuo desde 2003.

A ANTT ainda não consolidou os dados do primeiro semestre. Paulo Porto, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati) – cujas associadas representam 85% da receita do setor -, diz que a projeção é de expansão ainda maior no segundo trimestre.

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Classe média – Os números indicam que houve, no mínimo, suspensão na migração dos passageiros que deixaram de viajar de ônibus para ir de avião. Nos últimos anos, a melhora do poder aquisitivo proporcionou à classe média brasileira acesso a produtos e serviços que antes não faziam parte de seus planos, como viajar de avião.

As companhias aéreas se enfrentaram para atrair esse cliente novo, usando como principal arma o preço dos bilhetes. A redução das passagens conseguiu fisgar a classe média emergente e atingiu consideravelmente o setor rodoviário, pois a concorrência é de mais de 60% nos roteiros interestaduais.

O cenário atual é bastante distinto. As empresas agora procuram melhorar a eficiência para diminuir custos, que subiram às alturas com a valorização de 10% da moeda americana no primeiro semestre.

Segundo Adalberto Febeliano, da Associação Brasileira das Empresas Aéreas, que representa quase a totalidade do setor, 70% dos custos das companhias são atrelados ao dólar, incluindo os combustíveis. A leitura do consultor técnico da associação é que houve uma “estabilidade” no movimento de passageiros. “Nada cresce para sempre o tempo todo”, afirma.

Ele diz que o “segredo” do sucesso das empresas era diminuir a oferta de assentos sem diminuir a demanda, mas claro que houve impacto desse processo no número de viajantes.

As companhias aéreas diminuíram os voos para aumentar a ocupação. Com menos frequência, os aviões passaram a decolar mais cheios.

Os dados da Infraero e das administradoras dos aeroportos privatizados também captaram esse movimento. No primeiro semestre, houve queda de 5,35% no número de pousos e decolagens de aeronaves, na contramão da expansão média de mais de 6% apurada de 2003 a 2012.

(com Estadão Conteúdo)

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