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“País vai dobrar área de trigo e virar exportador’’, diz chefe da Embrapa

Em entrevista, presidente da estatal defende a modernização da empresa pública e fala sobre independência política

Por Renan Monteiro Atualizado em 2 Maio 2022, 20h03 - Publicado em 2 Maio 2022, 13h43

Uma surpresa foi anunciada quanto ao agronegócio brasileiro, no primeiro trimestre deste ano. Um tradicional importador de trigo, em especial, da Argentina, o país exportou mais do que comprou no período. Com Rússia e Ucrânia em guerra, os dois líderes mundiais na produção e exportação de trigo, ao lado dos Estados Unidos, o preço internacional da commodity bateu recordes. Nesse cenário, a produção brasileira, aproveitando o real desvalorizado, era uma das mais baixas em preço, o que levou o país a exportar 2,2 milhões de toneladas, no primeiro trimestre.

Mas isso só foi possível porque um importante trabalho de produtividade e avanço tecnológico foi feito no campo no país, e que pode levar o Brasil a se tornar em uma década um consistente exportador da commodity, a única das principais que ainda traz uma balança comercial negativa. Em um contexto de economia de muitas incertezas e com setores patinando na retomada das atividades, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é “uma fonte de boas notícias’’, defende o seu atual presidente, Celso Moretti. O profissional de carreira nega demagogia e justifica porque o Brasil tem condições favoráveis para ‘’alimentar o mundo’’, em pouco tempo. E, para isso, conta com a ajuda da estatal, que completou 49 anos na terça-feira, 26.

Em entrevista a VEJA, o presidente da Embrapa falou das eleições em outubro; dos avanços recentes e da necessidade de investimento no agro; além da grande transformação do Brasil como país exportador de alimentos, nas últimas décadas. Para Moretti, a Embrapa não vive uma crise de identidade e a modernização da empresa pública é necessária. Garantir a independência do trigo é a bola da vez. E a rastreabilidade da cadeia produtiva, para evitar desmatamento, avança entre as commodities. Veja os principais trechos da entrevista:

Nessas décadas de trabalho da Embrapa, quais foram os avanços e resultados fundamentais no agro brasileiro?

Na década de 70, o Brasil era um importador de alimentos. Por incrível que pareça, chegamos a importar carne da Europa, leite dos EUA e feijão do México, por exemplo. Quando o Brasil toma a decisão de investir de forma muito consistente em eficiência, tecnologia e inovação, nós transformamos o país (a Embrapa foi fundada em 1973) em uma das maiores potências agroambientais do mundo. Hoje, produzimos o suficiente para alimentar 800 milhões de pessoas e preservar dois terços do território. Nesse processo de transformação radical, de um país que importava para um grande exportador, a ciência nos ajudou a avançar em três grandes frentes. A primeira foi a transformação do solo pobre do cerrado, área de aproximadamente 204 milhões de hectares, no coração do Brasil, em terra fértil. A segunda etapa foi a tropicalização de plantas e animais; por meio de melhoramento genético e do processo de adaptação, nós tropicalizamos a soja, originária da China, o pasto, originário do continente africano, o gado, de origem indiana e holandesa, entre outros exemplos. Já a terceira frente foi o desenvolvimento de uma plataforma de produção sustentável, com a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, com o plantio direto, e com a Fixação Biológica de Nitrogênio, processo de adaptação natural e essencial para o desenvolvimento de vegetais.

Dentre as commodities, o trigo é a bola da vez para garantir a independência do Brasil. Quais os avanços mais recentes?

O Brasil ainda é importador de trigo, sendo a única commodity que o país importa. Em 2021, o Brasil teve uma demanda de aproximadamente 12,7 milhões de toneladas de trigo e nós produzimos 7,7 milhões. Portanto, tivemos que importar 5 milhões de toneladas para atender a demanda do mercado interno. O trigo está no dia a dia do brasileiro, está no pão de sal, no biscoito, na massa e em diversos produtos que consumimos. Com a guerra na Ucrânia, um dos maiores produtores do mundo, o preço do trigo começou a subir no mercado internacional e já ultrapassou o aumento de 40%. Ao longo da última década, nesse trabalho de tropicalização, a Embrapa começou a tirar o trigo do sul do Brasil para o Cerrado, a partir de 2012. Rio Grande do Sul e Paraná hoje concentram 90% da produção nacional do trigo, com uma produtividade média de 2.500 kg por hectare. Começamos a ver que o trigo se desenvolve muito bem em Minas Gerais e Goiás, e inclusive no entorno do Distrito Federal, que tem 65% de seu território como área rural. No ano passado, um dos bons produtores da região, de Cristalina, em Goiás, bateu o recorde mundial de produção de trigo, com 9.630 kg/hectare. Com a tecnologia, nós mostramos para o mundo que podemos produzir trigo na região tropical, sem desmatar um milímetro quadrado de área verde. Só com o Cerrado nós conseguiremos dobrar a área de trigo do Brasil. Mais recentemente nós colhemos trigo em Roraima, uma região que está acima da Linha do Equador. Foi algo completamente inesperado. Nós colhemos trigo de excelente qualidade e conseguimos uma média de 3.000 kg por hectare. A média do Brasil é de 2.748 kg. Portanto, em uma década, o Brasil pode sair de importador para exportador de trigo.

