O plano de Donald Trump para apertar o cerco aos estudantes estrangeiros
Medida elimina um sistema em vigor há cinco décadas e aumenta a incerteza para estudantes internacionais
Por Ernesto Neves
O governo do presidente Donald Trump anunciou nesta quinta-feira (16) uma nova regra que limita a duração dos vistos de estudantes estrangeiros nos Estados Unidos a, no máximo, quatro anos.
A medida altera um sistema em vigor há cerca de cinco décadas e impõe novos obstáculos para milhões de universitários internacionais que estudam no país, além de aumentar a pressão sobre universidades americanas que dependem desse público.
Pelas novas regras, estudantes que precisarem permanecer além do prazo inicialmente autorizado deverão solicitar uma extensão formal de permanência ao governo americano.
O pedido estará sujeito à aprovação das autoridades migratórias e poderá ser negado, mesmo que o aluno ainda esteja regularmente matriculado.
A mudança integra a estratégia da administração Trump de restringir a imigração legal, endurecendo mecanismos de controle sobre vistos de estudo, trabalho e intercâmbio.
Como funcionava a regra anterior
Até agora, os estudantes portadores do visto F-1, principal categoria destinada ao ensino superior nos Estados Unidos, permaneciam legalmente no país durante todo o período necessário para concluir seus estudos, independentemente da duração do curso.
O modelo, conhecido como “Duration of Status” (D/S), permitia que o estudante permanecesse matriculado até a conclusão da graduação, mestrado ou doutorado e, posteriormente, utilizasse o programa Optional Practical Training (OPT), que autoriza estrangeiros a trabalhar temporariamente nos Estados Unidos após a formatura.
Dependendo da área de formação, especialmente nos cursos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), esse período de trabalho pode chegar a três anos.
Com a nova regulamentação, esse modelo deixa de existir.
Doutorados e pesquisadores serão os mais afetados
A mudança deve atingir principalmente estudantes de pós-graduação.
Cursos de doutorado nos Estados Unidos frequentemente duram entre cinco e sete anos. Como o novo limite máximo será de quatro anos, esses alunos precisarão solicitar uma renovação do visto durante o programa, criando um novo ponto de incerteza em pesquisas de longo prazo.
Além disso, praticamente todos os estudantes internacionais que desejarem utilizar o OPT após a graduação também precisarão pedir uma extensão migratória antes de ingressar no mercado de trabalho americano.
Para obter a renovação, os candidatos deverão comprovar desempenho acadêmico satisfatório, capacidade financeira para permanecer no país e continuidade dos estudos.
Medida faz parte da ofensiva contra a imigração legal
Embora o discurso sobre imigração nos Estados Unidos costume se concentrar na entrada irregular pela fronteira com o México, a administração Trump vem ampliando as restrições também sobre modalidades legais de imigração.
Segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS), a nova política busca impedir que estrangeiros prolonguem indefinidamente sua permanência por meio de sucessivas matrículas em cursos.
“Durante décadas, estudantes estrangeiros puderam permanecer nos Estados Unidos por tempo indeterminado, permitindo que milhares abusassem do sistema migratório ao se matricularem continuamente para evitar deixar o país”, afirmou o secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, em comunicado.
A administração sustenta que o novo modelo permitirá maior controle, monitoramento e verificação dos estudantes internacionais.
Mercado de tecnologia pode sentir os efeitos
Especialistas avaliam que o impacto pode ir além das universidades.
O programa Optional Practical Training funciona como uma das principais portas de entrada para talentos estrangeiros em empresas de tecnologia, bancos de investimento, consultorias e centros de pesquisa.
Gigantes como Google, Microsoft, Meta, Amazon e diversas startups do Vale do Silício tradicionalmente contratam recém-formados internacionais durante o período do OPT antes de patrocinarem vistos de trabalho permanentes, como o H-1B, destinado a profissionais altamente qualificados.
Ao tornar mais difícil a permanência desses estudantes, a nova regra pode reduzir o fluxo de mão de obra especializada para setores estratégicos da economia americana.
Universidades alertam para perda de competitividade
Entidades que representam instituições de ensino superior criticaram duramente a medida.
Em manifestações encaminhadas ao governo durante a consulta pública da proposta, organizações como o American Council on Education afirmaram que limitar o tempo de permanência poderá reduzir significativamente a atratividade dos Estados Unidos como destino acadêmico.
Segundo essas entidades, a mudança cria insegurança para estudantes internacionais e pode afetar a competitividade das universidades americanas diante de países como Canadá, Reino Unido e Austrália, que nos últimos anos ampliaram políticas para atrair pesquisadores e profissionais altamente qualificados.
Os estudantes estrangeiros representam uma importante fonte de receita para as universidades dos Estados Unidos.
Dados da NAFSA (Association of International Educators) mostram que eles contribuem com dezenas de bilhões de dólares por ano para a economia americana, considerando mensalidades, moradia, consumo e geração de empregos.
Regra também afeta jornalistas estrangeiros
A nova regulamentação não se limita aos estudantes.
O governo também reduziu a duração dos vistos da categoria I, destinados a jornalistas estrangeiros.
Até então, profissionais de veículos internacionais podiam receber autorizações válidas por até cinco anos. Com a mudança, o prazo máximo passa a ser de 240 dias para a maioria dos países.
No caso de jornalistas chineses, o limite será ainda mais restritivo: 90 dias, refletindo o agravamento das tensões diplomáticas entre Washington e Pequim e o endurecimento da política americana em relação à imprensa estatal chinesa.
Nova fase da política migratória de Trump
A limitação dos vistos estudantis reforça uma agenda que marcou tanto o primeiro quanto o atual governo Trump: reduzir os canais de imigração, inclusive aqueles considerados legais.
Nos últimos meses, a Casa Branca já endureceu regras para pedidos de asilo, ampliou a fiscalização sobre universidades, restringiu programas humanitários e aumentou o escrutínio sobre vistos temporários.
Agora, ao impor um prazo máximo para estudantes internacionais permanecerem no país, o governo amplia seu controle sobre um dos principais caminhos de entrada de talentos estrangeiros na economia americana — uma decisão que deve reacender o debate entre defensores da segurança migratória e setores empresariais e acadêmicos que dependem da atração de profissionais altamente qualificados.







