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O que o aumento do desemprego nos Estados Unidos significa para os juros

Payroll abaixo do esperado reduz a possibilidade de nova alta em outubro, mas inflação e eleições mantêm incertezas sobre a economia americana

Por Ligia Moraes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 out 2026, 12h54
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O mercado de trabalho dos Estados Unidos criou apenas 29 mil vagas fora do setor agrícola em setembro, bem abaixo das 90 mil esperadas pelo mercado. A taxa de desemprego subiu de 4,1% para 4,2%, enquanto os salários avançaram menos do que o previsto. O resultado reduziu a possibilidade de um novo aumento dos juros pelo Federal Reserve ainda em outubro, mas não encerrou a discussão sobre uma elevação até o fim do ano.

Os dados divulgados nesta sexta-feira, 2, pelo Bureau of Labor Statistics também trouxeram revisões negativas. O saldo de julho passou da abertura de 21 mil vagas para o fechamento de 10 mil postos. Em agosto, a criação de empregos foi reduzida de 162 mil para 133 mil. Com as alterações, os dois meses tiveram 60 mil vagas a menos do que o informado inicialmente.

A reação dos investidores foi imediata. A probabilidade de o Fed manter os juros na reunião de outubro subiu de 75,6% na quinta-feira, 1º, para 86,2%, segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group. A possibilidade de uma nova alta caiu para 13,8%.

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Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano recuaram, enquanto o dólar perdeu força. A combinação favoreceu os ativos de risco, como ações, porque juros menores aumentam a atratividade de investimentos que oferecem retornos menos previsíveis.

Fed ganha espaço para esperar

O resultado mais fraco diminuiu a urgência de uma nova alta dos juros depois que o Fed elevou a taxa para a faixa de 3,75% a 4% ao ano em setembro. Ainda assim, a inflação permanece acima da meta de 2% e impede que o banco central americano descarte novos aumentos.

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Para Felipe Mecchi, economista do C6 Bank, a desaceleração das contratações não significa que o mercado de trabalho tenha entrado em uma crise. A renda ainda sustenta o consumo das famílias e, ao mesmo tempo, pode dificultar a redução dos preços dos serviços. “Essa evolução da renda segue sendo um ponto importante para a economia americana. Enquanto, de um lado, ela dá suporte ao consumo, de outro, pode dificultar uma queda mais rápida da inflação, principalmente no setor de serviços”, afirma Mecchi.

O economista avalia que o dado reduz a possibilidade de uma elevação na reunião marcada para os dias 27 e 28 de outubro, mas considera provável um novo movimento em dezembro.

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“O ligeiro aumento do desemprego em setembro reduz as chances de o Fed aumentar os juros na reunião de outubro. É importante observar que o mercado de trabalho americano continua forte e a inflação segue acima da meta, cenário que, na nossa visão, justifica uma política monetária mais restritiva. O mais provável é que o banco central dos Estados Unidos eleve a taxa básica em dezembro”, diz.

Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital em Nova York, também acredita que o Fed deve manter os juros neste mês. Para ele, o payroll mais fraco se soma à desaceleração recente do núcleo do PCE, indicador de inflação acompanhado de perto pela autoridade monetária. “Somado ao último dado de inflação, com o PCE em 3% após revisões que reduziram o núcleo do indicador em agosto, minha leitura é que o Fed deve manter a taxa de juros estável”, afirma Flores.

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A definição, porém, ainda dependerá do próximo índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos. “O principal risco para essa tese é o próximo CPI, que segue, em nossa visão, como fator decisivo para um novo aumento de juros”, diz.

Dólar e juros americanos recuam

A mudança nas expectativas para o Fed afetou imediatamente o mercado financeiro. O índice DXY, que compara o dólar com uma cesta de seis moedas fortes, caiu de 102,07 para 101,85 pontos após a divulgação. O rendimento dos títulos do Tesouro americano com vencimento em dez anos recuou de 5,22% para 5,17%.

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“Juros longos mais baixos dão, na margem, sustentação tanto à bolsa americana quanto à brasileira”, afirma Flores. A queda do dólar e dos rendimentos dos títulos americanos pode direcionar parte do capital para mercados emergentes, embora o movimento dependa também da inflação e do cenário geopolítico.

O petróleo mais barato contribuiu para a melhora do apetite por risco ao aliviar parte das preocupações com os preços de energia. Esse efeito, no entanto, pode ser revertido caso o conflito no Oriente Médio volte a pressionar as cotações.

Emprego também pesa sobre as eleições

Além das consequências para os juros, o enfraquecimento do mercado de trabalho pode aumentar a pressão política sobre o governo americano antes das eleições de meio de mandato. O pleito definirá a composição do Congresso e funcionará como uma avaliação do governo do presidente Donald Trump.

“O dado de payroll vem em um momento em que estamos cada vez mais perto das eleições de meio de mandato. Um aumento da taxa de desemprego e um número fraco de criação de vagas não são positivos quando se pensa nas eleições”, afirma William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.

Segundo Alves, o mercado de trabalho mais fraco se soma às consequências econômicas e políticas do conflito no Irã. “Temos toda a repercussão negativa da guerra, que não parece caminhar para um cessar-fogo no curto prazo. A situação para o atual governo vai ficando cada vez mais difícil”, diz.

O payroll de setembro não aponta, isoladamente, para uma deterioração acentuada da economia americana. O desemprego continua relativamente baixo e as demissões permanecem limitadas. O conjunto dos números, porém, mostra perda de força nas contratações e oferece ao Fed mais espaço para esperar novos dados antes de voltar a elevar os juros.

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