O preço de dizer não a Trump: Canadá escolhe enfrentar a guerra tarifária
Primeiro-ministro Mark Carney abandona negociações e aceita risco de aprofundar guerra tarifária para evitar concessões excessivas
A guerra tarifária de Donald Trump ganhou um novo capítulo. Desta vez, o protagonista é o Canadá, um dos mais próximos parceiros comerciais dos Estados Unidos.
Depois de meses de negociação, o primeiro-ministro Mark Carney decidiu interromper as conversas com Washington e abandonar a tentativa de fechar um acordo a qualquer custo. O resultado imediato foi a entrada em vigor de tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses.
A resposta de Carney foi resumida em uma ideia simples: um acordo ruim pode custar mais do que não ter acordo nenhum.
O Canadá agora prepara uma retaliação de valor equivalente contra produtos americanos, aprofundando uma disputa comercial entre dois países que, até pouco tempo atrás, mantinham uma das relações econômicas mais integradas do mundo.
O episódio interessa diretamente ao Brasil.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva também está no meio da ofensiva comercial de Trump. Mas, enquanto o Canadá acaba de abandonar as negociações e partir para a retaliação, Brasília ainda tenta combinar três estratégias: negociar com Washington, contestar as medidas na Organização Mundial do Comércio e preparar uma resposta caso as tarifas permaneçam.
O que aconteceu entre Trump e o Canadá
O Canadá é, de longe, muito mais dependente do mercado americano do que o Brasil.
Cerca de três quartos das exportações canadenses têm os Estados Unidos como destino. Os dois países compartilham cadeias produtivas integradas, especialmente nos setores automotivo, energético e industrial.
Mesmo assim, Carney decidiu interromper as negociações depois que as conversas chegaram a um impasse.
Segundo o governo canadense, Washington passou a exigir concessões que ultrapassavam a simples redução de tarifas. Entre os pontos considerados inaceitáveis estavam limitações à liberdade do Canadá para definir suas futuras relações comerciais e exigências consideradas incompatíveis com interesses estratégicos e a soberania do país.
Trump havia ameaçado aplicar tarifas de 50% sobre uma série de produtos canadenses, de equipamentos esportivos e roupas a cimento e bebidas. Após o fracasso das negociações, as tarifas passaram a atingir aproximadamente US$ 20 bilhões em exportações canadenses.
Carney prometeu responder na mesma proporção.
A decisão representa uma mudança importante. Durante meses, o governo canadense tentou preservar a relação comercial com os Estados Unidos e evitar uma escalada. Agora, passou a aceitar o custo de uma guerra comercial.
Por que o Canadá preferiu não fazer um acordo
O cálculo de Carney é que algumas concessões poderiam criar um problema maior no futuro.
Um acordo poderia reduzir determinadas tarifas, mas, em troca, o Canadá teria de aceitar condições que diminuiriam sua margem de decisão sobre setores estratégicos e sua política comercial.
O risco, para Ottawa, era transformar uma solução temporária em uma dependência permanente.
A decisão tem apoio político amplo no país. O confronto com Trump despertou um sentimento nacionalista e aumentou a pressão para que o Canadá reduza sua dependência econômica dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o custo pode ser elevado: empresas canadenses altamente dependentes do mercado americano podem perder vendas, empregos e investimentos.
É justamente esse dilema que torna o caso canadense interessante para outros países.
E o Brasil? Qual é a situação hoje
O Brasil também está sob tarifas adicionais impostas pelo governo Trump, mas o quadro é diferente e mais complexo.
Em julho, os Estados Unidos concluíram duas investigações comerciais contra o Brasil com base na chamada Seção 301 da legislação americana.
A primeira resultou em uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, embora uma lista de exceções tenha retirado parte relevante das exportações da medida.
A segunda investigação, relacionada ao combate ao trabalho forçado nas cadeias globais de produção, impôs uma sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, também com exceções.
Segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as novas medidas americanas atingem diretamente 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos. Outros 52,7% permanecem sem tarifas adicionais específicas ou setoriais relacionadas às novas medidas.
Isso significa que o chamado tarifaço não atinge todos os produtos brasileiros da mesma maneira.
Para entender a situação, é preciso olhar produto por produto. Algumas mercadorias foram incluídas nas sobretaxas, outras receberam exceções e outras continuam sujeitas às tarifas setoriais já existentes.
O Brasil já retaliou?
Ainda não.
O governo Lula deu início, em 13 de agosto, ao processo que pode levar o Brasil a adotar contramedidas contra os Estados Unidos com base na Lei da Reciprocidade Econômica.
