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O temido dragão da inflação passa longe de assustar Guedes — por ora

Segundo o ministro da Economia, pressão nos preços é temporária e fruto do auxílio emergencial

Por Victor Irajá, Larissa Quintino 12 nov 2020, 15h54

Dois dias depois de ressuscitar o dragão da hiperinflação, o ministro da Economia, Paulo Guedes, parece ter se tranquilizado com a realidade brasileira do momento. Há inflação, mas dentro de um nível muito distante de um descontrole e, possivelmente, a pressão de alta será transitória. Em evento da Associação Brasileira de Supermercados, a Abras, o ministro creditou a força inflacionária ao pagamento do auxílio emergencial. “É uma alta temporária de preços e uma alta transitória de preços”, disse o ministro nesta quinta-feira, 12. Segundo ele, com as pessoas majoritariamente em casa, alguns setores foram mais beneficiados pelo pagamento do programa de amparo aos mais vulneráveis. “Os brasileiros correram aos supermercados, às lojas de material de construção também”, afirma. “Na hora que o auxílio emergencial vem e as pessoas estão em confinamento, elas gastaram em material de construção, melhoraram suas casas, e ao mesmo tempo foram aos supermercados e fizeram compras”, diz ele.

Em outubro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,86%, o resultado é o maior para o mês desde 2002, porém, mesmo com a aceleração, causada principalmente pela alta de itens da cesta básica, a inflação está dentro de controle. De acordo com a última edição do relatório Focus, o IPCA deve fechar o ano em 3,22%, abaixo da meta do governo federal para o ano, de 4%. É fato que, há 13 semanas, o mercado reajusta para cima a estimativa de inflação para o ano, mas o controle em outros eixos — com uma demanda baixa dos serviços — deixa o indicador como um ponto de atenção e não a volta de um fantasma. Na última terça-feira, um em que o alto escalão do governo abusou das declarações infelizes, Guedes afirmou que o país caminhava para a hiperinflação caso o ajuste fiscal não fosse feito. A fala causou espanto entre especialistas, mercado financeiro e, claro, dos brasileiros que se lembram do período entre as décadas de 1980 e 1990, com reajustes diários de preços e o derretimento da moeda dia após dia.

“Tudo indica que a inflação que experimentamos é temporária. Tem origens muito claras. O aumento da demanda por alimentos por causa do auxílio emergencial, além da disparada da demanda chinesa por commodities e a depreciação do real”, explica o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega. Por ora, entende Maílson, nem mesmo os disparates verbais do presidente Jair Bolsonaro — que na terça-feira voltou a sua versão radical, com falas relativizando a pandemia e até mesmo adotando um tom bélico contra os EUA — têm influência no cenário inflacionário do país, por ora. Existe a crescente hipótese de que a perda de confiança promova a fuga de capitais do país, mas isso se Bolsonaro levar à frente a agenda populista que desconsidera o cenário fiscal. “Por ora, é apenas um presidente fazendo vexame, tornando o país uma chacota internacional, trazendo a pólvora à época nuclear. Mas isso só se transformará em crise grave se descambar para a flexibilização do teto, medidas populistas”, diz o ex-ministro.

Com a eleição de Joe Biden nos Estados Unidos e a restauração do ambiente econômico do país, um dos principais fatores para o controle da inflação está no câmbio. Tudo indica, como mostra VEJA, que a moeda brasileira ganhará corpo em relação ao dólar no ano que vem. A vitória democrata abre espaço para mais auxílios à economia americana, o que impacta a dívida pública e, consequentemente, causa a diminuição de valor da moeda. Por aqui, o Brasil conta que (finalmente) a agenda de reformas caminhe, atraindo investimentos estrangeiros a partir da consolidação de que o país faz o dever de casa e arruma as contas internas, afastando riscos de insolvência.

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