Onde investir em 2026? O que pode virar o jogo do mercado no ano
Das eleições no Brasil e nos EUA, passando pela troca de comando no Fed e pela queda da Selic, o mercado avalia as possíveis perdas e ganhos em 2026
As festas de réveillon costumam servir para que as pessoas renovem as esperanças, após a frustração com os sonhos não realizados no ano que termina. No caso dos investidores brasileiros, porém, 2025 deixará saudades. Quem aplicou dinheiro na bolsa, por exemplo, viu o Ibovespa acumular uma alta de mais de 30% até a segunda semana de dezembro. Mesmo os mais conservadores obtiveram bons ganhos, diante da taxa básica de juros, a Selic, estacionada em 15% ao ano — o maior nível desde os 15,25% vigentes em julho de 2006. O retorno dos investidores estrangeiros ao Brasil foi fundamental para esses resultados, sobretudo na bolsa, na qual acumularam um saldo líquido de mais de 20 bilhões de reais. Por isso, a chegada de 2026 desperta sentimentos mistos no mercado, cujo otimismo — ou pessimismo — depende do desfecho que se espera para eventos decisivos que se desenrolarão no Brasil e no mundo, tanto na política quanto na economia. “Será um cenário de boca de jacaré”, diz Ricardo Campos, executivo-chefe da gestora Reach Capital. “Ou melhora muito, ou piora muito.”
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, será uma figura central para determinar se o tal jacaré devorará ou não os ganhos dos investidores. Seu estilo imprevisível adiciona uma carga considerável de incerteza ao horizonte. Em novembro, por exemplo, o republicano prometeu utilizar o dinheiro arrecadado com o tarifaço para pagar aos americanos mais pobres 2 000 dólares. Os analistas agora tentam entender se a declaração foi apenas mais uma de tantas bravatas de Trump. Muitos condicionam a resposta às eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, previstas para novembro. Com a popularidade em queda após as sobretaxas comerciais pressionarem a inflação, Trump poderia muito bem recorrer a tais arroubos populistas para evitar uma derrota de seu partido. O problema é que a maior economia do mundo está cada vez mais endividada. O Fundo Monetário Internacional estima que a dívida pública americana pule dos atuais 125% do PIB para 143% até 2030. Como comparação, a dívida brasileira hoje se aproxima de 80% do PIB. Diante desse cenário, nomes respeitados em Wall Street, como Ray Dalio, fundador da Bridgewater, maior empresa de hedge fund do mundo, e David Solomon, executivo-chefe do banco de investimentos Goldman Sachs, têm alertado sobre o risco de os Estados Unidos enfrentarem uma grave crise financeira nos próximos anos.
Caberá ao sucessor de Jerome Powell na presidência do Federal Reserve a tarefa de lidar com o potencial inflacionário do populismo da Casa Branca. O mandato de Powell termina em maio, e Trump, que o criticou impiedosamente em público, deixou claro que o substituirá. O nome mais cotado é o de Kevin Hassett, assessor especial da Casa Branca e visto pelo mercado como alguém mais propenso a atender aos desejos de Trump. Em entrevistas recentes, Hassett afirmou que os riscos de inflação estão superestimados e defendeu novos cortes de juros. “Será um Fed que se antecipará a eventuais riscos de freadas da economia”, diz André Muller, estrategista-chefe da gestora AZ Quest. O comportamento errôneo de Trump, a piora da dívida americana e a troca de comando no Fed continuarão incentivando os grandes investidores a reduzir sua exposição aos Estados Unidos no ano que começa.
Por isso, o Brasil seguirá atraindo capital externo, a exemplo dos mais de 20 bilhões de reais que desaguaram na bolsa em 2025, sustentando a forte alta do Ibovespa. A necessidade dos grandes fundos de alocar recursos fora dos Estados Unidos superou, inclusive, aspectos preocupantes do mercado brasileiro, como a piora das contas públicas na esteira do populismo fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O Brasil não fez nada espetacular neste ano e apenas surfou na onda dos emergentes”, diz Felipe Miranda, fundador da casa de análises Empiricus. Mesmo assim, o mercado deve continuar positivo em 2026. Primeiro, porque os gringos seguirão apostando no Brasil. Além disso, os próprios investidores brasileiros terão mais dinheiro para aplicar, a começar pelos dividendos extraordinários que receberão ainda em dezembro — uma bolada estimada em cerca de 85 bilhões de reais.
Os proventos serão pagos pelas empresas aos acionistas para escapar da tributação que entrará em vigor em janeiro. Para compensar o que perderá com a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 000 reais por mês, o governo taxará em 10% os proventos pagos por uma mesma empresa a uma mesma pessoa que ultrapassarem 50 000 reais por mês. Outros 41 bilhões de reais chegarão ao mercado, quando o Fundo Garantidor de Crédito indenizar o 1,6 milhão de detentores de CDBs do Banco Master, cuja liquidação extrajudicial foi decretada pelo Banco Central em novembro. Mesmo que parte do dinheiro seja usada para consumo, o restante terminará em aplicações financeiras. “Haverá uma força compradora importante no mercado”, diz Miranda, da Empiricus.
É claro que, onde os gestores veem recursos disponíveis para investir, o Banco Central pode enxergar excesso de liquidez capaz de pressionar a inflação. Por isso, outra peça-chave em 2026 será o rumo da política monetária. A queda dos juros é dada como certa. A expectativa de que os cortes comecem em janeiro, porém, esfriou após a última reunião do Comitê de Política Monetária, realizada nos dias 9 e 10 de dezembro. A manutenção da taxa em 15% era esperada, mas o que surpreendeu o mercado foi o tom duro do comunicado, interpretado como um sinal de que os cortes serão postergados. No quadro geral, contudo, isso é considerado muito mais um contratempo do que algo que arruinará os investidores. “Ainda será um cenário construtivo para os ativos brasileiros”, diz Rafael Espinosa, estrategista da gestora Tivio. Ele lembra que, via de regra, os analistas subestimam a magnitude dos ciclos de queda dos juros. Por isso, mesmo que demore mais para cair, a Selic pode terminar abaixo das estimativas atuais que apontam para 12,25% no fim de 2026. “A inflação pode dar condições ao BC de cortar mais os juros.”
O tamanho total do corte dependerá também de um último fator: a eleição presidencial, que pesará cada vez mais sobre o mercado, à medida que as candidaturas forem oficializadas. Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, abrirão os cofres da União para tentar garantir o quarto mandato do petista. Isso dificultará o trabalho do BC por dois motivos. Primeiro, mais dinheiro em circulação tende a elevar a inflação. Segundo, o aprofundamento do rombo fiscal levará os investidores a pedir um prêmio de risco maior, expresso por juros mais altos, para financiar a dívida pública. Somente um sinal claro de que o vencedor do pleito, qualquer que seja, fará um vigoroso ajuste fiscal pode assegurar uma tendência positiva de longo prazo para os investidores. “O Brasil ainda tem muitos desafios para que haja um bull market de fato”, diz Juliana Laham, estrategista-chefe do Bradesco, referindo-se ao jargão do mercado para indicar uma tendência consistente de alta. Superar tais desafios é a decisão mais valiosa que o próximo presidente pode tomar a fim de assegurar um futuro próspero para os brasileiros.
Publicado em VEJA, dezembro de 2025, edição VEJA Negócios nº 21