Quais as outras regiões brasileiras com maior potencial de produção agrícola?

Hoje, a produção agrícola na região do Matopiba (região formada por áreas majoritariamente de Cerrado nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) já é uma realidade, com a produção de grãos. Há grandes produtores que estão colhendo soja e milho e nós levamos trigo para o Ceará, que também desempenhou bem. A área do Brasil é de 850 milhões de hectares – desse total, nós utilizamos 67 milhões de hectares (8,2%) para produzir grãos. Além disso, 90 milhões de hectares de terra são pastagens degradadas, áreas abertas e que não foram cuidadas adequadamente, localizadas na região Nordeste e Sudeste, mais próximas do centro do Brasil. Com a tecnologia que nós já temos, podemos converter parte dessa área degradada, de 30 milhões de hectares, em agricultura. Então, quando dizemos que o Brasil vai alimentar o mundo, não é narrativa para ficar bonito na foto, é porque realmente nós temos tecnologia, clima, solo, água, a Embrapa e seus parceiros. Juntos, podemos dobrar a produção de alimentos, fibras e bioenergia. E, para dobrar a produção agrícola, nós não precisamos cortar uma árvore sequer do bioma amazônico. 

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Para o Brasil atingir essa grande meta de “alimentar o mundo”, certamente será necessário um aporte maior de investimento em pesquisa na Embrapa e na agricultura, como um todo. Como o senhor avalia essa necessidade de mais investimento?

A questão do crédito, seja público ou privado, é sempre uma mola propulsora. O novo Plano Safra trará um conjunto de ações estruturadas para financiar a safra brasileira de alimentos em 2022 e 2023. E, para dobrarmos a área de trigo, vamos precisar de crédito para produzir sementes e financiar o produtor. O maior banco financiador do agro é o Banco do Brasil, mas existem bancos privados que também financiam o agro. E, ainda sobre a questão do trigo, nós vamos precisar de crédito para que os moinhos localizados na região sul do Brasil e próximos ao litoral sejam transportados para a região Centro-Oeste do Brasil. E, obviamente, para outras áreas da agricultura e da pecuária, nós precisamos de crédito. Mais investimentos e mais recursos para financiar a produção é sempre muito importante. 

O trabalho pela independência nos fertilizantes é outra prioridade da Embrapa neste momento, com a Rússia tendo dificuldades para exportar sua produção. Quais os resultados mais recentes?

Vivemos quase uma tempestade perfeita em relação aos fertilizantes. Nesses últimos 20 anos, o Brasil aumentou em 300% a demanda desses insumos, pois o agro cresceu de forma muito forte. No entanto, a produção de fertilizantes, que já era baixa, foi reduzida em 30%. No início dos anos 2000, o Brasil decidiu que importar fertilizantes era mais barato do que produzir. Ao longo dessas cinco décadas de Embrapa, temos trabalhado para desenvolver tecnologias para reduzir o problema da dependência externa desses insumos agrícolas. No ano passado, utilizamos na agricultura brasileira 44 milhões de toneladas de fertilizantes. Desse total, 85% foram importados. Isso obviamente é uma fragilidade, principalmente em um momento como esse na Ucrânia. A Rússia, por exemplo, é responsável por 25% do potássio que compramos; Rússia e Belarus juntas, 50% do potássio importado pelo Brasil. Então precisamos de ações de curto, médio e longo prazo para buscar mitigar essa dependência. A nossa ideia é capacitar os profissionais, produtores e estudantes em boas práticas de uso de fertilizantes e insumos para a nutrição de plantas. Nesta próxima safra, almejamos aumentar em 10% a eficiência de uso de nutrientes. No caso do potássio, por exemplo, a nossa estimativa é aumentar em 10% a eficiência; e, no caso do nitrogênio, aumentar em 20%. Em resumo, nesta próxima safra, o nosso objetivo é uma economia de até 2 bilhões de dólares pelo aumento da eficiência no uso de nutrientes.

