Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.

Os estragos causados pelo dólar

Para o economista Barry Eichengreen, o banco central americano deveria ter levado em conta o impacto de suas políticas sobre as economias emergentes

Por Barry Eichengreen - 15 fev 2014, 13h02

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) está sendo amplamente culpado pelo recente surto de volatilidade nos mercados emergentes. Mas será o Fed um bode expiatório conveniente?

É mais fácil culpar o Fed pelos atuais problemas econômicos globais do que culpar a desaceleração secular do crescimento da China, fato que reflete os esforços louváveis das autoridades chinesas para reequilibrar a sua economia. De igual modo, embora as reformas econômicas lançadas pelo primeiro ministro do Japão, Shinzo Abe, por meio da depreciação do iene, dificultem a definição de políticas aos países vizinhos, elas constituem um esforço notável para pôr um fim à deflação. Então, mais uma vez, é mais fácil responsabilizar o Fed.

Eichengreen: ‘é mais fácil para os emergentes culparem o Fed’

Publicidade

E, para as economias emergentes afetadas, é muito mais fácil culpar a redução dos estímulos bilionários injetados mensalmente na economia pelo Fed (o afrouxamento quantitativo, ou quantitative easing) pela crise atual do que suas próprias falhas em avançar em reformas econômicas.

Ainda assim, o Fed não deve ser absolvido de toda a culpa. A perspectiva de aumento das taxas de juro nos Estados Unidos enfraquece o incentivo dos investidores à injeção de capital nas economias emergentes, de forma indiscriminada. Embora possa haver muitos fatores econômicos capazes de perturbar os mercados emergentes, a redução gradual dos estímulos por parte do Fed foi, certamente, um dos principais.

Mais em Project Syndicate:

Martin Feldstein: O futuro do crescimento americano

Publicidade

Harold James: A História contra a Europa

Sri Mulyani Indrawati: A economia mundial – agora sem esteroides

Michael Heise: Mercados emergentes, moedas decadentes

Kurt Bock: A Europa pode ousar inovar

Publicidade

Garrick Hileman: Na onda dos bitcoins

É surpreendente, portanto, que o Fed não tenha feito nenhum esforço para levar em conta o impacto das suas políticas em economias emergentes – ou o “efeito colateral” dos recentes acontecimentos nos mercados emergentes para os EUA. Tais países compreendem mais de um terço do PIB mundial. Eles também contribuíram com mais de um terço do crescimento global nos últimos anos. Por isso, o que acontece em mercados emergentes não se restringe aos mesmos. Cada vez mais, seus efeitos podem atingir os Estados Unidos também.

Não obstante, autoridades dentro do Fed, ao comentar sobre suas motivações para a manutenção gradual da redução dos estímulos, nada disseram sobre o impacto que essa medida teria sobre os mercados emergentes. Não foi dado nenhum indicativo de estarem cientes de que a política monetária dos EUA pudesse promover problemas do outro lado do globo.

O silêncio se torna ainda mais notório quando se leva em conta dois fatos recentes em Washington. Primeiro, o Congresso dos Estados Unidos, como parte do recente acordo de orçamento público, recusou-se a autorizar um aumento na subscrição de quotas americanas para o Fundo Monetário Internacional (FMI). O compromisso financeiro foi essencialmente simbólico, mas fazia parte de um pacto mais amplo obtido durante o encontro do G-20 em Seul para regularizar os recursos do FMI e aumentar a representação das economias emergentes como credores do Fundo.

Publicidade

Esta falha reabre velhas feridas e levanta questões sobre a legitimidade de uma instituição que, ao que consta, é dominada por um punhado de países avançados. Os responsáveis pelos mercados emergentes têm sido cada vez mais relutantes em recorrer ao FMI para aconselhamento e assistência, comprometendo sua capacidade de desempenhar um papel global eficaz.

Outra ocorrência foi a decisão tomada pelo Fed, o Banco Central Europeu (BCE) e os bancos centrais do Canadá, Reino Unido, Suíça e Japão de tornar permanente os acordos cambiais e linhas de swap em dólar, praticados durante a crise financeira. Sob esse regime, o Fed prontifica-se a fornecer dólares para esse número de bancos centrais estrangeiros protegidos – um reconhecimento pelo papel central desempenhado pelo dólar no sistema financeiro internacional. Visto que os bancos internacionais, onde quer que estejam localizados, tendem a tomar dólares emprestados, as modalidades de swap permitem que os bancos centrais estrangeiros emprestem dinheiro aos seus bancos locais em tempos de emergência.

Somando esses três eventos – a redução gradual dos estímulos, a reforma do FMI e a concretização dos contratos de swap de dólar – o resultado é que os Estados Unidos estão tomando para si, novamente, a função de financiador de última instância internacional. Simplificando, o Fed é a única fonte de liquidez de emergência, em dólar, que ainda está de pé.

Mas os EUA escolheram fornecer dólares para poucos. E em suas instruções de políticas e ações, se recusou a reconhecer responsabilidade mais ampla, ou seja, a de garantir a estabilidade econômica mundial.

Publicidade

Então, o que o Fed deveria fazer de diferente? Primeiramente, deve negociar imediatamente linhas permanentes de swap em dólar com países como a Coreia do Sul, Chile, México, Índia e Brasil.

Em segundo lugar, cabe ao Fed ajustar a retórica e, se necessário, suas políticas para refletir o fato de que suas ações afetam desproporcionalmente outros países, com repercussões na economia dos EUA. Isso significa que o Fed deve diminuir o ritmo da redução gradual dos estímulos? É possível que sim.

O Fed pode hesitar em estender linhas de swap adicional, porque, ao fazer isso, poderia arriscar-se a perdas em moeda estrangeira. Do mesmo modo, teme criar desconforto com países os quais não recebem tais meios. Além disso, o Fed teme receber críticas do Congresso por ultrapassar os limites de sua incumbência, caso seu discurso reconheça como globais os efeitos de suas políticas.

Se os legisladores norte-americanos estão preocupados com estas questões, a única opção é concordar com aumentos de quota dos Estados Unidos para o FMI, permitindo assim que a responsabilidade pela estabilidade financeira internacional migre para onde ela pertence: as mãos de uma organização internacional legítima – e não o Fed.

Publicidade

Barry Eichengreen é professor de Economia e Ciências Políticas da Universidade da Califórnia, em Berkeley

(Tradução: Roseli Honório)

​© Project Syndicate, 2014

Publicidade