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Os riscos que a China oferece para a economia mundial

Analistas ouvidos por Veja.com concordam que existe um exagero sobre os riscos de estouro de uma bolha no mercado de imóveis

Parte do temor diminuiu depois que a China decidiu flexibilizar o câmbio

Nos últimos meses, o consenso geralmente otimista sobre a China tem pendido para o lado contrário. Analistas começaram a prever possíveis turbulências, frente às possibilidades de um estouro da bolha imobiliária e ao medo dos efeitos globais de um provável superaquecimento chinês. Se os piores cenários se confirmarem, quais são os riscos reais para a economia mundial?

Parte desse temor diminuiu depois que a China decidiu flexibilizar o câmbio. Para os Estados Unidos e Europa, os efeitos positivos vão recair sobre o aumento das vendas ao mercado internacional.

Mas ainda há o temor com a rápida expansão do setor imobiliário chinês que, nos últimos meses, passou a refletir o avanço galopante dos preços dos imóveis, principalmente nas cidades mais desenvolvidas como Xangai e a capital Pequim. Somente em abril, os preços subiram 12,8%, corroborando com o temor de que uma bolha estoure a qualquer momento.

Enquanto isso, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chinês, empurrado por um pacote de estímulos do governo e pela aumento do crédito, põe em alerta os mais pessimistas, que temem por um colapso gerado pelo superaquecimento da economia. O PIB registrou um crescimento anual de 11,9% no primeiro trimestre de 2010, superando as expectativas. Analistas prevêem um crescimento entre 9,5% e 11% para o ano, acima da meta oficial do governo de 8%.

As possibilidades do estouro de uma bolha no mercado imobiliário e da grande expansão de créditos não recuperáveis fez com que o governo chinês implementasse nas últimas semanas algumas medidas restritivas para arrefecer o crescimento. São elas: aumento do compulsório, dos juros sobre hipotecas, dos juros de títulos do governo, anúncio de limites à concessão de crédito e outras aplicadas diretamente no setor imobiliário. No entanto, alguns analistas consideraram o aperto iniciado pelo governo chinês moderado, por não incluir o aumento da taxa de juros.

Especulação imobiliária – Analistas ouvidos por VEJA.com concordaram que existe um exagero sobre os riscos de estouro de uma bolha imobiliária. “Existe uma bolha sobre a bolha chinesa”, brinca o especialista em China, Dani Nedal, da Strategus Consultoria. “O risco é limitado porque os chineses não tem um grande volume de dívidas em hipotecas. Eles têm muita poupança, o que reduz o risco de calote”, explica.

Além disso, há uma perspectiva razoável de que essa bolha esvazie gradualmente por conta das medidas restritivas de crédito tomadas tanto pelo governo nacional como pelos locais, e pelo incentivo à construção de residências populares, que configuram uma oferta adicional de habitação.

Na visão de James Wright, diretor do MBA executivo internacional da Fundação Instituto de Administração, caso se inicie uma crise por conta da especulação imobiliária, o governo poderia gerenciá-la facilmente, já que tem todos os bancos e as empresas estatais na mão. “Os bancos chineses são lastreados pelo governo, uma eventual bolha não se espalhará de maneira tão significativa”, esclarece

Desaceleração – Como resultado do aperto monetário e de crédito realizado pelo governo, deve-se esperar por uma desaceleração da economia chinesa nos próximos trimestres, marcada por redução da participação dos investimentos. Por conta disso, como a economia global – em especial a brasileira – está muito exposta à China, e o crescimento europeu será lento a médio prazo, o momento é de incertezas.

Os mais pessimistas defendem que uma desaceleração, mesmo que pequena, na economia chinesa vai comprometer as exportações, principalmente de commodities metálicas. O Brasil, sobretudo, sofreria esse impacto, já que um dos principais produtos da pauta de exportação para a China é o minério de ferro.

No entanto, a perda maior seria em outra esfera. “O impacto no mercado financeiro seria muito grande porque os mercados tendem a exagerar os efeitos reais, principalmente quando se trata de China”, explica Nedal. De acordo com o especialista, pode haver uma perda grande em valores de empresas fabricantes de produtos exportados para a China, como commodities.