Como o senhor avalia o monitoramento da cadeia produtiva do agro brasileiro? A JBS, por exemplo, tem uma plataforma que utiliza a tecnologia de Blockchain para rastrear toda a cadeia produtiva da carne e adequar às políticas ambientais.

Essa questão da rastreabilidade é muito importante, principalmente quando estamos falando de cadeias produtivas exportadoras no Brasil. A ferramenta do blockchain é realmente muito poderosa para fazer esse rastreamento e há outros métodos, como identificação por radiofrequência, onde se colocam etiquetas de radiofrequência e você consegue rastrear os lotes. O próprio uso de código de barras é outro exemplo. O fato é que isso é muito importante para as cadeias exportadoras. Há três anos, uma rede de supermercados na Europa parou de comprar carnes do Brasil porque os seus consumidores estavam preocupados que eles estivessem consumindo carne oriunda de desmatamento. Eles alegavam que o Brasil não conseguia ter essa rastreabilidade da produção. O que não é verdade. Existem empresas especializadas em fazer esse trabalho de rastreamento, mostrando, por exemplo, todo o caminho do animal para o abatedouro, passando pelo frigorífico, pelo transporte marítimo, até chegar ao supermercado europeu. Nós temos tecnologia e capacidade. Essa é a resposta do Brasil. Nós temos um conjunto de práticas que demonstram que o agro brasileiro está completamente imerso na agenda ESG (responsabilidades ambiental, social e governança). Nós temos, por exemplo, produtores de maçã no Rio Grande do Sul e de melão no Rio Grande do Norte que exportam para Europa e EUA porque eles têm um rigoroso processo de produção que é auditado por uma terceira parte. E o rastreamento nós fazemos há mais de 20 anos no Brasil, que é o Programa de Produção Integrada de Frutas e Hortaliças do Brasil. Se nós não tivéssemos essa tecnologia de rastreabilidade e segurança, nós não conseguiríamos exportar maçã, laranja, melão, mamão etc. Na parte de frutas e hortaliças é uma questão superada, e agora estamos avançando muito fortemente na parte de commodity, de carne e de grãos.

O que o senhor responde sobre as críticas de um excesso de controle burocrático e poucas condições de pesquisa na Embrapa? O que foi resumido como “crise de identidade”.

Uma eventual crise de identidade da Embrapa, na nossa visão, não corresponde à realidade. Nós estamos fazendo um trabalho muito bem organizado, com uma lógica muito bem encadeada. Nós contratamos uma consultoria, a Falconi. Estamos modernizando a Embrapa, que é uma empresa estatal, que tem um papel social muito forte a cumprir, principalmente junto aos pequenos produtores. É uma empresa dependente do Tesouro Nacional. E, para reduzir essa dependência, estamos buscando proximidade com o setor privado. Isso foi confundido com uma crise de identidade. A Embrapa tem mais de 200 contratos com o setor privado hoje. Aproximadamente 65% dos nossos projetos são financiados com recursos públicos e 35% com recursos privados. Agora, o próximo salto é possibilitar um novo modelo de negócio, em que a Embrapa possa ser sócia de empresas privadas. Nós vamos continuar sendo uma empresa pública, uma empresa do Estado brasileiro, mas vamos abrir a possibilidade de nos tornarmos sócios do setor privado e ter mais recursos para investir em pesquisa. Além disso, os ganhos que serão auferidos poderão financiar projetos sociais, que vão atender os pequenos produtores. Para que tudo isso aconteça, precisamos reorganizar a casa. É muito importante observar que as instituições públicas, ao longo da história, não são fechadas, pois ninguém vem e coloca um cadeado. Porém, elas são deixadas para morrer. Não vou citar, mas existem vários exemplos no Brasil. Para que isso não aconteça com a Embrapa, nós estamos modernizando a empresa. 

Existe algum receio de que essa perspectiva e o papel que hoje a Embrapa desempenha possa mudar de acordo com o resultado eleitoral de outubro? 

Creio que não. A Embrapa, ao longo de cinco décadas de grandes serviços prestados à agricultura, se manteve em uma linha muito clara de seguir provendo soluções para os problemas do agro brasileiro. É isso que temos feito e é isso que, independentemente de qualquer resultado eleitoral, nós vamos seguir. Somos uma instituição quase que suprapartidária, do Estado brasileiro. Nós conseguimos a simpatia de todos os matizes políticos e ideológicos que existem. E, mais do que isso, conseguimos, ao longo dessas décadas, blindar a Embrapa de interferência políticas. Eu sou um profissional de carreira da empresa, tenho 28 anos de instituição e não tenho padrinho político. Cheguei à presidência da Embrapa pela competência. Não vejo a Embrapa mudando a sua missão e saindo do seu caminho.

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