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“Oceanos recebem menos de 1% do financiamento climático”, diz enviada especial da COP30

Em entrevista ao VEJA+Verde, Marinez Scherer afirma que o principal regulador do clima do planeta é o elo mais esquecido da agenda ambiental

Por Diogo Schelp Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 ago 2026, 15h21
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A bióloga Marinez Scherer, Enviada Especial para o Oceano da COP30, defende que não existe discussão climática sem levar em conta os ecossistemas marinhos. Em entrevista ao programa VEJA+Verde, ela explica por que os considera o principal aliado na luta contra o aquecimento global. “O oceano é o principal regulador climático do planeta. Sem um oceano saudável, não há clima saudável”, afirma. Segundo a especialista, que é professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o oceano absorve mais de 90% do calor excedente gerado pela queima de combustíveis fósseis, além de grande parte do gás carbônico emitido pela humanidade — funções que sustentam o regime de chuvas, a agricultura e as economias de países costeiros e de regiões do interior.

Essa mesma capacidade de absorver calor e carbono, porém, tem cobrado um preço alto dos ecossistemas marinhos. Marinez explica que a acidificação da água, provocada pelo excesso de CO2 absorvido, altera a biodiversidade e reduz a própria capacidade do oceano de regular o clima. O aquecimento das águas está entre os principais responsáveis pelo branqueamento dos corais, que perdem as algas com as quais vivem em simbiose e, no longo prazo, morrem. “O coral é a base da cadeia alimentar de muitas espécies importantes para a pesca. Os estoques pesqueiros podem migrar para águas mais frias por causa do aquecimento — no Atlântico Sul, por exemplo, indo mais para o sul”, diz Scherer.

Prioridades para o mar

Além dos recifes, a professora destaca a urgência de proteger manguezais e outros ecossistemas costeiros, que funcionam como barreiras naturais contra a subida do nível do mar e como importantes sumidouros de carbono. O Brasil, segundo ela, tem grandes áreas de manguezais e legislação de proteção, mas ainda enfrenta degradação em diversos pontos. Para reverter esse quadro, Marinez defende três frentes prioritárias: planejamento espacial marinho, para organizar e evitar conflitos entre as atividades que disputam espaço no mar; recuperação de ecossistemas degradados; e ampliação das áreas marinhas protegidas, que, segundo ela, já comprovam gerar benefícios econômicos e sociais em exemplos no Brasil e no mundo.

O maior obstáculo, no entanto, é o financiamento. Marinez lembra que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 das Nações Unidas, dedicado à vida marinha, é o que recebe menos recursos entre todas as metas globais. “Temos o principal regulador climático do planeta recebendo o menor financiamento”, diz Scherer. Como resposta, a COP30, a Conferência do Clima da ONU realizada no ano passado em Belém (PA), lançou o Pacote Azul, plano com mais de 100 soluções voltadas ao oceano, organizado em quatro eixos: descarbonização da frota marítima, energia marinha — sobretudo eólica offshore —, pesca e turismo mais sustentáveis, e conservação das áreas marinhas protegidas. O documento também traz metas até 2030 e estima o volume de recursos necessário para viabilizá-las.

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Vem aí a COP31

Marinez foi a única cientista a discursar para os líderes globais na abertura da COP30, em Belém, e considera o encontro um divisor de águas para a causa oceânica. “A COP30 marcou o oceano. Não se pode mais negar a sua importância na agenda das mudanças climáticas”, diz. O tema já entra como prioridade também na COP31, que terá presidência compartilhada entre Turquia e Austrália e será sediada em novembro, na Turquia, precedida por uma “pré-COP” em outubro na região do Pacífico.

O VEJA+Verde, conduzido pelo editor Diogo Schelp, traz empresários, personalidades, gestores públicos e especialistas para apresentar suas visões e soluções sobre um dos maiores desafios para a sobrevivência da humanidade: conciliar desenvolvimento econômico e social com preservação do meio ambiente. O programa pode ser assistido toda quinta-feira, às 17h, nos canais Samsung TV Plus canal 2059, LG Channels canal 126, TCL Channel 10031 e Roku 221, além de estar disponível no YouTube de VEJA.

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