O risco da crise da Casas Bahia (BHAI3) respingar no Mercado Livre, segundo o Citi
A Casas Bahia não era apenas uma concorrente do Mercado Livre, mas também uma parceira em produtos específicos
A recuperação judicial da Casas Bahia (BHIA3) pode atingir um negócio estratégico do Mercado Livre no Brasil, dizem analistas do Citi em relatório enviado aos clientes e consultado por VEJA nesta terça-feira, 18. No documento, os analistas consideram o pedido de proteção contra credores da varejista “marginalmente negativo” para o Mercado Livre, embora o impacto ainda seja limitado.
A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na noite de domingo, 16, com uma dívida de 17,3 bilhões de reais, após registrar prejuízo de 11 bilhões de reais no primeiro semestre de 2026.
Para os analistas do Citi, o ponto de atenção está na parceria comercial firmada entre as duas companhias em novembro de 2025. O acordo foi criado para ampliar o sortimento oferecido pelo Mercado Livre em categorias nas quais a plataforma tinha menor presença, especialmente eletrônicos e eletrodomésticos de grande porte e peso.
Segundo o relatório do Citi, a situação da Casas Bahia pode representar uma dificuldade para essa estratégia. “Embora a BHIA seja uma concorrente, atualmente vemos isso como marginalmente negativo para o MELI, dada sua parceria estratégica com a BHIA, iniciada em novembro de 2025”, afirmam João Pedro Soares e Felipe Husein, que assinam o relatório do Citi.
A avaliação do banco é que o acordo tinha justamente a função de preencher uma lacuna histórica no catálogo do Mercado Livre. A Casas Bahia, portanto, não era apenas mais uma concorrente no marketplace: a varejista também funcionava como parceira em categorias específicas de produtos.
Magazine Luiza aparece como alternativa para o Mercado Livre
Para o Citi, uma possível saída seria o Mercado Livre buscar uma nova parceria comercial com o Magazine Luiza. O banco cita a companhia como uma alternativa, lembrando que o Magazine Luiza mantém um acordo comercial semelhante com a Amazon no Brasil.
A crise da Casas Bahia, porém, não significa que a empresa deixará de ser uma ameaça competitiva ao Mercado Livre. Para o Citi, caso o ambiente de juros melhore, a varejista poderia voltar a ganhar relevância no comércio eletrônico brasileiro.
Hoje, contudo, seu peso é relativamente pequeno. O Citi estima que a Casas Bahia represente cerca de 2% do mercado brasileiro de vendas de terceiros, conhecido como 3P, e menos de 5% do Volume Bruto de Mercadorias (GMV) total do comércio eletrônico, considerando as operações próprias e de terceiros.
Dados da SensorTower citados no relatório reforçam a diferença de escala entre as plataformas. A Casas Bahia teria cerca de 1 milhão de usuários ativos diariamente, enquanto o Magazine Luiza teria aproximadamente 6 milhões.
O lado positivo para o Mercado Livre
Apesar do alerta sobre a parceria, o Citi vê um possível efeito positivo para o Mercado Livre no médio prazo. A eventual perda de relevância da Casas Bahia pode abrir espaço para que o próprio Mercado Livre avance em sua operação de venda direta ao consumidor, conhecida como 1P.
Segundo o relatório, a empresa vem melhorando a rentabilidade dessa operação à medida que ganha escala e utiliza tecnologia para aprimorar compras, preços e gestão de estoques.
“No primeiro trimestre de 2026, o MELI indicou que, apesar de ainda funcionar como um detrator das margens, suas margens melhoraram consistentemente devido à escala e à tecnologia implementada para gerenciar melhor compras, preços e estoques”, afirmam Soares e Husein.
A operação 1P do Mercado Livre já havia atingido contribuição direta positiva em 2024, segundo o banco. Assim, embora a recuperação judicial da Casas Bahia coloque em xeque uma parceria criada há menos de um ano, o episódio também pode acelerar uma mudança na estratégia do Mercado Livre: depender menos de parceiros para categorias específicas e ampliar sua própria operação de venda de produtos.
A Casas Bahia atribuiu o pedido de recuperação judicial a um cenário macroeconômico adverso, com juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos de financiamento, enfraquecimento do consumo e pressão sobre o capital de giro. A companhia também anunciou o fechamento de 298 lojas como parte de seu processo de reestruturação.







