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A conta que faz EUA e Europa pensarem duas vezes antes de romper com a China

Substituir cadeias produtivas dominadas por Pequim traz impactos sobre inflação, indústria e transição energética

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 13 jul 2026, 12h11 | Atualizado em 13 jul 2026, 12h15
A conta que faz EUA e Europa pensarem duas vezes antes de romper com a China Priorizar nos meus resultados Google

Reduzir a dependência da China nas cadeias globais de suprimentos pode ser uma meta estratégica para Estados Unidos e Europa, mas o preço seria gigantesco.

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Um estudo da consultoria EY-Parthenon estima que Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido precisariam investir US$ 23,6 trilhões (cerca de R$ 130 trilhões) até 2050 para reconstruir, em seus próprios territórios ou em países aliados, a infraestrutura industrial hoje concentrada em território chinês.

O cálculo evidencia o tamanho do desafio enfrentado pelas economias ocidentais, que buscam reduzir a vulnerabilidade diante do domínio chinês em setores considerados estratégicos, como semicondutores, baterias, minerais críticos, produtos farmacêuticos, tecnologia e manufatura avançada.

Segundo os autores do estudo, não se trata apenas de construir novas fábricas, mas de replicar ecossistemas industriais completos que levaram décadas para serem desenvolvidos na China.

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Quanto custaria abandonar a dependência chinesa

A estimativa da EY-Parthenon divide o esforço financeiro entre as principais economias ocidentais:

Estados Unidos: US$ 13,7 trilhões (cerca de R$ 75,4 trilhões);

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Zona do euro: US$ 9,1 trilhões (aproximadamente R$ 50 trilhões);

Reino Unido: US$ 800 bilhões (cerca de R$ 4,4 trilhões).

Na prática, isso significa um investimento médio de US$ 940 bilhões por ano (aproximadamente R$ 5,2 trilhões) durante os próximos 25 anos.

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Nos Estados Unidos, o esforço anual seria de aproximadamente US$ 550 bilhões (R$ 3 trilhões).

O valor próximo se aproxima dos cerca de US$ 600 bilhões (R$ 3,3 trilhões) investidos pelas gigantes americanas de tecnologia em infraestrutura para inteligência artificial e data centers apenas em 2025.

Já para a União Europeia, o montante necessário equivaleria praticamente a dobrar seu orçamento anual.

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Guerra comercial expôs vulnerabilidade do Ocidente

A preocupação com a dependência chinesa ganhou força nos últimos anos, especialmente após sucessivas disputas comerciais entre Washington e Pequim.

Em 2025, a China respondeu às ameaças tarifárias do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, restringindo as exportações de terras raras e outros minerais estratégicos, insumos fundamentais para indústrias como automóveis, eletrônicos, defesa e energia limpa.

A medida provocou risco de paralisação em linhas de produção de montadoras americanas e europeias e acelerou iniciativas para diversificar fornecedores e criar estoques estratégicos desses materiais.

O episódio reforçou a percepção de que a China possui capacidade de utilizar sua liderança industrial como instrumento geopolítico.

China domina minerais críticos da transição energética

O desafio vai muito além da produção industrial convencional.

Segundo projeções da Agência Internacional de Energia (IEA), até 2035 a China deverá responder por:

60% da capacidade mundial de refino de lítio e cobalto, essenciais para baterias;

80% da produção de grafite para baterias;

80% do processamento de terras raras, utilizadas em motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares e eletrônicos de alta tecnologia.

Essa concentração faz com que qualquer tentativa de substituição exija não apenas investimentos bilionários, mas também o desenvolvimento de cadeias inteiras de mineração, refino, processamento químico e fabricação industrial.

Custos maiores significariam inflação mais persistente

O estudo também alerta para outro efeito colateral: os preços.

Produtos manufaturados na China costumam apresentar custos de produção entre 20% e 100% menores do que seus equivalentes produzidos no Ocidente.

Transferir parte dessa produção para Estados Unidos ou Europa elevaria significativamente os custos industriais.

Segundo a EY-Parthenon, apenas na Europa os preços de setores estratégicos poderiam subir entre 1% e 2,5%, mantendo a inflação estruturalmente acima da meta de 2% perseguida pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Banco da Inglaterra.

Além dos investimentos em fábricas, seria necessário ampliar programas de qualificação profissional, automatizar linhas de produção e acelerar o desenvolvimento tecnológico para compensar o aumento dos custos trabalhistas.

Ocidente deve apostar em “desacoplamento seletivo”

Diante da dimensão do desafio, especialistas avaliam que a estratégia mais provável não será abandonar completamente a China, mas reduzir a dependência apenas nos setores considerados críticos para a segurança nacional.

Esse movimento, conhecido como “de-risking” (redução de riscos), vem sendo adotado tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Europeia.

Na prática, empresas tendem a diversificar fornecedores, ampliar investimentos em países aliados — como Índia, Vietnã e México — e criar cadeias produtivas redundantes para produtos considerados estratégicos.

O estudo conclui que reconstruir toda a infraestrutura industrial hoje concentrada na China é tecnicamente possível.

Mas exigiria um esforço financeiro sem precedentes na história recente das economias ocidentais.

Um custo que ajuda a explicar por que governos e empresas vêm optando por reduzir riscos. E não romper completamente os laços com a segunda maior economia do mundo.

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