A legislação permite que o governo brasileiro responda a medidas consideradas prejudiciais ao país. As possíveis respostas não se limitam a tarifas sobre produtos americanos e podem, em determinadas circunstâncias, atingir áreas como serviços e propriedade intelectual.
Mas abrir o processo não significa que uma retaliação já foi decidida.
Brasília ainda precisa concluir a análise técnica e política sobre quais medidas poderão ser adotadas. O objetivo declarado do governo é manter a possibilidade de negociação aberta enquanto prepara instrumentos de pressão caso as conversas fracassem.
Brasil também levou a disputa à OMC
Ao mesmo tempo, o Brasil decidiu contestar as tarifas americanas na Organização Mundial do Comércio.
Em 27 de julho, o governo brasileiro solicitou formalmente consultas com os Estados Unidos, primeiro passo de uma disputa comercial dentro da OMC.
Brasília questiona tanto a tarifa adicional de 25% relacionada à investigação específica sobre o Brasil quanto a sobretaxa de 12,5% ligada à investigação sobre trabalho forçado. Os Estados Unidos aceitaram participar das consultas.
Na prática, o caminho da OMC é lento e não oferece uma solução imediata para os exportadores brasileiros.
Mas a iniciativa tem importância política e jurídica: o Brasil tenta registrar formalmente sua contestação às medidas americanas e preservar instrumentos para uma eventual escalada da disputa.
Brasil e Canadá escolheram caminhos diferentes
É aqui que o caso canadense ajuda a colocar a situação brasileira em perspectiva.
O Canadá chegou a negociar diretamente uma redução das tarifas, mas decidiu abandonar o acordo quando considerou que as exigências americanas ultrapassavam o limite aceitável. Agora, optou por uma resposta equivalente às tarifas impostas por Washington.
O Brasil, por sua vez, ainda está em uma fase intermediária.
Não aceitou simplesmente as medidas americanas. Acionou a OMC e abriu um processo formal para avaliar uma retaliação. Mas também não fechou a porta para uma negociação direta.
É uma estratégia de pressão sem rompimento.
A grande questão é até quando essa posição será sustentável.
O que o Brasil pode perder em uma guerra comercial
O mercado americano é o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás apenas da China.
Uma escalada tarifária pode afetar setores específicos que dependem fortemente dos Estados Unidos, especialmente empresas que não conseguem redirecionar suas vendas rapidamente para outros mercados.
Por outro lado, retaliar também tem custo.
Se o Brasil aumentar tarifas sobre produtos americanos, empresas brasileiras que utilizam componentes, máquinas ou insumos dos Estados Unidos podem enfrentar preços maiores. Em última instância, parte desse aumento pode chegar ao consumidor.
Esse é o problema clássico de uma guerra comercial: o país atingido precisa decidir se aceita o prejuízo inicial ou se responde, correndo o risco de aumentar o conflito e também os próprios custos internos.
A guerra tarifária está mudando a relação com os Estados Unidos
O caso do Canadá mostra que a política comercial de Trump já não é vista apenas como uma negociação sobre tarifas.
Para governos estrangeiros, a questão passou a envolver previsibilidade.
Carney afirmou que um dos objetivos das negociações era restaurar estabilidade e segurança para as empresas canadenses. O problema, segundo o governo, foi que as condições apresentadas pelos Estados Unidos continuaram mudando e novas exigências surgiram no fim das conversas.
Essa incerteza é um problema também para empresas brasileiras.
Mesmo quando um produto consegue uma exceção, o cenário pode mudar com novas investigações, revisões ou decisões da Casa Branca. Foi justamente isso que levou Brasília a combinar negociação diplomática, ação na OMC e preparação para uma eventual retaliação.
A pergunta que o Brasil terá de responder
A estratégia de Carney pode parecer arriscada. E, para o Canadá, é.
Mas ela coloca uma questão que também começa a se aproximar do Brasil: quanto um país deve ceder para preservar o acesso ao mercado americano?
Até agora, o Brasil não escolheu o confronto direto. Também não aceitou passivamente as tarifas.
Está tentando manter abertas todas as opções.
A OMC oferece um caminho jurídico. A Lei da Reciprocidade cria a possibilidade de resposta. E a diplomacia mantém uma porta para a negociação.
O problema é que Trump transformou tarifas em uma das principais ferramentas de sua política externa e comercial. Isso significa que, para países como Brasil e Canadá, a discussão deixou de ser apenas sobre alguns pontos percentuais de imposto sobre produtos.







