Onde o planejamento vira desenvolvimento: Curitiba lidera o Sul entre as grandes cidades
Com economia diversificada, ambiente favorável aos negócios e investimentos contínuos em infraestrutura, a capital paranaense alcança a liderança regional
Poucas capitais brasileiras combinam um parque industrial robusto, um setor de serviços diversificado e uma tradição de planejamento urbano construída ao longo de décadas. É esse conjunto de forças que ajuda a explicar a liderança de Curitiba entre as cidades de grande porte da Região Sul no ranking da Austin Rating em parceria com VEJA NEGÓCIOS. O desempenho é sustentado sobretudo pela economia. Entre as grandes cidades do Sul, Curitiba aparece em primeiro lugar tanto em indicadores econômicos quanto em empresas e negócios. Para o prefeito Eduardo Pimentel (PSD), a liderança não nasce de uma medida isolada, mas de escolhas acumuladas. “É uma sequência de boas gestões do município e de escolhas certas”, afirma Pimentel. Entre os fatores que ajudam a atrair investimentos, ele destaca a previsibilidade da cidade, a segurança jurídica e a aplicação de recursos em infraestrutura.
Na gestão atual, essa agenda aparece em iniciativas concretas. O ISS sobre serviços de tecnologia foi reduzido de 5% para 2%, em uma tentativa de estimular startups e empresas ligadas ao Vale do Pinhão, ecossistema de inovação, tecnologia e empreendedorismo de Curitiba. O número de alvarás de baixo risco liberados automaticamente dobrou, de 600 para 1 200. A cidade mantém 3 bilhões de reais em obras, incluindo 350 milhões de reais em drenagem para reduzir riscos de alagamento.
A presença de grandes companhias dá densidade a esse ambiente, e a trajetória de algumas delas se confunde com a do próprio município. A Volvo chegou a Curitiba em 1977, no período de formação da Cidade Industrial, e produziu ali seu primeiro veículo, um chassi de ônibus, em 1979. Hoje, sua fábrica é uma das mais modernas do grupo no mundo e reúne, no mesmo complexo, a produção de caminhões, ônibus e motores que abastecem mercados no Brasil e países vizinhos. Segundo Alfredo Santana, diretor jurídico e de relações institucionais da Volvo na América Latina, a operação curitibana tem peso estratégico no grupo. Foi ali que se projetou, no Brasil, o caminhão semipesado VM, cujo modelo atual, o VM 290, foi o mais vendido do segmento no país em 2025. “Hoje nós somos o principal hub de engenharia e desenvolvimento tecnológico do grupo Volvo no mundo”, diz o executivo. Os 2,5 bilhões de reais que a marca injetará de 2026 a 2028, o maior aporte de sua história no Brasil, têm parte relevante destinada ao parque curitibano.
A base de universidades e escolas técnicas é apontada por Santana como uma vantagem competitiva. “Nós temos um hub muito importante de universidades, de formação de engenheiros e técnicos”, diz. Esse ecossistema também ajudou a cidade a protagonizar, décadas atrás, uma inovação urbana que se tornou referência internacional: o BRT nasceu de uma parceria entre a Volvo e a gestão do então prefeito Jaime Lerner. Da fábrica local saíram, no início dos anos 1990, os primeiros ônibus biarticulados produzidos em série no mundo.
Entre as grandes cidades do Sul, Curitiba lidera em qualidade de vida, habitação e desenvolvimento municipal, além de ficar em segundo no eixo digital. O verde é outra força: a rede de parques públicos, além de propiciar lazer, foi planejada para conter a água da chuva. Já o programa de revitalização do centro, que prevê 163 milhões de reais até 2032 para o retrofit de prédios, rendeu recentemente à cidade o prêmio de a mais inteligente da América Latina, o Latam Smart City Awards 2026. Em Curitiba, planejamento não é apenas uma política pública, mas um legado que atravessa gerações e continua desenhando o futuro da cidade.
Publicado em VEJA, julho de 2026, edição VEJA Negócios nº 28







