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O que falta para o Banco Central baixar os juros

Apesar de alívios recentes, a autarquia comandada por Roberto Campos Neto ainda se preocupa com os preços dos serviços e projeções de inflação futura

Por Carlos Valim, Luana Zanobia, Larissa Quintino
Atualizado em 3 abr 2023, 21h44 - Publicado em 3 abr 2023, 20h19

Peça central na campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, a picanha ficou menos salgada nas prateleiras dos açougues, no último mês. A cebola e o tomate também baratearam nas últimas coletas de preços. Com isso, um dos grandes vilões do custo de vida do brasileiro desde o início da pandemia, a inflação de alimentos está mais branda. No índice IPCA-15 medido entre o meio do mês de fevereiro e de março, a inflação de alimentos registrou estabilidade, em 0,02%. O preço da energia também já não pressiona como nos últimos dois anos, passados problemas climáticos como a estiagem. Nem mesmo teve grande impacto nos preços da gasolina a reoneração dos combustíveis — que tiveram os seus impostos cortados no segundo semestre de 2022, a mágica encontrada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para diminuir as pressões inflacionárias em meio à sua busca pela reeleição —, promovida por Fernando Haddad para evitar impactos maiores nas contas públicas. Nas últimas duas semanas, o preço da gasolina caiu. Por fim, os preços dos bens industriais também sofrem menos com o desarranjo das cadeias produtivas causadas pelos lockdowns da pandemia.

Tantos sinais de uma inflação menos pressionada animam e, para alguns, tudo isso poderia dar razão às pressões do governo de que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, já deveria estar baixando os juros de 13,75%, o maior patamar em quase sete anos. Tanto que, dois dias depois de o órgão decidir manter a Selic nesse patamar, o IPCA-15 marcou 0,69%, a menor variação para um mês de março desde 2020. Lula tem feito dessa pressão pela baixa dos juros uma de suas bandeiras de começo do governo, no que é ajudado por boa parte do primeiro escalão de seu governo e por representantes da iniciativa privada, em especial, da indústria, do varejo e do mercado imobiliário. Mas o que falta para o BC concordar com os argumentos dessa turma?

Segundo o próprio órgão, comandado pelo economista Roberto Campos Neto, o momento para baixar a guarda ainda não chegou, e “serenidade e paciência” serão necessárias para suportar a incômoda permanência da taxa de juros na busca do ciclo da desinflação, segundo explica a ata divulgada pelo Copom para justificar a sua última decisão. Isto é, os juros altos devem permanecer por mais um tempo. “A ata do Copom faz uma descrição altamente didática da atual conjuntura econômica e seus diversos aspectos”, diz Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú. “O corte de juros não é iminente: o comitê aguardará o impacto da desaceleração econômica.”

Apesar de muita coisa estar encaminhada, a ameaça inflacionária não está controlada, e permanece à espreita. A resposta para esta agoniante espera pode ser encontrada nos serviços. Na contramão da alimentação em casa, quem vai almoçar fora, por exemplo, ainda pode perceber preços em ascensão. O mesmo vale para o consumidor de outros serviços, em geral, sejam eles ir ao salão de beleza, comprar uma passagem aérea ou pagar a mensalidade escolar dos filhos. Ao final de 2022, aproveitando a reabertura econômica pós-Covid, o setor de serviços avançou 8,3%, enquanto o comércio cresceu 1%.

A pressão inflacionária nos serviços preocupa porque o setor representa cerca de 30% do orçamento familiar e está apresentando uma alta contínua em torno de 7,5%, o que é considerado muito alto. “Os serviços têm a característica de serem indexados à inflação passada, o que dificulta a redução dos preços”, afirma o economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). “Além disso, o índice de difusão, que mede o porcentual de produtos e serviços com aumento de preço, tem-se mantido em torno de 65%, o que indica uma inflação mais disseminada”, afirma. Segundo Braz, apesar dos sinais de desaceleração da inflação neste início de ano, haverá fatores para nova pressão na segunda metade do ano, com estimativa de que o IPCA encerre o ano em 6%. “O BC está sendo austero e rigoroso para controlar a inflação e proteger a população mais exposta a ela”, afirma.

O risco seria repetir erros do passado em dar como controlada uma situação ainda incerta. “Embora haja sinais de desaceleração na economia, o mercado de trabalho ainda está apertado, os salários estão subindo e a inflação está alta. Se o BC tentar acelerar a queda da taxa Selic em um ambiente de alta expectativa de inflação, isso poderá levar a um aumento da inflação e das taxas de juros, resultando em uma situação em que a crise não é resolvida e a questão inflacionária persiste”, afirma Carlos Kawall, sócio-fundador da Oriz Partners e ex-secretário do Tesouro Nacional. “As recentes críticas do governo ao presidente do BC levantam a possibilidade de uma mudança na equipe, o que lembra o governo Dilma.”

