O plano da Vale para fazer a mineração explodir no Brasil e gerar milhões de empregos
Documento reúne 15 medidas para ampliar investimentos, com foco em licenciamento, infraestrutura, energia, regulação e desenvolvimento
Por Ernesto Neves
A Vale apresentou nesta terça-feira, 18, em Brasília, um conjunto de propostas para ampliar a participação da mineração na economia brasileira.
O relatório Destravando o Potencial da Mineração no Brasil, elaborado com a consultoria Accenture, estima que a adoção das medidas poderia elevar para 5,3 milhões o número de empregos associados ao setor até 2035. É um acréscimo de 2,3 milhões em relação ao patamar considerado no estudo.
O documento também projeta que a atividade mineral poderia gerar R$ 1,3 trilhão em arrecadação de impostos entre 2026 e 2035. A comparação apresentada pela companhia é com os R$ 750 bilhões recolhidos na década anterior.
A Vale apresentou o estudo durante o fórum de mesmo nome, que reuniu representantes do governo federal, empresas do setor mineral e especialistas em infraestrutura e competitividade.
A companhia informou que pretende entregar o documento aos candidatos à Presidência da República.
As projeções são apresentadas pela própria Vale e pela Accenture como um cenário associado à implementação das medidas propostas.
Não se trata, portanto, de uma previsão oficial do governo nem de uma meta estabelecida pela política mineral federal.
O que a Vale quer mudar
O relatório reúne 15 iniciativas, organizadas em quatro grandes agendas.
A proposta parte do diagnóstico de que o Brasil tem uma base mineral relevante, mas enfrenta obstáculos que reduzem a capacidade de transformar reservas em investimentos, produção, empregos e arrecadação.
Entre os pontos destacados estão a necessidade de dar maior previsibilidade aos processos de licenciamento ambiental, melhorar a infraestrutura de transporte e logística, garantir oferta de energia a preços competitivos e rever aspectos regulatórios, tributários e financeiros.
A quarta frente trata dos efeitos da mineração nos territórios onde as operações estão instaladas, com propostas voltadas à geração de impacto positivo para comunidades e regiões produtoras.
O foco, portanto, não é apenas aumentar a quantidade de minério extraído. A discussão envolve também como financiar projetos, transportar a produção, agregar valor aos minerais e distribuir os benefícios econômicos da atividade.
Setor já movimenta quase R$ 300 bilhões
O tamanho da atividade ajuda a dimensionar a aposta.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o faturamento da indústria mineral brasileira chegou a R$ 298,8 bilhões em 2025, alta de 10,3% em relação ao ano anterior. O minério de ferro respondeu por R$ 157,2 bilhões, ou 52,6% do total.
A mineração também tem peso relevante nas exportações brasileiras. O Ibram informou que o setor respondeu por 55% do saldo da balança comercial em 2025 e projetou US$ 76,9 bilhões em investimentos até 2030.
A arrecadação dos royalties também mostra a dimensão da atividade. A Agência Nacional de Mineração registrou R$ 7,91 bilhões em CFEM em 2025, segunda maior marca da série histórica, atrás apenas dos R$ 10,3 bilhões de 2021.
A CFEM é uma compensação financeira paga pela exploração econômica de recursos minerais. Do valor arrecadado, 60% são destinados aos municípios produtores, 15% aos estados e 10% à União, enquanto outros 15% vão para municípios afetados pela atividade quando a produção ocorre em outro território.
Esses números ajudam a explicar por que a disputa por novos investimentos no setor ganhou importância.
A corrida pelos minerais críticos
A discussão ocorre também em meio à transformação da demanda mundial por minerais.
Cobre, lítio, níquel, grafita, terras raras e outros minerais passaram a ser considerados estratégicos para setores como veículos elétricos, baterias, geração e transmissão de energia, equipamentos eletrônicos e tecnologias digitais.
O próprio governo brasileiro colocou esse tema no centro de sua política mineral. O Plano Nacional de Mineração 2050, aprovado em julho, estabelece diretrizes para ampliar o conhecimento geológico, diversificar a produção, agregar valor às cadeias minerais e aumentar a competitividade brasileira.
A Agência Nacional de Mineração define minerais críticos e estratégicos como aqueles relevantes para a economia, a soberania, a segurança alimentar e a transição energética e cuja oferta pode estar sujeita a riscos de abastecimento.
O Brasil já possui posição relevante em alguns desses mercados, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar recursos geológicos em cadeias industriais mais sofisticadas.
Um estudo da ANM divulgado em julho, por exemplo, apontou que a Amazônia Legal responde por quase metade do valor gerado pelos minerais estratégicos do país. Ao mesmo tempo, a produção regional continua concentrada em ferro, bauxita, cobre e ouro, enquanto minerais como cobalto, terras raras e potássio ainda não têm produção relevante na região.
O gargalo começa antes da mina
Um dos pontos centrais do relatório da Vale é que aumentar a mineração não depende apenas da existência de reservas.
Um projeto mineral pode levar anos entre a identificação de uma jazida, a realização de estudos, a obtenção de licenças, a estruturação financeira e o início da produção. Depois, ainda depende de ferrovias, rodovias, portos, energia e outros serviços para chegar ao mercado.
O próprio PNM 2050 reconhece a necessidade de coordenar o planejamento da mineração com os setores de infraestrutura, especialmente energia, água e transporte e logística. O plano também aponta o financiamento como um desafio para ampliar investimentos, principalmente em pesquisa mineral e desenvolvimento de projetos.
Essa combinação de fatores explica a ênfase dada pela Vale a previsibilidade regulatória, infraestrutura e financiamento.
A disputa por investimentos ficou mais global
O Brasil não está sozinho na tentativa de ampliar sua participação na mineração.
Países produtores como Austrália e Canadá disputam investimentos para desenvolver novas minas e, principalmente, ampliar sua participação em cadeias de minerais considerados estratégicos.
O próprio Plano Nacional de Mineração 2050 aponta diferenças na estrutura de financiamento.
Segundo o documento, a bolsa canadense TSX Venture tinha 976 empresas de mineração e a bolsa australiana ASX, 806, enquanto a B3 tinha oito companhias do segmento.
O governo identifica a ampliação do acesso a mecanismos financeiros como uma das condições para aumentar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento mineral.
Para o Brasil, a questão não é apenas extrair mais. Há uma disputa para decidir em que etapa da cadeia o país ficará: como fornecedor de minério ou como produtor de materiais processados e componentes de maior valor agregado.
Uma agenda que chega ao ciclo eleitoral
A decisão da Vale de entregar o relatório aos candidatos à Presidência coloca as propostas no debate eleitoral de 2026.
O movimento ocorre poucas semanas depois da aprovação do PNM 2050 pelo governo federal. O plano foi apresentado pelo Ministério de Minas e Energia em julho como uma estratégia de longo prazo para o setor e prevê revisões periódicas e um Plano de Metas e Ações para transformar as diretrizes em iniciativas de execução.
Há, portanto, duas agendas que passam a se sobrepor: a estratégia de longo prazo definida pelo governo e a proposta apresentada pela maior mineradora do país para acelerar investimentos na próxima década.
A diferença é importante. O plano federal estabelece uma política pública para o setor até 2050. O documento da Vale apresenta 15 medidas específicas e uma estimativa econômica para o período de 2026 a 2035, defendendo mudanças capazes de acelerar a expansão da atividade.
A companhia calcula que, se esses obstáculos forem reduzidos, a mineração poderá ampliar sua contribuição para a economia brasileira em empregos, impostos e investimentos.







