Os três fatores que ajudam a reduzir a cotação do dólar no Brasil
Juros elevados, alta do petróleo e desempenho das exportações favorecem o real mesmo diante das incertezas no cenário externo e doméstico
O dólar atravessa um período de relativa estabilidade no Brasil mesmo diante de fatores que poderiam pressionar a moeda americana, como as tensões comerciais, a guerra no Oriente Médio e as incertezas em torno das eleições. Em julho, a moeda encerrou o mês cotada a 5,0686 reais, com queda de 1,82%.
Uma análise da Hedgepoint Global Markets; consultoria especializada em gestão de riscos e inteligência de mercado nos setores de commodities e energia; aponta três fatores que ajudam a explicar o comportamento recente do câmbio: a diferença entre os juros brasileiros e americanos, a valorização do petróleo e o desempenho do comércio exterior brasileiro.
Juros altos tornam o Brasil mais atraente
O primeiro fator está na diferença entre as taxas de juros do Brasil e dos Estados Unidos. Com a Selic em 14% ao ano e os juros americanos entre 3,50% e 3,75%, a distância entre as taxas está em cerca de 10,5 pontos percentuais.
Esse diferencial torna os ativos brasileiros mais atraentes para investidores que buscam retornos maiores. Quando recursos estrangeiros entram no país para aproveitar as taxas mais elevadas, aumenta também a demanda por reais, o que favorece a valorização da moeda brasileira diante do dólar.
A Hedgepoint considera esse diferencial uma das principais forças que têm favorecido o real. A situação, no entanto, pode mudar à medida que os bancos centrais brasileiro e americano alterarem suas taxas de juros.
Alta do petróleo favorece as exportações brasileiras
O segundo fator é a valorização do petróleo. Embora a alta da commodity possa pressionar a inflação, o movimento também beneficia o Brasil por outro caminho. Como o país exporta mais energia do que importa, preços mais elevados aumentam o valor das vendas brasileiras ao exterior.
É o que os economistas chamam de melhora dos termos de troca: os produtos vendidos pelo Brasil ao exterior ficam relativamente mais valorizados. Esse movimento favorece a entrada de dólares no país e contribui para a valorização do real, segundo a Hedgepoint.
Exportações cresceram apesar da queda das vendas aos EUA
O terceiro fator está no comércio exterior. As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 13% no primeiro semestre, mas a retração foi compensada pelo avanço das vendas para outros mercados.
No período, as exportações totais brasileiras cresceram 11,5%. As vendas para a China avançaram 21,9%, enquanto as destinadas à União Europeia aumentaram 12,8%, de acordo com os dados reunidos pela Hedgepoint. Em julho, o superávit comercial brasileiro chegou a 6,54 bilhões de dólares, alta de 19,4%.
A diversificação dos destinos ajudou, portanto, a preservar o fluxo de dólares proveniente das exportações mesmo com a redução das vendas para o mercado americano.
O cenário favorável ao real, porém, pode mudar nos próximos meses. A Hedgepoint aponta as decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos e o avanço do calendário eleitoral brasileiro entre os principais fatores capazes de aumentar a volatilidade do câmbio.
Uma eventual redução da diferença entre as taxas de juros dos dois países diminuiria parte do incentivo à entrada de capital estrangeiro. Ao mesmo tempo, as eleições devem ampliar a atenção dos investidores sobre a trajetória das contas públicas. Segundo a consultoria, o mercado já considera uma depreciação de aproximadamente 2,5% do real até dezembro.






