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Os velhos fantasmas da nova Europa

Para Mark Mazower, o ressentimento por erros do passado ofusca qualquer estimativa séria sobre o futuro do continente

Por Da Redação 1 jan 2015, 13h36

O passado perseguiu a Europa em 2014. Quando o ano começou, o centenário do início da Primeira Guerra Mundial atraiu muita energia comemorativa. Mas, com o passar do tempo, apareceram paralelos perturbadores – não com 1914, mas com alguns dos aspectos mais nefastos do período entreguerras.

Da Escócia à Catalunha, passando pelas fronteiras da Ucrânia, inflamou-se o nacionalismo, enquanto a economia europeia estagnou – refém da fobia alemã à inflação, que remonta ainda a 1923. E, com o passar dos meses, tornou-se aparente um novo cabo de guerra geopolítico entre os dois gigantes europeus do início do século XX, Alemanha e Rússia, enquanto a amnésica elite política parecia tropeçar de um lado a outro.

Para quem se lembra de Danzig e dos Sudetos – as eternas alegações e contra-alegações de nacionalidade que desencadearam a Segunda Guerra Mundial nas fronteiras da Europa Oriental – o revanchismo do presidente russo Vladimir Putin na região do Donbass, no leste da Ucrânia, em 2014, parece perturbadoramente familiar. A sua retórica de humilhação e cercamento, o discurso instrumental dos direitos das minorias e o uso feito pelo Kremlin de simpatizantes locais, com todas as incertezas que acompanham a dependência de tais atores – tudo isto é reminiscente de nada menos do que as políticas de insubordinação da própria Alemanha do período entreguerras.

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O nacionalismo não está confinado à Europa Oriental. O referendo da independência na Escócia, em setembro, ameaçou dividir o Reino Unido. No mesmo mês, cerca de dois milhões de catalães pró-independência marcharam por Barcelona, no que pode ter sido a maior manifestação já vista na Europa. Pergunte à maioria dos catalães sobre o que a independência irá trazer, além da libertação da Espanha, e você não receberá uma longa resposta: o ressentimento por erros do passado ofusca qualquer estimativa séria sobre o futuro.

Mas talvez a mais pura regressão à ideologia nacionalista do período entreguerras esteja ocorrendo pouco além das fronteiras da Europa – em Israel, de todos os lugares. Lá, o governo do Primeiro Ministro Binyamin Netanyahu propôs uma lei consagrando a primazia coletiva dos judeus do país – uma legislação que destrói em forma e espírito o pouco que resta do compromisso fundador de Israel com a igualdade perante a lei. Pode haver uma demonstração mais triste da ardileza da História?

O passado da Europa esteve igualmente presente no campo econômico em 2014. Graças às políticas de austeridade da União Europeia, a zona do euro enfrenta a perspectiva de uma era de estagnação ao estilo japonês, e crônicas taxas elevadas de desemprego no sul do continente.

A ironia é que as preocupações da Alemanha com a estabilidade dos preços, que estão na base da adoção das medidas de austeridade na União Europeia, são totalmente descabidas: a inflação alemã poderia ser muito menor. Com o desemprego alemão, também, atingindo recordes de baixa, enquanto o desemprego atinge recordes de alta na Itália e se mantém em níveis obscenos na Grécia e na Espanha, o que emergiu é uma Europa dualista, com o governo da chanceler alemã Angela Merkel no comando da situação.

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Por enquanto, os países periféricos calculam que eventuais benefícios a serem ganhos por permanecerem dentro da zona do euro irão compensar o atual sofrimento causado pela austeridade. Por sua vez, a Alemanha impõe a austeridade como o preço pela sua participação na moeda única. É sobre esta base instável que repousa a hegemonia na Europa.

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Embora a despolitização e a apatia tenham refreado sérios desafios à dominância alemã, tais desafios estão emergindo. Formuladores de políticas alemães descontaram a ascensão do extremismo em países relativamente pequenos como Grécia e Hungria, mas é de se perguntar como irão reagir se a Frente Nacional de Marine Le Pen obtiver resultados espetaculares nas próximas eleições regionais da França, no ano que vem, ou na eleição presidencial de 2017.

E, é claro, o grande mistério é a própria Alemanha, aparentemente reerguida pela História por sua própria flutuação econômica. Serão os políticos alemães capazes de abandonar a economia ao estilo de Weimar antes de serem atingidos por uma desintegração política ao estilo de Weimar? E, mesmo que consigam isto, eventualmente, terá a Alemanha perdido boa parte da Europa neste meio tempo?

Isto nos leva aos sinais nascentes, mas inconfundíveis de uma rixa russo-germânica. Se a rivalidade franco-germânica moldou a era entre 1870 e 1920, foi o conflito com a Rússia que definiu os próximos 70 anos. O conflito foi esquecido por duas décadas, depois do fim da Guerra Fria, porque os problemas internos da Rússia e o desejo da Alemanha de provar sua inofensividade pós-unificação impediram os dois poderes de usarem da força.

Agora que Putin fez do uso da força a sua principal modalidade de diplomacia – não apenas na Ucrânia e nos países Bálticos, mas também nos Bálcãs e no Mar do Norte – caiu sobre a Alemanha a responsabilidade de formular a resposta europeia. A motivação, hoje, não é defender a etnia alemã no estrangeiro – a expulsão de milhares deles, nos anos 1940, acabou com essa preocupação em particular – mas o desejo mais louvável de preservar os valores de uma União Europeia democrática contra o novo autoritarismo do Leste.

Se a Alemanha poderá continuar a desempenhar este papel, no entanto, dependerá de que tipo de União Europeia irá emergir nos próximos anos. Em particular, se a Europa deseja triunfar com a Alemanha no comando, alemães e todos os demais deverão romper mais decisivamente com o passado do que conseguiram fazer até agora.

Mark Mazower é professor de História na Universidade de Columbia. O seu livro mais recente é ‘Governing the World: The History of an Idea‘.

© Project Syndicate, 2014

(Tradução: Roseli Honório)

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