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Outra questão ainda não resolvida são as expectativas de inflação futura. A Selic atual costuma ser estabelecida de olho no IPCA seis trimestres para a frente, quando o impacto dos juros de agora deve ser maior. “O núcleo da inflação, que é o cálculo que tenta expurgar variações atípicas da inflação, está perto de 8%, no acumulado de 12 meses. O risco está em cortar agora a Selic e o núcleo voltar a subir”, comenta Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank. “E, segundo o próprio Copom, as expectativas de inflação futura aumentaram atreladas às discussões que ocorreram sobre a possibilidade de as metas futuras serem alteradas. Se os agentes econômicos não têm certeza se a meta vai ser 3% ou 4%, o objetivo deixa de ser referência.”

Tais discussões, alimentadas por Lula, então, tiveram efeito contrário e pioraram as expectativas inflacionárias, dificultando mais ainda a baixa dos juros. Outros erros têm sido cometidos pelo governo na comunicação sobre o assunto, piorando a percepção do mercado. Desde que voltou sua artilharia ao BC, Lula diz que a inflação do Brasil não é de demanda, isto é, de aumento de consumo e, por isso, a política monetária contracionista não teria efeito, argumento reverberado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pela ministra do Planejamento, Simone Tebet. Segundo o presidente, “aumentar juros é importante quando se tem uma inflação de demanda. Se você tem uma sociedade consumindo demais, então você aumenta os juros para diminuir o consumo, mas não é o caso do Brasil”. O BC, no entanto, parece não concordar com isso. Na ata do órgão: “Observa-se uma dinâmica inflacionária movida por excessos de demanda, inicialmente em bens e que atualmente se deslocou para o setor de serviços, e que, portanto, requer moderação da atividade econômica para que os canais de política monetária atuem”.

De fato, o remédio dos juros altos mantidos por longo tempo tem sido duro. É incomum as taxas permanecerem tão altas mesmo depois de a inflação já ter cedido. Isso já tem cobrado o seu preço em desaceleração econômica desde o último trimestre de 2022. Não por acaso o crédito está escasseando, e não apenas por receio dos bancos de emprestar depois do escândalo com o balanço das Lojas Americanas. O estoque de crédito diminuiu pelo segundo mês consecutivo e a concessão de empréstimos e financiamentos caiu 9,5% em fevereiro.

Mas nem isso tem desviado o Copom de seu objetivo primordial e de seu mandato. Outros fatores podem ajudar a pressionar o BC para uma baixa, mas eles não são o ponto principal – afinal, é importante lembrar que a política econômica do Copom tem como alvo principal apenas a inflação, e as outras variáveis não passam disso, fatores que ajudem a encaminhar os preços para a meta.

Nos EUA, o Federal Reserve indica estar chegando ao fim do período de alta dos juros. Com os americanos parando de subir suas taxas, a diferença de juros praticados no Brasil e nos EUA deixa de se estreitar, o que preocupa os investidores, afinal, a diferença de riscos entre os dois países é bastante grande. No momento de escolher onde colocar os seus recursos, eles vão sempre preferir a potência do norte se a diferença de juros for pequena.

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Se os juros americanos pararem de subir mesmo, as preocupações vão se direcionar a outras questões, como a possibilidade de novos aumentos do petróleo com o corte de produção prometido pela Opep. E, por aqui, a discussão poderá se voltar ainda mais para o arcabouço fiscal, que deve entrar em tramitação no Congresso nos próximos dias. Se ele avançar, pode diminuir também os riscos do país. Menos risco, menos pressão de alta para o dólar, e assim a moeda americana não afeta o custo das importações, subindo os preços de produção por essas bandas.

Mas, segundo a autoridade monetária, isso não é garantia de nada. Não há um processo mecânico entre o projeto avançando e a queda da inflação, e a própria situação fiscal precisa ficar mais clara. “O comitê acha que é preciso resolver a questão fiscal para que as expectativas sejam impactadas e os juros possam cair. No entanto, há um enorme ceticismo no mercado em relação à questão fiscal, o que pode levar a frustrações entre o governo e o BC”, afirma Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central.

Enquanto a ala econômica do governo age para destravar o arcabouço fiscal e negociar no Congresso para que o plano não se distancie do que foi gestado dentro do Ministério da Fazenda, a ala política busca tornar a posição de Campos Neto mais incômoda. Em especial, junto ao Senado Federal, casa que aprovou a indicação do presidente do Banco Central e que é quem pode destituí-lo depois da aprovação da lei da autonomia do órgão. O presidente do BC foi convocado a ir à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) para falar sobre a política monetária, além de participar de um seminário sobre os juros que deve acontecer no plenário da casa também em abril. A própria base do governo no Senado, com MDB e União Brasil, é contra qualquer movimento para tirar Campos Neto, mas isso não impede a exposição do chefe da autoridade monetária por outros políticos mais à esquerda, algo que pode remar contra os planos da área econômica, já que tensionar a relação pode ter efeitos de aumento de tensão no mercado, afetando o dólar.

Campos Neto deve mais uma vez adotar uma postura didática e explicar que, antes de forçar uma baixa da Selic, a inflação precisa estar mais controlada. Mas é difícil imaginar que encontrará, no meio político, muitos ouvidos dispostos a ouvir a razão, se ela se contrapõe às suas ambições políticas de incentivar a economia a qualquer custo durante um período inflacionário.

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