Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Para Jim O’Neill, África emerge enquanto BRICs perdem brilho

Autor do termo BRIC acredita que as oportunidades nos países do grupo, que inclui o Brasil, já não são tão atraentes; para ele.

Por Ana Clara Costa Atualizado em 18 mar 2021, 23h46 - Publicado em 30 ago 2013, 21h03

O economista britânico Jim O’Neill se aposentou de seu posto de vice-presidente da área de pesquisa do banco Goldman Sachs em maio deste ano. Desde então, tem aproveitado para descansar todo o tempo que não conseguiu ao longo dos últimos dez anos. Em 2001, foi O’Neill o autor de um estudo que cunhava os maiores países emergentes da década pelo acrônimo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Tornou-se, como ele mesmo diz, o ‘Mr. BRIC’.

A mesma euforia que contagiou as economias do grupo na década de 2000 também transformou a rotina de O’Neill, que não só é o “pai” do BRIC, como também uma das principais referências teóricas em temas ligados aos países emergentes. Sua aposentadoria, após mais de 30 anos de trabalho no mercado financeiro, ocorreu, simultaneamente, ao declínio da exuberância dos BRICs. No Brasil para palestrar em evento promovido pela BM&FBovespa, em Campos do Jordão, O’Neill falou com exlcusividade ao site de VEJA.

Para ele, se as oportunidades nos países do grupo já não são tão atraentes, a África se mostra um novo oásis – sobretudo países como Nigéria, Gana e Tanzânia. “Eles não querem depender da compra de commodities feita pela China. Eles querem se distanciar e diversificar. Assim, não serão penalizados como foi o Brasil”, diz. Confira trechos da entrevista.

Com os BRICs perdendo parte de seu brilho, o senhor já vinha traçando melhores perspectivas para outros emergentes, como México, Filipinas e Turquia. Quais países chamam sua atenção atualmente?

A África, particularmente, tem chamado muito minha atenção. Especialmente a Nigéria. Estive lá algumas vezes e fiquei impressionado com o dinamismo do setor privado. Eles querem, de fato, transformar. A economia do país está sendo liderada por pessoas que viveram fora e foram treinadas no Ocidente. Então elas não carregam aquele fardo histórico que aflige tantos países africanos. Tanzânia, Gana e Angola também têm surpreendido pelas oportunidades que oferecem ao setor privado.

Esse novo dinamismo africano é movido pelas commodities?

Não. E aí está a diferença. Eles não querem depender da compra de commodities feita pela China. Eles querem se distanciar. Assim, não serão penalizados como foi o Brasil. Há alguns meses, o presidente do banco central nigeriano escreveu um artigo controverso para o Financial Times intitulado ‘Nós não precisamos da China’. O ministro da Fazenda do país em seguida afirmou que vem aplicando sua política econômica considerando que o preço do petróleo vai cair. Ou seja, eles têm consciência que o boom de commodities não é eterno. São países pequenos que não querem viver na sombra chinesa.

A África do Sul será a maior beneficiada caso essa ascensão econômica se realize?

Em teoria, deveria ser. Mas não tenho muita confiança. A África do Sul se considera a porta de entrada do continente. Mas quando você menciona isso a algum nigeriano, ele simplesmente ri. O fato é que a África do Sul tem usado o mesmo expediente do Brasil, de usar o governo para estimular o crescimento. E isso é ruim. Já esses países menores dão sinais de que vão pular alguns estágios de desenvolvimento pelos quais os BRICs passaram, justamente pelo dinamismo de seu novo setor privado, que tem investido consideravelmente em produtividade agrícola.

É possível afirmar que essas novas potências poderão ser o motor do crescimento global no médio prazo?

Não. O motor é e continuará sendo a China. A economia chinesa criou um Brasil nos últimos dois anos. O país cresce 7,5% ao ano!

Continua após a publicidade

Mas esse crescimento é frustrante para muitos.

Sim, mas isso ocorre porque as pessoas estão acostumadas a ver a China crescer 10% ao ano. Esse porcentual virou uma rotina. E quando a festa acabou, todos ficaram frustrados, sobretudo os países que exportam commodities, como o Brasil. Essa nova China, mais voltada para o mercado interno, vai crescer menos. Mas ela continua sendo muito interessante para empresas como Procter & Gamble, Mercedes Benz, BMW, enfim, empresas que queiram o mercado chinês.

Os Estados Unidos vão se beneficiar da ‘nova’ China?

Sem dúvida, eles são os ‘vencedores’ desse cenário. Pois é o país com maior potencial de exportação de manufaturados para atender a demanda chinesa. Sobretudo agora que a economia americana dá sinais mais claros de recuperação.

O Brasil será o maior perdedor dessa ‘nova’ China que emerge?

Creio que sim, já que o ciclo de commodities tal como era antes dificilmente acontecerá de novo. Mas o que as pessoas não se lembram é que, lá em 2000, eu avisei que o Brasil e a Rússia só testariam sua força como BRIC quando o ciclo das commodities acabasse. E acabou.

A revista The Economist estima que a economia russa ultrapasse a do Brasil em 2014. Isso significa que a Rússia fez o dever de casa e o Brasil não?

Não. De forma alguma. Isso pode ocorrer apenas porque o real se desvalorizou mais que o rublo, que é a moeda russa.

Leia também:

Fed se tornou um grande hedge fund, diz Nobel da Economia

Continua após a publicidade

Publicidade